Argentina. O martírio de dom Angelelli

Mais Lidos

  • Católicos cínicos e a negatividade em relação ao Papa Francisco. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Influenciadores ou evangelizadores digitais católicos? Artigo de Dom Joaquim Mol

    LER MAIS
  • Campanha da Fraternidade 2024: Fraternidade e Amizade Social. Artigo de José Geraldo de Sousa Junior e Ana Paula Daltoé Inglêz Barbalho

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

01 Novembro 2018

O Papa Francisco o recordou, no último dia 29 de outubro, para dar seu conselho: “Um ouvido para escutar a Palavra de Deus e outro para escutar o povo”. O bispo de La Rioja, Enrique Angelelli, assassinado em 1976, será beatificado na cidade na qual era pastor, no próximo dia 27 de abril de 2019, além de outros dois sacerdotes (um frade argentino, Carlos de Dios Murias, e o padre francês fidei donum Gabriel Longueville) e um leigo pai de família (Wenceslao Pedernera). Todos eles foram assassinados em poucos dias, durante o verão de 1976, por militares.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 30-10-2018. A tradução é do Cepat.

Enquanto as circunstâncias do martírio dos dois sacerdotes e do leigo que colaboravam com Angelelli não deixam lugar para dúvidas (foram assassinados após terem sido sequestrados e ter os pés e mãos amarrados, os dois primeiros, e agredido por um comando enquanto estava na sua casa com a família, o terceiro), a morte do bispo durante muito tempo foi considerada um acidente automobilístico. Uma “verdade” oficial, do regime, que desde o princípio muitos fiéis de La Rioja não acreditam, pois havia muitos indícios de que estava sendo preparado algo nefasto para o seu pastor, que acabou sendo alvo dos militares por sua proximidade com os camponeses e por seu anúncio evangélico, seguindo as pegadas do Concílio Vaticano II e da Conferência do Episcopado Latino Americano de Medellín. O padre Jorge Mario Bergoglio o conheceu pessoalmente em 1973.

Nos últimos meses, surgiram suspeitas sobre as circunstâncias da morte de Angelelli, bem como sobre sua missão episcopal, que foi obstaculizada por setores do catolicismo argentino entusiastas da ditadura militar e alérgicos a certos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja a respeito da justiça social. Tratou-se (primeiro na Argentina e depois entre algumas páginas da internet que pertencem à galáxia de meios de comunicação anti-Francisco) de diminuir a figura de Angelelli, apresentando-o como um “agitador”, um marxista. O mesmo aconteceu, durante muitas décadas, com o novo santo Óscar Arnulfo Romero, o arcebispo de San Salvador assassinado no altar enquanto celebrava a Eucaristia.

O franciscano conventual Murias e o sacerdote francês Longueville, sequestrados na base aérea de Chamical, Argentina, no dia 19 de julho de 1976, foram torturados, assassinados e seus cadáveres foram aliados dois dias depois. Wenceslao Pedernera, organizador do Movimento Rural Católico, foi assassinado em sua casa em frente à sua esposa e suas três filhas, no dia 25 de julho desse mesmo ano. Sua causa de beatificação chegou a Roma em 2015. Poucos dias depois de seu assassinato, o bispo Angelelli (18 de julho de 1923 – 4 de agosto de 1976), ao voltar de Chamical onde havia celebrado uma missa em memória de Murias e Longueville, morreu em um acidente automobilístico, segundo a versão da polícia e o tribunal.

Contudo, em julho de 2015, após o Vaticano fornecer um documento-chave, um tribunal estatal reconheceu que havia sido um homicídio e condenou à prisão perpétua o ex-general do exército Luciano Benjamín Menéndez, de 86 anos, e o ex-comodoro Luis Fernando Estrella, de 82 anos, reconhecendo-os como os autores intelectuais.

