“Caro cardeal Martini, escrevo-lhe como agnóstica”. Depoimento de Silvia Giacomoni

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Abril 2021

 

"Um diálogo nunca orientado para a 'conversão', mas sim para a compreensão do homem da Igreja às urgentes demandas da jornalista", escreve Antonio Spadaro, jesuíta italiano e diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por Repubblica, 21-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

"Caro Cardeal Martini, continuo a ler seus escritos, estou em constante diálogo com o senhor e talvez por isso (...) estou aqui, na frente da tela ligada, escrevo algumas linhas, apago. (…) Caro Cardeal Martini, escreva-me o senhor algumas linhas. Com afeto". Este é o paradoxo que Silvia Giacomoni entrega ao arcebispo de Milão em uma carta de 7 de março de 1994, reunida em um livro intitulado Diavolo d'un cardinal. Lettere (1982-2012) [Demônio de um cardeal. Cartas (1982-2012), em tradução livre] publicado pela Bompiani. É o sentido aparentemente contraditório de um livro que, ao contrário, é uma coletânea de 103 cartas, muitas das quais justamente de Giacomoni.

Como explicar isso? A verdade é que esse epistolário é o vestígio de uma conversa que vai além e transborda em relação às palavras, e se torna “comunhão de caminho”, como escreve o cardeal, de duas pessoas que têm muito a dizer uma à outra, apesar de sua diferença profunda: um é cardeal, a outra jornalista agnóstica. As palavras, afinal, estão ali, arrancadas de um silêncio que não é o de não saber o que dizer, mas de uma comunicação profunda e, portanto, naturalmente tácita.

As cartas representam uma aproximação respeitosa de percursos que se unem sob a forma de perguntas postas, sugestões de leituras, conselhos e até repreensões respeitosas. Mas, sobretudo, ressonâncias fortes em relação às palavras trocadas por escrito. “Eu, do bispo, não espero sermões - escreve Giacomoni - mas algo que coloque em movimento a minha cabeça”. Por seu lado, Martini muitas vezes expressa o desejo de compreender.

O seu diálogo nunca é orientado para a "conversão", mas sim a compreensão por parte do homem da Igreja das urgentes demandas que a mulher que não crê faz com elegância. Giacomoni sente-se "levada a sério" como se fosse por um "pai: inteligente, culto, com experiências multiformes que não se deixa melindrar: enfim, de respeito". Diavolo di un cardinale é um epistolário de linhas paralelas que se conjugam, mas que principalmente se aproximam, sem nunca se sobrepor. Experimenta-se a geometria de um diálogo, que se compõe, carta após carta, de polígonos nunca iguais. E cada carta é uma história da alma. Até ao aparente paradoxo: “Não sei se rezo pelo senhor - escreve a interlocutora do cardeal -: certamente o senhor é o vetor da minha oração”.

Uma das fortes solicitações em que se baseia o diálogo à distância é a inteligência dada pelo conceito contraposta àquela dada pela imaginação. Martini declara ser capaz de ler apenas o que faz sentido para ele, ou seja, argumentos de filosofia ou semelhantes. Menos narrativas e poesia, para as quais precisa de algum tempo para se sintonizar. Giacomoni, por outro lado, não hesita em insistir com o cardeal: "Eu me pergunto como é possível saber algo sobre o homem moderno se nunca se leu A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, Le rouge et le noir, A consciência de Zeno". E o cardeal rebate, quase se justificando: “justamente porque estou convencido da força modeladora que têm sobre o inconsciente, gostaria de escolher meus modelos para conservar a liberdade”.

A polaridade entre inteligência conceitual e imaginação narrativa, porém, na verdade se dissipa na conversa entre os dois correspondentes porque amadurece em uma aproximação à fé de parte de Giacomoni, que passa pela leitura da Bíblia. A escritora se dedica a isso com estudo e paixão, chegando a escrever uma esplêndida versão “para crianças”. E o relato da Bíblia - que é um livro de narrativas e poesia! - é precisamente a herança que o cardeal lhe entrega. Não, portanto, a inteligência do conceito, aquela que, ao contrário, "tinha me mantido longe do tema de Deus por 50 anos", escreve Giacomoni. E recorda as palavras que lhe disse Paolo De Benedetti: “Ai de você se tivesse chegado a Deus com a inteligência! Ele te pega pelas costas, entra pela chaminé, nunca pela porta. E claro que causa um pouco confusão!”.

Encontramos outro elemento de diálogo na tensão entre as realidades presente e aquelas últimas. A cultura lombarda – “aquele seu grande coirmão, Matteo Ricci, incultura-se com os chineses. Não quer inculturar-se com os lombardos?", pergunta Giacomini ao cardeal - é toda feita de realidade, enquanto ele se sente "feito mais para as coisas do céu do que para aquelas da terra", e declara que encontra dificuldade para ficar entusiasmado com a realidade desta terra. No entanto, mesmo aqui, falando do céu, está um arcebispo que mergulhou radicalmente nas dinâmicas da cidade terrena com discursos e gestos memoráveis.

Descobre-se, assim, que este epistolário é um feixe de tensões. Os dois interlocutores se ajudam, se acolhem pelo que são, se estimam. O único convidado indesejado ao falar de tudo - mídia, ecumenismo, propinas, aborto, Liga, oração, Israel ... - é o moralismo que “vem de uma incapacidade de ver claramente a si mesmo e aos próprios limites”.

Leia mais