Sobre a Palestina a Santa Sé não convence os EUA e Israel

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06 Julho 2020

Em defesa da justiça e da paz, o Vaticano também relança o apelo para perdoar a dívida dos países pobres atingidos pelo Covid-19.

A reportagem é de Carlo Di Cicco, publicada por TIscali, 05-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sobre a questão palestina foi retomada a "moral suasion” da Santa Sé em relação aos Estados Unidos e Israel para que se possa retornar a uma solução compartilhada, onde sejam respeitados não apenas os fortes, mas o justo. E o justo sobre a Terra de Jesus, para o Vaticano, nunca mudou nos últimos 60 anos. Dois povos, dois estados soberanos e independentes em boa vizinhança.

Após os últimos acontecimentos, também possibilitados pelo apoio incondicional de Trump a Israel, tanto para o reconhecimento de Jerusalém como capital única, quanto para a anexação unilateral de outros territórios palestinos com assentamentos israelenses, a diplomacia do Vaticano, determinada a defender o direito à igual dignidade de cada povo, fez sua jogada. Embora com pouca confiança de poder mudar a situação. O Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin, de fato, se encontrou com os embaixadores dos Estados Unidos e do Estado de Israel, expressando "a preocupação da Santa Sé sobre possíveis ações unilaterais que poderiam comprometer ainda mais a busca de paz entre israelenses e palestinos e a delicada situação no Oriente Médio". A prudência e moderação do Vaticano são conhecidas por todo o mundo diplomático, que, opportune et importune, tenta tecer os fios do diálogo entre todos os países, sem lesar o direito de ninguém. De tom moderado, mas claro em exigir o respeito pela justiça e pelas decisões tomadas por órgãos internacionais, a Santa Sé é considerada um ponto de equilíbrio nas controvérsias internacionais, a ponto de, muitas vezes em várias circunstâncias, sua mediação ter sido solicitada para resolver longos contenciosos entre os estados.

O Oriente Médio, em particular, representou um motivo para uma proximidade muito particular por parte da Santa Sé, pois ainda parece ser a chave para a paz mundial e uma região que preserva a história das origens cristãs. Uma das virtudes da diplomacia do Vaticano é também a do realismo, pois, embora esteja do lado da lei dos mais fracos, leva em consideração o direito da força não para aprová-lo, mas orientá-lo da maneira mais correta possível de acordo com a justiça.

É uma convicção geral de que não haverá paz no Oriente Médio sem desatar o nó palestino. Que maravilha, portanto, se, no final da reunião com os embaixadores dos EUA e Israel, o Vaticano emitiu uma declaração inspirada em intervenções recentes para reiterar que "o Estado de Israel e o Estado da Palestina têm o direito de existir e de viver em paz e segurança, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas". Portanto, "faz um apelo às Partes para que reabram o caminho da negociação direta, com base nas resoluções relevantes das Nações Unidas, facilitado por medidas que servem para restabelecer a confiança mútua". A declaração também acrescenta um detalhe não secundário, relançando a invocação do Papa Francisco pela paz na Terra Santa no final do encontro nos Jardins do Vaticano, em 8 de junho de 2014: "Tenham a coragem de dizer sim ao encontro e não ao embate; sim ao diálogo e não à violência; sim à negociação e não às hostilidades; sim ao respeito dos acordos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade”. Aquele encontro, por iniciativa do Papa Francisco, com Simon Perez, presidente de Israel, Abu Mazen, presidente palestino e o patriarca ecumênico de Constantinopla, permaneceu na história, sem poder resolver a antiga questão, prova de toda a dificuldade de uma solução. Ilusória, portanto, deixa entender a Santa Sé, a presunção de que atos de força unilaterais possam pacificar as populações interessadas.

A recente iniciativa do cardeal Parolin não foi, portanto, um gesto improviso e isolado, mas o resultado de um caminho de pequenos passos diplomáticos nunca interrompidos.

Em 20 de maio, a Sala de Imprensa do Vaticano anunciou que Monsenhor Paul Richard Gallagher, Secretário de Relações com os Estados, havia sido contatado por telefone por Saeb Erekat, negociador-chefe e secretário-geral da Organização para a Libertação da Palestina, que queria informar a Santa Sé "sobre os recentes desenvolvimentos nos territórios palestinos e a possibilidade que a soberania israelense seja aplicada unilateralmente a parte de tais áreas, o que comprometeria ainda mais o processo de paz". Também naquela ocasião, a Santa Sé reiterou "que o respeito ao direito internacional e às resoluções relevantes das Nações Unidas são um elemento indispensável para os dois povos possam viver lado a lado em dois estados, com as fronteiras internacionalmente reconhecidas antes de 1967. A Santa Sé - concluiu o comunicado - acompanha atentamente a situação e manifesta preocupação por eventuais atos que possam comprometer ainda mais o diálogo, na esperança de que israelenses e palestinos possam encontrar novamente, e em breve, a possibilidade de negociar diretamente um acordo, com a ajuda da comunidade internacional, e a paz possa finalmente reinar na Terra Santa, tão amada por judeus, cristãos e muçulmanos". A ação unilateral denunciada pelas autoridades palestinas e pelas Igrejas do Oriente Médio consiste na anunciada anexação por parte de Israel das áreas da Cisjordânia onde foram construídas mais de 130 colônias, consideradas ilegais pela comunidade internacional.

O temor de estar diante de uma blitz unilateral israelense, apoiada pelos Estados Unidos, já estava vivo nos tempestuosos anos 1980 e havia sido expressa várias vezes pelo próprio Arafat à Santa Sé, por vias diretas e indiretas.

A disponibilidade da Santa Sé em privilegiar o direito dos países em desenvolvimento ou aqueles confinados a situações de injustiça faz parte de seu compromisso com a paz. A paz e a justiça continuam sendo a estrela polar de sua ação diplomática e pastoral. A última confirmação ocorreu durante esta semana com o pedido reiterado da Santa Sé para reduzir a dívida dos países pobres atingidos pela pandemia de Covid-19, durante a 67ª sessão da Conferência das Nações Unidas sobre o comércio e o desenvolvimento. Para esses países - lembra o Vaticano - a dívida se tornou um fardo insustentável e potencialmente devastador.

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