A racionalidade inútil

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26 Outubro 2018

"A racionalidade deixou de ser um fim, um ponto de chegada, para ser entendido teleologicamente como aquilo que a humanidade deveria alcançar; e se revelou (também? apenas?) um meio que permitiu, em uma determinada época, o surgimento de um tipo humano específico, ou de um psicologia humana particular", escreve Emanuele Curzel, pesquisador de História Medieval na Universidade de Trento e professor de História da Igreja no Instituto de Ciências Religiosas de Bolzano, em artigo publicado por Settimana News, 21-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Para mim, as passagens mais interessantes de A ética protestante e\o espírito do capitalismo (ensaio que Max Weber publicou entre 1904 e 1905) não estão na discussão sobre as características do espírito capitalista, ou nas páginas em que o autor mostra como o ascetismo intramundano de base religiosa seja uma das suas fortes raízes, e nem mesmo na conclusão em que Weber acaba se entregando a perguntas sobre o futuro, que não esperaríamos de um austero professor. Os argumentos que mais me impressionam - por mais secundários que possam ser no plano do autor - são, em vez disso, aqueles em que o sociólogo descreve a angústia do crente. "Uma questão impunha-se de imediato a cada fiel individualmente e relegava todos os outros interesses a segundo plano: serei eu um dos eleitos?”(p. 100, Cia das Letras, 2004).

O crente calvinista/puritano dos séculos XVII e XVIII, claro: mas também o crente que tem uma consciência da grandeza divina que faz com que suas ações sejam insignificantes em relação ao seu próprio pessoal destino eterno. Um sentimento que era próprio dos grandes convertidos, Paulo, Agostinho, Lutero, Jansen, e que também é encontrado em muitas correntes fatalistas mais recente, mais ou menos diretamente relacionadas com a pregação calvinista. O crente, em suma, sabe que a sua salvação ou a sua perdição dependem apenas da vontade divina, já estabelecida pela eternidade; o crente que vive na angústia de não saber qual é a decisão que lhe cabe, enquanto gostaria de conhecê-la. Ele, portanto, se sente no direito e no dever de se perguntar qual é essa determinação divina, à qual nada pode opor, dado que nem mesmo a fé, que de acordo com Lutero salvava o crente, pode ser considerada nada mais do que uma inútil e quase blasfema "obra".

Max Weber demonstra como os pregadores puritanos do século XVII – do tipo de Richard Baxter que é amplamente citado na A ética protestante – tenham ensinado a mais gerações como lidar com essa angústia. Não fugindo do "mundo", como haviam feito por séculos monges orientais e ocidentais: mas, ao contrário, permanecendo ali com um comportamento ascético que não se deixava dominar por paixões, e que vivia cotidianamente o seu trabalho (o termo usado é Beruf, "vocação”) com honestidade e com método. Alcançar esse comportamento não constituía qualquer mérito, mas demonstrava ao crente que fora abençoado por Deus O resultado, em termos econômicos, foi, inevitavelmente, aquele que já havia observado no século XVIII John Wesley, também citado por Weber: "Religião, com efeito, deve necessariamente gerar, seja laboriosidade, seja frugalidade, e estas não podem originar senão riqueza" (p. 159). O fundador do Metodismo chegava a uma conclusão amarga: aquela mesma riqueza só podia corromper o crente.

Nesse ponto, Wesley estava, pelo menos, parcialmente equivocado. Entre os séculos XVIII e XX muitos Ebenezer Scrooge (e muitos Tio Patinhas: o penudo personagem da Disney/Barks que é certamente conhecido tanto quanto o protagonista do Christmas Carol de Dickens) continuaram a viver de modo heroicamente ascético, sem desperdícios e frivolidade, sem misericórdia para com os outros e consigo mesmos, e graças a tal estilo de vida acumularam capitais que, laboriosamente reutilizados, deram origem ao mundo que conhecemos. E mesmo quando conservar um comportamento ascético, laborioso e racional já não era mais considerado explicitamente o sinal da bênção divina, mesmo assim os homens de tantas gerações encontraram ali a própria "realização" e, portanto, em certo sentido, a consciência de não ter vivido em vão. De estarem salvos.

Nas páginas de Weber aparece incindível a ligação entre o comportamento racional e a acumulação capitalista: aliás, justamente o capitalismo (gerado a partir daquela raiz religiosa) seria a máxima expressão da racionalidade formal, o ponto de chegada do desencanto do mundo. É postulado, mais ou menos implicitamente, um elo entre o comportamento racional (trabalho duro, sobriedade), por um lado, e o sucesso econômico, pelo outro.

Para a época de Weber e para aquela imediatamente anterior, era verdade, e teria sido verdade por décadas. Uma sociedade que havia desmantelado ou estava desmantelando as distinções de classe, que favorecia e apontava como exemplo a ascensão dos self-made men, que sentia e se queria fundada sobre o trabalho (e esta última frase, aos italianos, deveria dizer algo), só poderia considerar essa conexão óbvia. Não só os empresários, mas também o simples trabalhador do XVII, XVIII, XIX ou XX século, que estivesse ciente disso ou não, estava vivendo seu ascetismo intramundano (seu levantar-se cedo pela manhã, seu trabalhar duro e honestamente, seu economizar tempo e dinheiro, seu rejeitar luxos e entretenimentos, e também seu inventar novas formas de sucesso e lucro) como premissa para a ascensão econômica e social. A sua "contabilidade" registrava um determinado número de saídas - em termos de esforços e sacrifícios - mas receitas excepcionalmente elevadas em termos de autoestima, que implicitamente respondiam à angustiada pergunta sobre sua pessoal salvação (ou sobre sua pessoal realização, que é o mesmo).