Em meados de julho, foram sequestrados os dois sacerdotes de Chamical. Pessoas que haviam mostrado credenciais da Polícia Federal se apresentaram na residência das religiosas onde os dois estavam jantando e os levaram. Foram convencidos a acompanhá-los por dizerem que eles precisavam depor por alguns jovens encarcerados. Os carros em que foram levados não tinham placas. As religiosas, alarmadas, não denunciaram os fatos porque a polícia local as convenceu de que não era conveniente. Os corpos sem vida de ambos foram encontrados dois dias depois, em 21 de julho, em um lugar da linha de trem, a cinco quilômetros do povoado. Foram baleados. Tinham os pés e as mãos amarradas. Tinham os olhos tapados. Uma semana depois, o camponês leigo Pedernera foi metralhado em sua casa, em Sañogasta.

O bispo Angelelli reuniu testemunhas sobre estes homicídios e conservava consigo, zelosamente, a documentação na qual, lê-se no relatório histórico que se encontra nas atas do processo de beatificação, ficava claro o “plano sistemático de repressão”. Desde o dia 5 de julho de 1976, poucos dias antes de seus dois colaboradores serem brutalmente assassinados, o bispo Angelelli escreveu um detalhado relatório ao núncio apostólico na Argentina, Pio Laghi (alistado nas atas da causa com o protocolo n. 898/2014 pela Congregação para os Bispos), no qual explicou que o chefe militar Osvaldo Héctor Battaglia obstaculizava o trabalho pastoral da Igreja, humilhando o bispo, os sacerdotes, os religiosos e religiosas com todo tipo de vigilância e sequestros, inclusive durante os exercícios espirituais: “A todos os presos fazem perguntas fundamentais acerca da relação com o bispo, com os sacerdotes, religiosas e instituições da Igreja”.

Os militares suspenderam a transmissão via rádio da missa que Angelelli celebrava na catedral de La Rioja e a substituíram por uma celebrada por um capelão militar. Os militares obrigaram o sacerdote preso, o padre Ruíz, a escrever da prisão uma carta contra Angelelli, que afirmou: “foi moralmente torturado para que a escrevesse”.

“Estamos permanentemente obstaculizados – escreveu Angelelli ao núncio – em cumprir com a missão da Igreja. Pessoalmente, os sacerdotes, as religiosas, somos humilhados, requisitados e invadidos pela polícia com ordem do Exército. Já não é fácil fazer uma reunião com os catequistas. Todo este proceder surge principalmente do exército e da pessoa do chefe e do segundo chefe: Pérez Battaglia e Malagamba. O chefe de polícia, major de Césari, ao ‘deter’ seis religiosas entre as quais estava a Provincial das Azuis, Madre María Eugenia, publicamente lhes disse que eram suspeitas e que o maior ideólogo marxista era o bispo (ridículo!). Até a isto chegamos. Aconselharam-me que o diga: novamente fui ameaçado de morte. Ao Senhor e a Maria me encomendo. Só digo para que fique sabendo”, mas considerar estes fatos “não significa que não devamos olhar tudo a partir da Fé e com uma grande paz interior e com esperança cristã”.

É preciso destacar o trecho em que Angelelli se refere às ameaças de morte e explica ao núncio apostólico que não eram as primeiras que recebia:

“Não é uma novidade o que informo - lê-se no relatório do bispo a dom Laghi -, mas é uma realidade dolorosa que me dói muitíssimo. Nossa prisão está cheia de detidos. Pessoas honrosas, pais de família; gente simples, estão dentro muitos deles apenas pelo “crime” de ser membros fiéis e conscientes da Igreja [...] Uma novidade para La Rioja: tortura-se repugnantemente. Quero voltar a um assunto do qual lhe falei a última vez: a missão da Vicariato Castrense, nestas circunstâncias que vivemos, e as relações com a diocese. Depois da conversa com o general Menéndez e o general Vaquero no Comando do III Corpo do Exército em Córdoba, compreendi o que significa que nossos militares se sintam “cruzados da fé” e sintam que é preciso unir cruz e espada para matar os inimigos de Deus e da Pátria. Disse-me com essas palavras e convencido, em uma conversa amável. Senhor núncio, pensemos a tempo tudo isto para não ter que lamentar consequências dolorosas em um futuro muito próximo! Não quero pintar escuro o horizonte!”.

