O vocabulário do populismo. Artigo de Giacomo Marramao

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19 Outubro 2021

 

"Nesse ínterim, o trinômio moderno Estado-povo-território foi abalado por um cenário global em que a soberania se tornou soberanismo, o povo populismo e o território já é superado pela Rede. Com a inevitável e rápida obsolescência dos autodenominados líderes carismáticos, determinada pela imprevisibilidade dos comportamentos das populações: menos inclinadas a confiar - como acontecia no trágico século que temos às nossas costas - a um Chefe que, como dizia Theodor Adorno, apresenta o infortúnio sob as aparências da salvação", escreve Giacomo Marramao, professor na Universidade de Roma, em artigo publicado por La Repubblica, 18-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Em uma passagem de Seis Propostas para o Próximo Milênio: Lições americanas, Italo Calvino tem uma intuição profética sobre a ameaça que paira sobre o nosso presente. Uma "epidemia existencial" parece ter investido as relações humanas alterando "o uso da palavra". Uma verdadeira “praga da linguagem” que esvazia as expressões de toda densidade e “força cognitiva”, dissolvendo-as no anonimato de fórmulas abstratas e multiuso em que se extingue “toda centelha que brota do choque das palavras com novas circunstâncias”.

Seis Propostas para o Próximo Milênio:
Lições americanas

É extraordinário o olhar a laser para o futuro desse texto de 36 anos atrás, incluído no ciclo de Palestras que Calvino deveria ter proferido na Universidade de Harvard e havia selado antes de sua morte com o título Six memos for the next millennium. E é inevitável que nos remeta, na atual conjuntura, à forma fluida e genérica como hoje são tratados termos como "povo" e "populismo".

Calvino sabia como poucos que a instituição linguística é a instituição primária e que os nossos atos linguísticos determinam inexoravelmente variáveis de exclusão e inclusão. Seguir sua ideia de "exatidão" nos leva a evidenciar um fenômeno peculiar e uma aposta no debate político europeu: povo e populismo são termos contrastantes. Ou, para retomar o expressionismo linguístico de Pierre Rosanvallon, são duas palavras que "se olham de cara feia". Temos, assim, o paradoxo de tornar negativo um termo derivado da palavra que desde sempre está na base da ideia de democracia. Mas, para entender como estão as coisas, é preciso dar um passo adiante, para desvendar a raiz da "síndrome populista" justamente em uma forma peculiar de compreender o conceito de povo.

"Povo" é um daqueles conceitos de geometria variável que no Ocidente são desde sempre constitutivos da política e de seus dilemas: do demos grego à civitas romana e à ideia medieval e moderna de povo-nação. Se o povo é o fundamento de legitimidade e o motor do sistema democrático, sua potência permanece indeterminada. Só podemos falar de povo no sentido jurídico-normativo em abstrato, visto que se trata de uma multidão de diferenças de gênero, etnia, religião e condição social (com as relativas discriminações e hierarquizações).

O povo como um "Nós", como uma unidade efetiva, só pode ser duas coisas: um enunciado performativo e inaugural, como o "We, the People" que encontramos no preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos da América, com sua dupla alma "madisoniana" (limitação constitucional do princípio de maioria) e "populista" (promessa de ampliação da participação); ou um sujeito histórico concreto, um povo-evento entendido como ator que intervém na dinâmica política orientando ou modificando seu curso, inclusive com rupturas revolucionárias que visam ampliar os espaços de inclusão da democracia.

O povo das ideologias populistas europeias, por outro lado, subtrai-se a ambas as perspectivas, situando-se numa terra de ninguém entre a indeterminação jurídico-formal e a indeterminação plebiscitária que caracteriza as várias formas de totalitarismo. Mesmo quando se apresenta de forma mais sofisticada, ou seja, o povo não como uma entidade substancial pré-constituída, mas como resultado de uma construção política, a perspectiva neopopulista não escapa a duas cláusulas vinculantes comuns a todas as variantes do populismo: a entrega de construção política do Povo a um Chefe (com a passagem do "Nós, o Povo" para "Eu, o Povo") e o referente nacional-soberanista (com a aberta hostilidade aos "apátridas" e a qualquer forma de cosmopolitismo).

Nesse ínterim, o trinômio moderno Estado-povo-território foi abalado por um cenário global em que a soberania se tornou soberanismo, o povo populismo e o território já é superado pela Rede. Com a inevitável e rápida obsolescência dos autodenominados líderes carismáticos, determinada pela imprevisibilidade dos comportamentos das populações: menos inclinadas a confiar - como acontecia no trágico século que temos às nossas costas - a um Chefe que, como dizia Theodor Adorno, apresenta o infortúnio sob as aparências da salvação.

É claro que tendências muito diferentes estão se perfilando fora do Ocidente no mapa do mundo, com as políticas de poder não mais de Estados-nação, mas de Estados-continente como China, Rússia, Índia. Este é o verdadeiro novo desafio que nos espera.

 

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