A suposta carta dos 13 cardeais ao papa: um enigma envolto em mistério

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

14 Outubro 2015

A segunda semana do "Sínodo midiático" se abriu com uma carta "privada" de 13 cardeais ao papa, vazada por um jornalista veterano e depois desmentida por diversos supostos signatários.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 12-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sandro Magister publicou nesse domingo, com um comentário próprio, uma carta de 13 cardeais dirigida ao papa antes da abertura do Sínodo, carta em que os purpurados – sete europeus, três norte-americanos, dois africanos e um da Oceania (incluindo três cardeais prefeitos: George Pell, Robert Sarah e Mauro Piacenza) – expressam diversas preocupações de quem, no fim, substancialmente, teme um Sínodo manipulado, pilotado, domesticado, não livre (todas palavras nossas e não da carta).

Magister abre o seu artigo dizendo: "Mas Francisco rejeitou em bloco as suas reivindicações". Andrea Tornieli especifica: "A essa carta, no dia seguinte, na Aula, responderam o secretário-geral do Sínodo, o cardeal Lorenzo Baldisseri, e o próprio Papa Francisco. O primeiro explicou que os signatários cometeram um erro ao falar de mudanças de procedimento relativas à comissão encarregada de redigir o documento final e relativas à nomeação dos relatores dos circuli minores".

Depois, o coordenador do Vatican Insider entra nos detalhes e observa pontualmente:

"Quanto à primeira objeção, Baldisseri explicou que, até o Sínodo extraordinário de 2014, a redação do documento final era confiada a três a quatro pessoas da Secretaria Geral. Foi Francisco que quis ampliá-la, associando a ela um Padre sinodal por cada continente. Nunca essa comissão tinha sido eleita pela Aula. Além disso, também é errada a previsão, antecipada por círculos midiáticos contíguos aos signatários de uma não eleição dos relatores e dos moderadores dos grupos de trabalho menores. Como já acontecera em 2014, os relatores e os moderadores dos circuli minores foram eleitos pelos Padres, e não nomeados. E os relatórios desses círculos, como acontecera no ano passado, foram tornados públicas integralmente.

- Como será possível lembrar, Francisco tinha citado a "hermenêutica conspirativa", definindo-a como "a sociologicamente mais frágil" e "teologicamente mais divisiva". Como se dissesse: é o exato oposto do que somos chamados a fazer aqui, chega dessa mentalidade que vê tramas e complôs por toda a parte. As suas palavras foram saudadas com um aplauso.

- O papa também havia afirmado que "a doutrina católica sobre o matrimônio nunca foi tocada, ninguém a pôs em questão mesmo na assembleia extraordinária, ela está conservada na sua integridade" e sugeriu aos Padres que não se deixassem "condicionar", reduzindo o horizonte "como se o único problema fosse o da comunhão para os divorciados recasados".

Então, é preciso perguntar quais foram os motivos para vazar para Magister essa carta. O que está por trás ou o que se pretende por parte dos protagonistas, eclesiásticos ou não, dessa curiosa história?

A totalidade dos 13 cardeais signatários da carta participaram – às vezes com papéis delicados e de grande responsabilidade – de diversas assembleias sinodais e nunca imaginaram dirigir a João Paulo II um documento desse tipo. Nunca! Porém, eles sabem muito bem que todos os sínodos anteriores dos quais eles participaram eram muito diferentes ao de outubro de 2014 e do ano em curso. Muito diferentes, realmente.

Então, o que o "Sínodo midiático" vai nos oferecer amanhã?

Não sabemos e, por enquanto, só devemos esperar. Sabemos, sim, e como!, o que ele nos ofereceu hoje e certamente se tratou de um espetáculo deprimente e constrangedor, mas que teve um mérito relevante: a confirmação retumbante – o verdadeiro revólver fumegante – da existência de uma corja de eminentes vaticanistas que abandonaram a nobre profissão da informação para passar, com corpo e alma, à de repassador (aliás, desajeitado).

No atual estado das coisas, a surpreendente – e, não fosse pela extrema gravidade da questão, se poderia dizer "divertida" – história da carta dos "13 cardeais" ao papa antes do Sínodo para expressar sérias preocupações sobre a liberdade da assembleia, publicada hoje por Magister, pode ser resumida assim:

1) existe uma carta ao papa por parte de alguns Padres sinodais, mas não coincide com o conteúdo divulgado por Magister, e entre os signatários há prelados alheios ao documento;

2) os signatários não são 13, mas nove (a assinatura de quatro purpurados – Erdö, Scola, Piacenza e Vingt-Trois –, que negaram e desmentiram publicamente a sua participação, foi acrescentada e/ou difundida de forma arbitrária, sem o consentimento das partes interessadas).

3) um cardeal, Wilfrid Fox Napier, reconhece ter assinado uma carta, mas não a difundida com outro conteúdo. Outro, George Pell, reconhece que a carta divulgada contém erros na lista dos signatários e no conteúdo, e a partir disso fica claro que ele é uma das pessoas que assinaram.

Um verdadeiro enigma envolto em um mistério.