Infelizmente, Angelelli não estava pintando de escuro o horizonte, mas simplesmente anunciando (e não precisava ser profeta para fazer isso) o que estava para acontecer. E indicava nome e sobrenome dos autores intelectuais. Em outra carta ao núncio, do dia 27 de julho, o bispo informou ao representante do Papa sobre os assassinatos dos dois sacerdotes e do leigo, falando, apesar de tudo, de “paz e esperança”. Mas, também acrescentou: “Está sendo investigado. Acredito que precisamos de garantias para que tenha resultado positivo. Julgo que dificultarão determinados interesses para que não avance”. Nessa mesma carta, Angelelli pediu um encontro com o núncio para “oferecer mais elementos de avaliação”. Não teria a possibilidade de se reunir com Laghi, pois sua vida estava para ser decepada, e os documentos que havia reunido foram sequestrados pelos militares.

No dia 27 de julho de 1976, o padre Giorgio Morosinato, guardião Provincial dos conventuais, escreveu ao Ministro geral da Ordem, o padre Vitale Bommarco, sobre o assassinato dos dois sacerdotes. O documento foi encomendado à nunciatura apostólica de Buenos Aires para que chegasse à Itália sem ser interceptado: “Não temos dúvidas de que o duplo delito foi perpetrado diretamente ou mediante mercenários pela extrema-direita”, nem de que quem assassinou “atuou com a proteção ou o favor da polícia local. O povo repete de forma unânime que tudo é obra de dois altos oficiais da base de Chamical”.

Em relação aos homicídios, o padre Morosinato, após ter falado com Angelelli, escreveu: “Não podendo, por muitas razões, golpear diretamente a pessoa do bispo local, fazem represálias contra algum de seus auxiliares. O bispo teve sérias dificuldades com dois oficiais da Base de Chamical por motivos religiosos e de jurisdição. Além disso, o clero indicava que tanto a polícia como o Exército consideram dom Angelelli e o clero como de esquerdas ou diretamente comunistas”.

Outra das razões que o superior franciscano cita em seu texto, que agora pertence aos documentos da causa, é a “vingança contra os dois sacerdotes” e “particularmente contra o padre Carlos, que sempre, em público e em particular, defendia o bispo e, sem meias palavras, pregava o Evangelho segundo a atualização proclamada pelo Vaticano II e por Medellín”. Também queria “dar uma lição ao clero argentino que não se encontrava na sintonia política imposta por este novo governo. Pretende-se com estes dois assassinatos fechar as bocas. É claro, nem o padre Carlos, nem o padre Gabriel Longueville, pertenciam à esquerda, nem usavam armas. Além disso, o padre Carlos havia participado com o pai de várias campanhas eleitorais em favor do partido radical (partido ao centro). E mais, pode-se dizer que eram anticomunistas. Examinando as atividades dos dois sacerdotes, sua pregação (o padre Carlos deixou escritas todas suas pregações dominicais dos últimos meses), o bispo e o clero local, concluímos, reunidos todos em Chamical, que os dois sacerdotes foram martirizados porque não tiveram medo de pregar o Evangelho como a Igreja e o Papa querem que seja pregado hoje e por ter se colocado ao lado dos humildes que não têm nenhuma possibilidade de se fazer escutar. E isto explica a razão do grande afeto que as pessoas de Chamical nutriam por seus dois sacerdotes e por que agora os sentem como santos e protetores. Tudo nos faz suspeitar que a perseguição continuará”.

Angelelli escreveu ao núncio Pio Laghi sobre as ameaças de morte que havia recebido. Após os brutais homicídios de julho de 1976, perpetrados contra pessoas próximas a ele, se deu conta de que as ameaças eram iminentes e as havia aceitado. O então vigário, o padre Arturo Pinto, ao descrever os últimos dias de vida do bispo, apontou que estava consciente de ser o próximo na lista dos militares e, ao mesmo tempo, sua determinação em não fugir ou estabelecer acordos, segundo expressou o próprio bispo em uma reunião no dia 3 de agosto de 1976. “Nessa reunião, nós que estávamos, insistimos para que ele se distanciasse, porque temíamos pela sua vida. Ao que ele respondeu, entre outras coisas: ‘O pastor não abandona suas ovelhas... Procuram-me e me encontrarão”” (“Summarium Testium Angelelli”, teste XXIII, par. 186).

