Natal: ser minoria não é castigo. Entrevista com Gianfranco Ravasi

Foto:Ppixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Dezembro 2020

O Advento é o tempo em que os fiéis são convidados a se preparar para a vinda do Senhor, um tempo alimentado pela espera e pela esperança. Com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sagrada, interrogamo-nos sobre o sentido dessa espera, para entender se ainda sabemos buscar a Deus no nosso cotidiano, trazendo no coração a urgência da vinda de Cristo.

A entrevista é de Sabinia Baral, publicada por Riforma.it, 04-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

A etimologia da palavra “esperar” [attendere] expressa uma “tensão para”, uma atitude ativa e não passiva por parte do fiel. Como pode ser mantido vivo o desejo ardente da fé?

O verbo “tender” [tendere] pode ter uma conotação positiva quando indica uma atitude criativa por parte do fiel, uma espécie de projeção para o horizonte, o exato oposto da indiferença que, com a sua mão gélida, se ramifica não só na sociedade, mas também na vida de quem crê. Da mesma forma, a tensão tem uma conotação negativa quando se torna um elemento de medo, preocupação, fechamento, como a Covid nos ensina. A palavra “tendência” também é ambivalente: pode indicar a busca constante de uma nova direção, mas pode degenerar e se reduzir a uma simples orientação comum e social. Há também o risco para a fé e sobretudo para a religião: estas não devem ser apenas uma tendência, mera inscrição ideal em uma Igreja, mas devem reencontrar a pureza e a força de uma tensão para o horizonte fundamental do crer.

A espera implica paciência. Ainda somos capazes de exercer essa virtude hoje?

As palavras são criaturas vivas, expressão de profundidade interior e devem ser ouvidas. A etimologia latina da palavra remete ao sofrimento, porque a paciência exige esforço, constância, mas também ética e moralidade, isto é, um compromisso pessoal e existencial. A sua irmã mais velha é a esperança que, por sua vez, é a irmã mais nova da fé e da caridade. Ao lado dessas virtudes, eu colocaria a mansidão, que Norberto Bobbio, testemunha secular, dizia que é a virtude mais 'impolítica'. Nestes tempos de forte agressividade, reencontrar a paciência também significa recuperar a mansidão, aquele respeito pelo outro que é uma variante do amor.

Deus que vem à terra por meio de Cristo continua sendo um fato surpreendente. O senhor não acha que domesticamos esse evento, em vez de conservar o frêmito que surge de um evento tão desmedido?

A religião bíblica é substancialmente uma religião histórica e nos ensina que Deus atua por debaixo das pedras, por debaixo do solo da história. Basta pensar nos quadros de Chagall, em que os anjos saem das chaminés das casas, e os profetas se reencontram na praça: a cotidianidade é epifania, epifania oculta. A Encarnação, o Verbo que se faz carne, é o ápice dessa historicidade, e a redescoberta dessa presença deve ser feita sempre. Uma presença que pode ser solene, mas que, na maioria das vezes, é uma presença secreta. Então, para encontrá-la, precisamos de estupor, aquele dom humano extraordinário que consegue encontrar o bulbo do divino dentro da história. O grande apelo que devemos dirigir, como fiéis, a esta sociedade é precisamente este: reencontrar o germe divino em uma história reduzida a mera nomenclatura de eventos.

O Natal encontra o cumprimento do seu sentido na Páscoa da ressurreição. Como cristãos, ainda estamos cientes disso e sabemos dizer isso ao mundo?

A narração do nascimento de Jesus que nos é oferecida nos Evangelhos de Lucas e Mateus já está manchada de sangue, basta pensar em Jesus como um refugiado. Na arte dos ícones russos, a “escola de Novgorod”, a partir do século XV-XVI, também representou o nascimento de Cristo não em um berço, mas em um sepulcro, o sepulcro da ressurreição. Devemos reiterar a união profunda da cruz com o próprio nascimento, sem esquecer que logo aparece a luz da ressurreição. Os magos não encontram mais Jesus em uma gruta, mas em uma espécie de sala do trono onde Ele já é o Cristo glorioso.

Infelizmente, hoje, as Igrejas entraram na história sem a capacidade de linguagem e de comunicação que, por exemplo, o apóstolo Paulo teve ao retranscrever completamente a mensagem cristã por meio da língua e da cultura da época.

As Igrejas não são mais nem capazes de testemunhar e de ter consciência da sua própria minoria. Ser minoria não é uma punição, mas é ser semente, fermento, sal como dizia Jesus a respeito da massa. E esse é um grande apelo para o Natal: ser consciente de ser minoria, mas saber reencontrar dentro de nós mesmos a energia do Reino de Deus, aquela sementinha que pode crescer e se tornar a árvore gigantesca sobre a qual os pássaros do céu podem pousar.

 

Leia mais