O cinema que permite uma experiência crítica de mundo

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03 Outubro 2012

"Teólogo no cinema quer encontrar um ponto de contato entre a teologia e o cinema, a expressão, aquilo que resta ao ser humano quando o pensamento foge e precisa-se expressar o que ocorre. Essa nova linguagem que rompe e é capaz de expressar situações limites é proporcionada na arte e na religião", comentou Joe Marçal Gonçalves dos Santos (foto), graduado, mestre e doutor em Teologia, durante o minicurso Semânticas do Mistério no cinema. Aproximações entre O Sacrifício, de Andrei Tarkovski, e Árvore da Vida, de Terrence Malick, que integra a programação do XIII Simpósio Internacional IHU - Igreja, Cultura e Sociedade.

Joe Marçal explica que não é realizada a distinção entre arte e religião, muitas vezes, e que o cinema, como filho da literatura e da arte, hoje já alcançou uma autonomia relativa e percebe-se nele talvez a única forma artística no qual não encontramos uma vertente sacra, pois o cinema sacro não existe. O cinema pode ser visto como o mais eficaz contador de histórias da modernidade, inclusive chamado por alguns de máquina dos sonhos. "Não há mito moderno que não tenha a sua base focada no cinema", afirma. O cinema é um dos grandes gerenciadores de toda uma produção simbólica, mas o cinema também se torna gerenciador de críticas e mal-estar.

O teólogo iniciou sua apresentação questionando se tanto “Igreja”, quanto “Cinema” trata-se de um mesmo “mistério”. Se no campo religioso a sociedade contemporânea não vai encontrar mais em grande medida as narrativas de compreensão de mundo, em grande medida vai encontrar no campo da produção cultural, como por exemplo, o cinema. A imagem em movimento é talvez a mediação mais corriqueira, mais cotidiana, através da qual as pessoas hoje organizam os seus sentimentos diários, seja vendo a novela, ouvindo a narrativa do Jornal Nacional ou vendo um filme. A imagem em movimento se torna uma poderosa mediação para as pessoas organizarem suas emoções, suas memórias e construírem suas percepções de vida.

Marçal utilizou duas citações filmográficas para analisar a aproximação entre os dois filmes. Mostrou a cena de Jack, adulto, no telefonema com o pai, no filme “Árvore da Vida” e a cena da oração de Alexander no filme “O Sacrifício”. O cinema que permite uma experiência crítica de mundo, e esse cinema é o que serve para trabalhar a perspectiva teológica.

Os dois filmes, na medida em que entram em questões da alma humana, exigem reflexão. É uma estética do cinema que não conta com o olhar distraído, pois exige raciocínio. Segundo Joe Marçal, é preciso olhar o filme e perguntar-se: “O que essa imagem significa para mim e o que me acontece ao olhar essa imagem?”. É necessário perceber que o filme convida à um pensamento que brota, antes de tudo, uma emoção. Mais do que perguntar o que significa, esses filmes rompem com um pensamento, conceitos delimitados, e passam a trabalhar com coisas que não estão prontas. As duas obras remetem o espectador à um diálogo de oração, pois questionam a situação do ser humano exercendo a oração, de uma maneira extremamente poética, suscitando ou convidando para participar desse estado de espírito orante.

Marçal questiona: “O que os dois filmes trabalham nas situações do ser humano exercendo a oração?” e responde: “Uma linguagem ainda possível em uma situação limite de vida”. Pode parecer artificial a aproximação dos dois filmes e acho que devemos respeitar as diferenças entre os dois filmes, mas tomando como tema a sociedade e a cultura como um todo encontrando o seu limite, temos uma representação muito significativa. São elaborados tratando sobre questões da vida e fazendo relação de situação da criatura humana exercendo essa linguagem tão complexa e beirando o absurdo. A intuição forte na nossa cultura contemporânea não está em torno de significados definidos, mas de significações múltiplas, de uma cultura pós-metafísica. Os dois filmes representam também um dos problemas da humanidade que é a pobreza espiritual.

Para Joe Marçal, o cinema consiste de uma das formas de realização simbólica daquilo que escapa à realização prática e material da cultura. Trata-se de uma criação que se realiza na fronteira com o mundo, a sociedade e as subjetividades constituídas historicamente. Nesse sentido, a imagem em movimento consiste de uma das mais eficazes semânticas do mistério na modernidade. “Não há uma grande resposta, não há um grande absoluto, mas há a oração”, finaliza o teólogo.

Para conferir a entrevista de Joe Marçal à IHU On-Line, acesse o sítio da revista e para conferir a programação completa do XIII Simpósio Internacional IHU, acesse o sítio do evento.

Por Luana Taís Nyland