Irmã Angélica dos Santos se reuniu com Angelelli durante os últimos dias de julho e os primeiros de agosto de 1976. Seu depoimento, nas atas da causa, confirma o que afirmou Pinto: “nesses dias precedentes, em uma oração das Laudes que se prolongou muito, ao final, ele fez um círculo-espiral que mostrava que estava para se tocar finalmente nele, depois dos padres. Como o apóstolo Pedro, eu me negava a aceitar essa possibilidade. Ele, como Jesus, repreendeu-me duramente [...] Disseram-lhe na noite anterior: ‘Prelado, deixe La Rioja, tome um coletivo e saia de Córdoba’. Mas ele não quis. ‘Se perseguem as ovelhas, o pastor não pode fugir’”.

O padre Sebastián Antonio Glassman também estava nessa reunião e confirmou estes detalhes, acrescentando que Angelelli recomendou a todos a necessidade de continuar oferecendo o testemunho dos valores evangélicos com coragem, mas ao mesmo tempo com a necessária prudência: “aconselhou-nos prudência, não provocar, não nos fazer os heróis, cuidar de nosso povo, não falar muito, porque as pessoas sabiam o que éramos, pensávamos e não era preciso que nos fizéssemos os profetas”.

O padre Miguel Ángel López, assim como outros testemunhos citados, confirma plenamente a consciência do bispo de ser o objetivo principal dos militares, após os assassinatos dos dois sacerdotes e do leigo. Outra testemunha, Miguel Argentino Pérez Gaudio, cita outras palavras de Angelelli: “Era corajoso. ‘Olhe, Miguel, não sei quanto tempo tenho, irão me matar’, chegou a me dizer”. “Parece que as afirmações das testemunhas – lê-se na “Positio” – não deixam espaço para nenhuma dúvida legítima sobre a disponibilidade do Servo de Deus em dar o sangue por amor de Cristo”.

No dia 3 de agosto, Angelelli se reuniu com seus mais próximos colaboradores e, segundo o que recordou Pinto, expressou estar consciente de que seu destino já estava marcado: “Nesta reunião, nós, que estávamos, lhe insistimos para que se afastasse porque tínhamos medo por sua vida [...] E disse: ‘Agora cabe a mim’”. No âmbito da mesma reunião, o bispo pediu ao então sacerdote Pinto que o acompanhasse de volta para sua sede.

Os eventos do dia seguinte foram descritos com bastante precisão pela testemunha. Este último indicou que revistou muito bem tudo antes de sair e se assegurou de que o veículo estivesse em boas condições. Portanto, após ter almoçado na casa de algumas religiosas, lá pelas 15h, ele e Angelelli decidiram se colocar a caminho. Considerando a situação, tomaram um caminho para evitar qualquer contato com a entrada da CELPA (“Centro de Ensaio e Lançamento de Projéteis Autopropulsados”, unidade operativa das forças aéreas argentinas em La Rioja, que nessa época estava sob o comando de Luis Fernando Estrella e Lázaro Aguirre). Ao chegar a Punta de los Llanos, a 32 quilômetros de Chamical, verificou-se o acidente: “Passado o local mencionado de Punta de los Llanos [...], vi com surpresa – afirmou Pinto – como um segundo veículo de tamanho mediano e cor clara nos alcançava e de maneira brusca e rápida nos fechava a passagem. Nesse momento, consegui ouvir um grande estouro, perdendo a consciência, que retomei no dia seguinte, quando saía do hospital de Chamical para Córdoba”.

Os documentos que o bispo levava com ele nunca foram encontrados. No julgamento penal instruído em fins de dezembro para esclarecer os fatos, também depôs Rodolfo Peregrino Fernández, secretário particular do então ministro do Interior Albano Harnguindeguy. Fernández afirmou que, dois dias após a morte de Angelelli, os documentos em questão foram levados ao Ministério do Interior, em Buenos Aires, e que ali foram depositados como documentos reservados.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Argentina. O martírio de dom Angelelli - Instituto Humanitas Unisinos - IHU