Qual futuro da Europa se abandonar os países africanos. Artigo de Romano Prodi

Fotos: Pixabay e Wikipédia (edição: IHU)

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11 Julho 2022

 

"No que diz respeito ao futuro, somos obrigados a repensar a perspectiva concreta de que o continente africano poderá ser governado por uma aliança entre a Rússia e a China, uma aliança que já está tornando a guerra em curso tão global e tão difíceis as perspectivas de paz", escreve Romano Prodi, ex-primeiro ministro da Itália, em artigo publicado por Il Messaggero, 10-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Quando o mundo vai mal, a situação na África vai pior ainda. Infelizmente, não devemos nos surpreender que a guerra na Ucrânia também esteja tornando a situação ainda mais dramática. Em dezesseis países africanos, os estoques de cereais, que até agora haviam impedido o início concreto de uma carestia prevista, estão se esgotando. Muitas vias alternativas foram procuradas para restabelecer o abastecimento, mas as esperanças de melhoria estão todas ligadas aos esforços, para os quais nosso governo está dando uma contribuição louvável, para tornar o porto de Odessa utilizável.

 

Esperamos que estas tentativas sejam bem-sucedidas, mas é preciso constatar que não existem projetos alternativos para atender a emergência africana. Não vejo nenhuma mobilização nem nos EUA nem na Europa para intervir pelo menos em países que já estão em situação dramática.

 

Quase parece que o aumento dos preços dos cereais e fertilizantes crie em nossos países uma cadeia objetiva de interesses que, de alguma forma, coloca em segundo plano a iminente carestia de dezenas de milhões de africanos.

 

Esta guerra trágica também está exacerbando as consequências dos conflitos africanos que nunca têm fim. Por exemplo, a guerra na Líbia. Dura um número de anos igual ao dobro da Segunda Guerra Mundial e não tem um fim à vista. Ainda existem dois governos em eterna luta entre si.

 

Trípoli, na Líbia (Foto: Wikimedia Commons)

Um governo em Trípoli apoiado pela comunidade internacional e pela Turquia e um em Tobruk apoiado pelo Egito e pela Rússia. Até agora nada de novo.

 

Turquia (Foto: NordNordWest | Wikimedia Commons)

 

Egito (Foto: JRC | Wikimedia Commons)

 

Tobruque (Foto: Wikimedia Commons)

 

De novo há o colapso da produção de petróleo, com as exportações reduzidas a um terço em relação ao ano passado. Tudo isso piora ainda mais as condições do povo líbio, que reage com protestos crescentes à falta de recursos e à escassez de bens essenciais, a começar pela eletricidade.

 

No entanto, não pode passar sem a devida atenção o fato de o controle da produção de petróleo líbio esteja agora nas mãos de mercenários russos e que, objetivamente, seja do interesse russo sustentar o preço, especialmente em previsão ao enfraquecimento da demanda mundial que se perfila como consequência da menor taxa de crescimento da economia.

 

O aumento dos preços da energia e, sobretudo, dos produtos alimentares, está também colocando à dura prova o equilíbrio de todos os países mediterrânicos. Há nações, como a Argélia, que podem reajustar sua situação aumentando o preço do gás que exportam principalmente para a Itália, mas há outras que se encontram em dificuldades crescentes.

 

Vou me limitar a destacar a situação do Egito que, com os seus cem milhões de habitantes, sofre mais do que qualquer outro com o aumento dos preços dos cereais e é obrigado a adaptar-se às condições cada vez mais onerosas das ajudas provenientes do exterior, principalmente dos Estados do Golfo. É bom lembrar que, nos últimos anos, foram os aumentos dos preços da energia e dos produtos alimentares que desencadearam as revoltas sociais que, infelizmente, sempre levaram ao aumento do autoritarismo e a um enfraquecimento da democracia.

 

Finalmente: se a guerra da Ucrânia continuar com uma ligação estreita entre a Rússia e a China, só poderá preparar uma nova perspectiva preocupante para a África. De fato, estão presentes todos os sinais de uma espécie de divisão do trabalho entre os dois países. A China está operando em todo o continente africano no campo econômico. Já não há nenhum Estado onde não exista uma crescente presença chinesa no comércio e nos investimentos em todas as áreas: das obras públicas à agricultura, da indústria ao comércio.

 

Uma presença global, não acompanhada, porém, por uma força militar paralela, ainda que a China, ao contrário dos Estados Unidos e da Rússia, participe ativamente das forças de paz das Nações Unidas. No entanto, está se criando uma situação em que, ao lado da presença econômica e política da China, se estende o paralelo braço militar russo.

 

Encontramo-lo não só na Líbia, mas no Mali, Burkina Faso, na República Centro-Africana e, embora com uma presença menos extensa e com sucesso inconstante, no Sudão e Moçambique, Madagascar e Zimbábue.

 

Mali (Foto: CIA | Wikimedia Commons)

 

Burkina Faso (Foto: CIA | Wikimedia Commons)

 

República Centro-Africana (Foto: CIA | Wikimedia Commons)

 

Sudão (Foto: JRC | Wikimedia Commons)

 

Moçambique (Foto: NordNordWest | Wikimedia Commons)

 

Madagascar (Foto: Addicted04 | Wikimedia Commons)

 

Zimbábue (Foto: Alvaro1984 18 | Wikimedia Commons)

 

A Rússia também é o maior exportador de sistemas de armas em todo o continente africano, com todo o necessário aparato de instrução e assistência.

 

Nunca se trata de uma presença oficial: as intervenções militares são de fato confiadas a tropas mercenárias que, no entanto, a partir do contingente chamado Wagner, são diretamente subsidiadas por Moscou.

 

Tudo isso nos leva a uma reflexão que diz respeito ao presente e uma reflexão que diz respeito ao futuro. No presente confirma-se que a política não aceita o vazio e que, onde a Europa se retira, o espaço é preenchido por outros.

 

No que diz respeito ao futuro, somos obrigados a repensar a perspectiva concreta de que o continente africano poderá ser governado por uma aliança entre a Rússia e a China, uma aliança que já está tornando a guerra em curso tão global e tão difíceis as perspectivas de paz.

 

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