Círio de Nazaré: uma manifestação de crença, devoção e cultura. Entrevista especial com João de Jesus Paes Loureiro

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Outubro 2012

"O Círio simboliza a saída e o retorno da Imagem da Santa ao seu lugar de escolha original", diz o escritor.

Confira a entrevista.


"O Círio de Nazaré de Belém do Pará contém a possibilidade de plurissignificação interminável, ressignificado ou multissignificado pelo dinamismo complexo e riquíssimo da cultura", diz o escritor e professor da Universidade Federal do Pará, João de Jesus Paes Loureiro à IHU On-Line. Para ele, a maior celebração religiosa católica do Brasil, que reúne aproximadamente seis milhões de pessoas em todas as procissões, representa uma identificação "harmoniosa entre crença, devoção e cultura". A celebração, que acontece anualmente desde 1793 na cidade de Belém, no Pará, revela que a "força mítica do imaginário amazônico (...) se abriu para a consciência do sobrenatural religioso, encontrando nele uma epifania espiritual de devaneio e esperança numa transcendência espiritual católica, de uma forma que os mitos culturais não podiam oferecer", assinala.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Paes Loureiro enfatiza que o "predomínio à dimensão de transcendentalidade mítica da cultura amazônica talvez seja motivador dessa popularidade e ardorosa devoção à Nossa Senhora de Nazaré". Para ele, o que faz com que o Círio de Nazaré seja particularmente paraense "é a sua configuração cultural e sua esteticidade. A estrutura do cortejo litúrgico como um rio humano que passa; a natureza das promessas levadas para serem ofertadas à Santa; a convivialidade fortalecedora de uma impressionante comunidade emocional; o fanatismo autoflagelador da corda puxada pelos romeiros; as vestimentas do promesseiros, de anjos, mortalhas etc."

João Jesus de Paes Loureiro é mestre em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade de São Paulo - PUC-SP, e em Semiótica pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, doutor em Sociologia da Cultura pela Sorbonne, Paris. Atualmente, leciona na Universidade Federal do Pará.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a origem do Círio de Nazaré?

João de Jesus Paes Loureiro -
Origem mítica, como decorrência do milagroso aparecer da imagem da Virgem de Nazaré a um homem simples, no tronco de uma árvore frondosa. Construída uma capela tosca para abrigá-la, ao ser levada para o altar, a imagem misteriosamente retornou à árvore, seu altar da natureza. O gesto e o fato se repetiram tantas vezes, que terminaram por construir a Capela no lugar em que Santa desejava ficar, e onde hoje  está erguida a Basílica Santuário. O Círio simboiliza a saída e o retorno da Imagem da Santa ao seu lugar de escolha original.

IHU On-Line - A que atribui a popularidade do Círio de Nazaré? Por que há tanta comoção em torno de Nossa Senhora de Nazaré, a Rainha da Amazônia?

João de Jesus Paes Loureiro -
À identificação harmoniosa entre crença, devoção e cultura. Também à força mítica do imaginário amazônico, do que conceitua como sua poética do imaginário, que se abriu para a consciência do sobrenatural religioso, encontrando nele uma epifania espiritual de devaneio e esperança numa transcendência espiritual católica, de uma forma que os mitos culturais não podiam oferecer. Ainda que diferentemente dos encantados do fundo dos rios e da floresta, o predomínio à dimensão de transcendentalidade mítica da cultura amazônica talvez seja motivador dessa popularidade e ardorosa devoção à Nossa Senhora de Nazaré.

IHU On-Line - Em que medida é possível dizer que o Círio expressa a identidade da  Amazônia? Quais são os elementos místicos, poéticos e simbólicos que estão em torno do Círio de Nazaré?

João de Jesus Paes Loureiro -
Na medida em que há uma sensibilidade mitologisante da sociedade ribeirinho-rural paraense e uma integração identificadora da cultura como intercorrentre entre Círio e sociedade. O que faz com que o Círio de Nazaré seja paraense é a sua configuração cultural e sua esteticidade. A estrutura do cortejo litúrgico como um rio humano que passa; a natureza das promessas levadas para serem ofertadas à Santa; a convivialidade fortalecedora de uma impressionante comunidade emocional; o fanatismo autoflagelador da corda puxada pelos romeiros; as vestimentas do promesseiros, de anjos, mortalhas etc.; a visualidade plástica e de apelo sensível; a sua etnocenologia, como comportamento espetacular organizado, o apelo à participação de artistas; a culinária característica e celebrada como entusiasmo profano coroando o dia; o estravazamento temático  nas artes; e a presença do estético como uma ética de compromisso religioso.

IHU On-Line - Quais são os signos que compõem o Círio de Nazaré? Em que medida ele pode ser lido como um “preamar de signos”?

João de Jesus Paes Loureiro -
Os signos-síntese são três: A berlinda com a Santa, signo da Fé; a corda puxada pelos fiéis, signo da Devoção; o brinquedo de Miriti de Abaetetuba, signos da cultura artística. São signos sintetizadores da multidão de signos complementares que, à semelhança de uma preamar nos rios, espalham-se em plenitude pela ruas da peregrinação.   

IHU On-Line - Qual o significado da corda do Círio? Por que muitos fiéis almejam um pedaço da corda após a procissão? O que isso significa?

João de Jesus Paes Loureiro -
A Corda, porque vem atada à berlinda da Santa, impregna-se do sagrado que a berlinda significa. Como tal, no todo ou em partes minúsculas em que é cortado pelo povo, representa um amuleto, um pólen de possíveis milagres ou curas milagrosas. Significa que o sagrado não é um signo em si nem para si. Como uma luz clareia tudo que entra em suas proximidade ou relação.

IHU On-Line - O Círio pode ser analisado como uma festa religiosa, profana, cultural, mercadológica e tecnológica, em termos de amadurecimento das tecnologias digitais? Por quê?

João de Jesus Paes Loureiro -
O Círio de Nazaré de Belém do Pará contém a possibilidade de plurissignificação interminável, ressignificado ou multissignificado pelo dinamismo complexo e riquíssimo da cultura. Hoje, desenvolve-se uma impressionante motorromaria (Círio de milhares de motocicletas que reproduzem signos e visualidades da romaria); o Círio Virtual, seguido pela internet em vários estados e países.