Missão Paz: migrante estende a mão a migrante

Foto: Wotancito | Wikimedia Commons

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27 Abril 2021

 

"Se a situação dos migrantes é normalmente precária em tempos normais, que dizer de suas lutas, sonhos e esperanças em meio a crisespestes e pandemias?!... O coronavírus rasgou para todos o véu das aparências, mas o fez de maneira bem mais dramática para os que se encontram fora de sua própria pátria. O inimigo invisível estreitou ainda mais para os estrangeiros a porta de entrada no chamado mercado formal, a qual por seu turno, abre outras portas para uma série de direitos relacionados à cidadania", escreve Alfredo J. Gonçalves, cs, padre, vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM.

 

Eis o artigo.

 

Na semana de 18 a 24 de abril/21, 460 famílias de migrantes foram atendidas e cadastradas no programa de cestas básicas da Missão Paz. Para efeito de comparação, entre março de 2020 e março de 2021, foram entregues 9.331 cestas. Missão Paz é uma conhecida obra scalabriniana que, com o tempo, tornou-se referência para a acolhida aos estrangeiros na capital metropolitana de São Paulo, Brasil. A obra comporta uma série de serviços interligados: Casa do Migrante, com mais de cem postos de pernoite e refeições; CPMM - Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes, que inclui assistência social, jurídica e psicológica, com encaminhamento para a documentação e a inserção trabalhista; CEM - Centro de Estudos Migratórios, que leva adiante a publicação regular da Revista Travessia, ao mesmo tempo que coloca à disposição uma biblioteca especializada em migrações; Igreja Nossa Senhora da Paz que, além de paróquia territorial, é historicamente paróquia pessoal dos imigrantes italianos e hoje também paróquia pessoal dos imigrantes de língua espanhola.

Com a pandemia do Covid-19 e suas implicações desastrosas para os extratos mais vulneráveis da população, a obra segue com alguns serviços online e com as limitações que a tragédia impõe a toda sociedade. Nos últimos meses, porém, a exemplo de outras obras, associações e entidades semelhantes, ela tem se dedicado, em particular, a abrandar a pobreza e a fome das distintas nações e etnias que habitam esta gigantesca cidade e suas adjacências. A distribuição crescente de cestas básicas, longe de mero assistencialismo, converteu-se em caso de vida ou morte. Três aspectos desse socorro imprescindível têm chamado a atenção dos religiosos, funcionários e voluntários envolvidos no trabalho: a pandemia põe a nu a condição dos povos desenraizados e em diáspora; intensifica-se a solidariedade das famílias imigrantes há tempo estabelecidas no país; impõe-se a necessidade do trabalho em rede.

Se a situação dos migrantes é normalmente precária em tempos normais, que dizer de suas lutas, sonhos e esperanças em meio a crises, pestes e pandemias?!... O coronavírus rasgou para todos o véu das aparências, mas o fez de maneira bem mais dramática para os que se encontram fora de sua própria pátria. O inimigo invisível estreitou ainda mais para os estrangeiros a porta de entrada no chamado mercado formal, a qual por seu turno, abre outras portas para uma série de direitos relacionados à cidadania. Escancarou e agravou, além disso, a nudez de quem, com sua frágil embarcação, corre atrás dos ventos do capital e colhe as migalhas que caem da mesa dos ricos e abastados. Resta-lhes os “bicos” sempre incertos, temporários e efêmeros da economia subterrânea. Esta costuma ser a primeira vítima da crise, arrastando consigo os trabalhadores que tentam equilibrar-se na areia movediça do caos.

Mas a pandemia, como todo flagelo, também traz à tona aquilo que o ser humano tem de melhor no fundo da alma. A Missão Paz, em sua tarefa de assistir os imigrantes, de forma particular os recém-chegados, mobiliza um exército anônimo de voluntários e doadores. Sem a solidariedade destes, não haveria cestas básicas que pudessem socorrer tanta gente. O mais interessante é dar-se conta que boa parte dos doadores carrega feridas e cicatrizes de alguma experiência de êxodo, seja na própria família, seja entre seus amigos e conhecidos. Alguns são imigrantes históricos de longa data, outros buscaram o país nas últimas décadas. Estrangeiros que, tendo passado pelo limbo, estendem as mãos aos que atualmente batem à porta!

A fúria avassaladora do Covid-19, por fim, consiste em um forte sinal de alerta. Esse tipo de contágio tem a ver com a devastação dos ecossistemas e a destruição do meio ambiente. O mundo selvagem, com suas surpresas e riscos ocultos, se avizinha cada vez mais do mundo em que nos movemos. E isso deixa claro que, sendo a ameaça global, o combate também deve sê-lo. Ou seja, contemporaneamente local e global. Daí o imperativo do esforço em rede, conjunto, orgânico, sinérgico – onde os distintos atores e protagonistas atuam de forma convergente.

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