''A maioria dos muçulmanos são moderados, mas não se atrevem a criticar''

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12 Janeiro 2015

Os ataques islamistas de Paris repropõem fortemente a questão da relação entre cultura ocidental e mundo muçulmano, que parece estar cada vez mais dividida entre moderados e fundamentalistas. Cecilia Sepia falou com o padre Samir Khalil Samir, professor de história da cultura árabe e islamologia da Universidade Saint Joseph, de Beirute.

A reportagem foi publicada no sítio da Rádio Vaticano, 10-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

A maioria dos muçulmanos são moderados.

Certamente existem os muçulmanos moderados e são a maioria. E a maioria dos muçulmanos gostaria de viver em paz com todos. Mas há um problema, porque o Islã em si mesmo está dividido em grupos opostos, e muitas vezes, em toda a história islâmica, e ainda hoje, os muçulmanos, quando não concordam, reagem com a guerra. De fato, o Isis usa a violência contra os xiitas, contra outros grupos muçulmanos sem distinção, sem piedade. Então, dizer que aquilo que aconteceu na França não tem nada a ver com o Islã não é verdade. Mas dizer que esses são extremistas é verdade. E grande parte, a maioria – acho eu – dos muçulmanos não é favorável, mas não se atreve a criticar.

Diz-se frequentemente: a violência não faz parte do Islã, e, portanto, esses muçulmanos violentos não são autênticos muçulmanos. Devo dizer: infelizmente, não é a realidade, porque, no próprio Alcorão, temos versículos que dizem: "Matem-nos onde quer que os encontrem, tratando-se de infiéis", isto é, daqueles que não aceitaram se tornar muçulmanos. Quando os muçulmanos dizem e repetem – e sempre o fazem, todas as vezes em que há um ataque – "isso não tem nada a ver com o Islã", é um jogo de palavras inaceitável. Por quê? Porque quem o faz não o faz como um indivíduo qualquer, mas o faz em nome do Islã.

O Ocidente é um objetivo do fundamentalismo islâmico, mas há também aqueles que argumentam que não é nada mais do que um ataque à civilização: em particular, com o atentado ao Charlie Hebdo, vimos violada a liberdade de expressão ou a liberdade de imprensa, de pensamento. Por que isso?

Até um ou dois séculos atrás, o Ocidente era visto de forma positiva, porque trazia a tecnologia, a modernidade etc., e era crente, considerado pelos muçulmanos como cristão. Hoje em dia, é óbvio que o Ocidente não se considera, ao contrário, se recusa a se considerar cristão – a União Europeia também rejeitou pôr na sua premissa até mesmo que é de origem cristã. Então, nos fatos, os muçulmanos – com razão – dizem: o Ocidente é um neopaganismo e não tem as regras do crente. E assim identificaram cada vez mais o Ocidente com o inimigo: inimigo de Deus, inimigo da religião... E isso é muito difundido entre os grupos fundamentalistas. Portanto, a luta contra o Ocidente é uma luta contra o novo paganismo, enquanto a maioria dos muçulmanos dizem: "Não, façamos a distinção. Certos aspectos da vida moderna, como a igualdade entre homem e mulher, a distinção entre a religião e a política, são coisas boas. Em vez disso, o uso das armas é uma coisa moderna, mas ruim". Mas os fundamentalistas colocam tudo no mesmo saco: Ocidente = ex-cristãos = pagãos = modernidade. "Portanto, a modernidade é pagã, devemos lutar contra os inimigos de Deus."

Como se vence o terrorismo? Qual pode ser a solução?

Há um problema de educação, de reflexão que falta hoje em dia no mundo muçulmano. É preciso o diálogo! O outro aspecto é o de ajudar os muçulmanos a fazer autocrítica, a rever o seu modo de agir e de pensar. Finalmente, no fundo, se trata de repensar o texto do Alcorão. O texto não pode ser tocado, como para a Bíblia. Mas a interpretação do texto é uma necessidade, isto é, situar esse texto no seu contexto histórico.