Usando termos darwinistas, eu diria que o impulso para dar uma resposta intramundana à angústia tinha se tornado, naquele contexto particular, um "fator de seleção" econômico e social. Quanto mais você trabalhava "racionalmente", mais você ganhava, mais subia na escala social, mais você se sentia realizado.

Naquele contexto particular. O mecanismo descrito acima, de fato, se realizava em um panorama econômico e social bastante diferente daquele que vivemos atualmente.

O grau de complexidade aumentou ao ponto de a ciência e a tecnologia terem conteúdos quase mágicos para a quase totalidade da população. A riqueza deslocou-se do trabalho para a renda. O sistema mundial de informação "cria" o poder de acordo com lógicas que nada têm nada a ver com aquelas que podiam determinar riqueza e sucesso nos tempos de Benjamin Franklin (autor citado no início do estudo de Weber). A ascensão econômica e social não se deve mais ao trabalho metódico, mas à renda de posição, à "sorte" e até ao descaramento de mentir.

Ser ascético não rende mais, até leva a perder bons negócios: ostentar o luxo serve mais do que a sobriedade e a compostura. Nem mesmo o "crédito" que Franklin exaltava parece tão importante, quando se pensa em como nascem as bolhas que geram as crises econômico-financeiras. A inovação, num planeta que duvida do próprio futuro ambiental, é agora vista com olhar crítico. A ascensão intramundana, a racionalidade, a metodicidade, de fatores de seleção positivos correm até mesmo o risco de se transformarem em fatores de seleção negativos. E se a racionalidade não nos dá mais salvação (no sentido amplo que estamos empregando), o que podemos fazer com ela?

Não é de admirar, então, que do mundo econômico e social esse desprezo tenha se transferido para outros setores de atividade e do pensamento humano: política, cultura, filosofia, religião (em sentido estrito). A racionalidade deixou de ser um fim, um ponto de chegada, para ser entendido teleologicamente como aquilo que a humanidade deveria alcançar; e se revelou (também? apenas?) um meio que permitiu, em uma determinada época, o surgimento de um tipo humano específico, ou de um psicologia humana particular.

Quem acredita, hoje, que o homem deva considerar a racionalidade científica como o único modo possível para interpretar o mundo vive as dificuldades daqueles missionários que, perdida a superioridade tecnológica do "branco" em relação ao "negro", devem pregar o Verbo para homens que já não sentem qualquer sentimento de inferioridade em relação a eles.

Weber, antes de escrever a página conclusiva de seu estudo, sugeria ao leitor uma famosa metáfora: se para o pregador puritano os interesses pelos bens materiais deviam ser apenas um "leve manto que se pudesse despir a qualquer momento”, para o homem de seu tempo esses tinham se tornado uma "rija jaula de ferro": perdido o seu "espírito", "o capitalismo vitorioso, em todo caso, desde quando se apóia em bases mecânicas, não precisa mais desse arrimo” (p. 165). Avaliação singular: e não tanto pela imagem da "jaula" - que hoje poderia até parecer para muitos mais um símbolo de proteção que de cativeiro - mas por aquela observação sobre o fato que do "espírito" o capitalismo, como mecanismo econômico agora operante, não precisaria mais.

O fato de que o indivíduo renunciasse a interpretar (ainda são palavras de Weber) a profunda raiz do impulso para o enriquecimento não implicava certo que este não existisse; sob outros nomes, a necessidade de se sentir salvo/realizado/satisfeito tinha continuado a agir, e continuava a encontrar um significado no nexo entre comportamento racional e sucesso econômico. E tudo isso, em minha opinião, não pode ser definido como um fato racional, mas apenas uma diferente forma de crença religiosa.

Sabe-se que, diante do fato religioso, Weber se declarava unmusikalisch, que não significa simplesmente "desafinado", mas justamente "incapaz de compreender a música". Talvez até incapaz de entender que existem tantas músicas e muito diferentes umas das outras. Talvez seja por isso que em seus escritos a oposição entre religião e ciência parece tão nítida? Que fora do tempo da religião, ele apenas veja um tempo sem Deus? E será por isso que o leitor que, por sua vez, é religiosamente musikalisch percebe como demasiado tosca essa contraposição, assim como todo raciocínio que fale genericamente, para o tempo presente, de um "retorno da religião"?

Agradeço ao leitor que me seguiu nessas divagações sobre o tema "weberiano", e chego a algumas (questionáveis!) conclusões, tentando não deixar demais para o implícito.

1. Entre os anos de Max Weber e os nossos ocorreu uma grande transformação socioeconômica: o nexo causal entre racionalidade e enriquecimento foi estilhaçado.

2. Considerando que o enriquecimento, ou o sucesso profissional, foram (pelo menos implicitamente) a "prova" do favor divino, enfraqueceu-se também o nexo entre racionalidade e religião (entendida amplamente e secularmente como motivação profunda e pré-racional da ação humana). Houve um tempo em que havia formas "religiosas" que encontravam na racionalidade que enriquece a própria prova da verdade: aquele tempo não é o nosso.

3. A "religião" tem, consequentemente, mudado de caminho: a certeza da salvação (em outras palavras: a certeza de não ter vivido em vão) não é obtida partindo do pressuposto que a realidade tenha um Logos.

4. O fato de crer que, "em princípio" (na base, na origem, na fonte) esteja o Logos (a razão, o sentido, a lógica) é, ou torna a ser, apenas e tão somente o resultado de um ato de fé. A religião – toda religião – pede hoje para ser vivida sem “provas”, sem “milagres”, sem “sabedoria” (1 Corintios 1,22).

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