Abraçar as feridas do mundo, de si mesmo e de Cristo, segundo Tomáš Halík

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21 Abril 2022

 

Abrir-se às feridas da humanidade e da história, para captar a presença do Deus encarnado: é assim que o teólogo tcheco Tomáš Halík modela um eixo da fé cristã para o século XXI.

 

O comentário é de Sergio Di Benedetto, professor de Literatura Italiana da Universidade da Suíça Italiana, em Lugano, em artigo publicado por Vino Nuovo, 15-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

A ferida como lugar teológico da revelação de Deus e como essência da humanidade: esse é o núcleo incandescente, humaníssimo e evangélico de “Tocca le ferite. Per una spiritualità della non-indifferenza” [Toca as feridas. Por uma espiritualidade da não indiferença], do teólogo e filósofo tcheco Tomáš Halík, publicado pela editora Vita e Pensiero.

 

“Toca as feridas. Por uma espiritualidade da não indiferença”, de Tomáš Halík (Foto: Divulgação)

 

Na realidade, o texto foi escrito em 2008, mas agora está à disposição do público italiano pela editora da Universidade Católica, que continua assim, com grande mérito, a divulgação do pensamento de um dos mais brilhantes intelectos cristãos do nosso tempo.

O ícone evangélico que guia a reflexão – potente e profundo, como sempre em Halík – é o do encontro entre Tomé e o Ressuscitado, no qual, segundo o evangelista João, Cristo se apresenta ao discípulo em dúvida mostrando as feridas que para sempre levará consigo e tornando cada ferida da história, assim, o lugar onde nos é permitido tocar Deus: desse modo, segundo o modelo da Encarnação, “todas as feridas dolorosas, todas as misérias do mundo e da humanidade são feridas de Cristo” (p. 18), pois “o meu Deus é um Deus ferido” (p. 15).

Na base dessa intuição teológica, subjaz um episódio biográfico, cujo relato abre o volume: um dia, depois de celebrar a missa na catedral de Madras – sobre a qual a tradição identifica o túmulo de Tomé – e de ler a perícope joanina, o autor entra em contato, inquietante e assolador, com a miséria e o sofrimento de um orfanato.

A partir daí, imediatamente, uma nova leitura do trecho evangélico: é na ferida da humanidade que Cristo se faz presente, segundo a sua própria palavra: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. Não sê mais incrédulo, mas crente!”, sentindo assim a força da promessa do Filho: “Onde tocares o sofrimento do ser humano – e talvez só aí – reconhecerás que Eu estou vivo, que Eu sou. Tu me encontrarás onde quer que o ser humano sofra. Não te afastes de mim em nenhum desses encontros. Não tenhas medo!”.

A partir daí, dessa fonte, Halík desenrola as suas reflexões, que insistem em três grandes pilares.

O primeiro diz respeito, como nos seus outros valiosos volumes, ao tema do Mistério de Deus, sobre o qual o ser humano só pode balbuciar, calar-se, interrogar-se, chegando até a lutar. São motivos recorrentes na visão do teólogo, que consegue, justamente sobre essas bases, construir uma ponte com o mundo moderno, do qual ele se sente parte, passando também a eleger Nietzsche como um dos mestres preferidos, já que o pensamento do filósofo é sempre capaz de provocar, incitar, tornar impossível a habituação a fórmulas e ritos que pouco têm a ver com uma fé verdadeira, sincera, encarnada. Uma fé sempre a caminho, nunca domada e nunca arrogante, humilde ao declarar que não “possui a verdade” com triunfalismo, mas sempre capaz de se interrogar, de se “converter”.

Certamente não são hipócritas as páginas do livro que movem, perguntam, perturbam na sua límpida verdade: “A um olhar atento à história, não podemos fugir da suspeita de que, para milhões de boas pessoas que confessaram e praticaram (em sua maioria, certamente, de um modo sincero e não hipócrita) a religião cristã, a quietude dessa religião, desse sistema de regras experimentadas, de rituais e de costumes nunca foi perturbada pelo nascimento de uma fé como resposta pessoal livre a um chamado de Deus sentido pessoalmente” (p. 68).

O segundo pilar do livro se centra no mistério da cruz, pelo qual Jesus assume “não só a morte humana, mas também a morte de Deus” (p. 43), na imensa solidariedade do divino com o humano, no abismo do abandono e da derrota – depois redimida e ressuscitada, mas ainda derrotada – na sua primeira manifestação.

É desnecessário dizer que daí deriva, também para o ser humano, o mistério da cruz, do sofrimento, do mal, que leva ao terceiro pilar da reflexão de Halík, que amplia o horizonte para a pena do mundo, onde bate o coração das páginas do teólogo: “Neste livro, o leitor não encontra, e talvez nem busque, instruções para curar as feridas do nosso mundo: eu sempre alimentei e ainda alimento uma desconfiança extrema em relação aos livros de receitas. Se essas reflexões querem ajudar alguém, é antes porque estimulam a ‘não indiferença’, a coragem de ver” (p. 83).

Assim, compreende-se de onde nasce o subtítulo do livro, que, portanto, se move rumo ao reconhecimento da verdade do outro, mas também das feridas do próprio ser, pois não há ser humano sem ferida. A fé, uma fé verdadeira, diz Halík, também só pode ser ferida: pelo sofrimento próprio e alheio, pela dúvida, pela morte. Somos, assim, levados aos “leprosários do mundo”, onde Cristo reside: eles geram (para quem sabe ver) a conversão do observador, para depois alcançar, de algum modo, a fé, a esperança, a caridade, o abandono (com páginas de grande fineza sobre a morte), a oração de intercessão. Para chegar a se fazer próximo, por caminhos que não são simples atos de generosidade, mas ações de dedicação, de amor verdadeiro e de testemunho da fé no Ressuscitado ferido.

“Tocca le ferite” é um livro para ler e reler, meditar, um livro para degustar com calma e profundidade; é um livro que vai bem com os outros de Halík traduzidos ao italiano, como “Voglio che tu sia”, “Pazienza con Dio”, “La notte del confessore”: textos de atualidade penetrante, embora a sua escrita já tenha ultrapassado uma dezena de anos. São textos inteligentes, ou seja, capazes de ler dentro do nosso tempo, dentro da nossa alma, dentro do sensus fidei dos fiéis.

Basta uma página para lançar luz sobre um pensamento a ser desfrutado, com fecundidade:

“A fé, se for viva, será sempre ferida, posta na cruz e, sim, às vezes até ‘morta’. Há momentos em que a nossa fé (ou, dito de forma mais humilde, o seu aspecto atual) morre – para poder ressurgir de novo. Sim, somente uma fé ferida, na qual estejam evidentes as ‘marcas dos pregos’, é confiável; só ela pode curar. Temo que uma fé que não tenha passado pela noite da cruz e tenha sido atingida no coração não tenha esse poder. Uma fé que nunca foi cega, que nunca provou a escuridão, dificilmente pode ajudar aqueles que não viram e não veem. A religião dos ‘videntes’, uma religião farisaica, pecaminosamente segura de si mesma, incólume, oferece pedras em vez de pão, ideologia em vez de fé, teoria em vez de testemunho, instruções em vez de ajuda, ordens e proibições em vez da misericórdia do amor” (pp. 179-180).

O livro é rico desses “golpes”, desses vislumbres, tornando-se companheiro de viagem especialmente em um tempo que, como sabemos, vive nas suas feridas sempre suturadas e sempre pulsantes ainda. Assim como é a vida de cada homem e mulher, desde sempre.

 

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