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Com correntões, fazendeiros desmatam mil hectares dentro de área quilombola em Goiás

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05 Junho 2020

Imagens de satélite mostram a extensão dos cortes, que podem chegar a mil hectares; arrendada em abril, área dos Kalunga em Cavalcante é reivindicada por empresa ligada a offshores; Semad deflagrou hoje operação para apurar os responsáveis.

A reportagem é de Yago Sales e Bruno Stankevicius Bassi, publicada por De Olhos nos Ruralistas, 04-06-2020.

Em um período de quinze dias, o Cerrado perdeu cerca de mil hectares em um desmatamento ilegal próximo da nascente do Rio da Prata, manancial de abastamento para o Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, no município de Cavalcante (GO). A denúncia foi feita pelos próprios quilombolas — cujo território é autodemarcado — e pode ser visualizada em imagens aéreas por drone que mostram a devastação realizada na Fazenda Alagoas.

Ao analisar imagens de quatro satélites para dimensionar o impacto da ação dos tratores, o Instituto Cerrados detectou 549 hectares desmatados na Fazenda Alagoas até o dia 31 de maio. E ainda há indicativo de outros 267 hectares de desmatamento. Segundo a entidade, desde a análise, outras áreas podem ter sido abertas.

Mapa mostra incidência de desmatamento dentro de área quilombola (Imagem Instituto Cerrados)

O padrão do desmatamento aponta o uso de “correntão”, quando correntes são presas a tratores para facilitar o corte raso da vegetação, permitindo o plantio de soja. Para despistar os olheiros que preservam a área, as máquinas operaram a cerca de dois quilômetros da cabeceira da pista.

Segundo moradores, a Fazenda Alagoas, desmembramento de outra fazenda maior, a São Domingos, teria sido arrendada em abril a uma fazendeira de Catalão (GO) pela proprietária Agropecuária Rio do Prata Ltda, antes chamada Unaí Agro-Pastoril.

Em Avaré (SP), proprietários plantam orgânicos

A empresa é uma sociedade dos irmãos Gustavo, Francisco e Cristina Figueiredo Bannwart. De origem suíço-holandesa, a família controla a área da Fazenda São Domingos desde 1970, quando o patriarca Gerard Gustav Josef Bannwart e o irmão Rudolf a adquiriram de colonos alemães pelo valor de Cr$ 1,2 milhão.

Além da Unaí Agro-Pastoril, Gerard fundou, ainda nos anos 1970, a Pequi Agro-Pastoril, proprietária da Fazenda Piqui, vizinha da Alagoas. As duas foram fruto de uma sociedade com a empresa britânica Caldernorth Overseas Limited que manteve participação nas fazendas até 2002, quando foi incorporada pela offshore Martinibeth Investment Inc e vendeu suas cotas à família Bannwart.

Com sede no Panamá, a Martinibeth era intermediária do Merlin Group e cliente do escritório Mossack Fonseca, epicentros do Panama Papers, escândalo de evasão fiscal e ocultação de patrimônio revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ).

A milhares de quilômetros do território Kalunga, em Avaré (SP), Gerard tornou-se conhecido por implementar projetos de agricultura biodinâmica, método de produção orgânica que incorpora ciclos lunares e conceitos de astrologia, tornando-se tradutor, no Brasil, do criador da técnica, o alemão Rudolf Steiner.

Governo goiano fez operação contra desmatamento

Além dos quilombolas, a situação preocupa guias turísticos e moradores da região, que podem sofrer com o fim de uma das últimas áreas preservadas do Cerrado goiano. Essa é a preocupação de Bruno Mello, ativista da Rede Mais Cerrado. “Vamos aguardar fiscalização do governo estadual para saber se vai ter alguma ação, já que não tem nada do governo federal”, afirma, referindo-se ao desmonte nas operações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Segundo o delegado Luziano Severino de Carvalho, titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente, há uma equipe na região mas não houve informação concreta sobre o desmatamento. “No início da tarde vou saber os detalhes”, relatou. Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) informou ter deflagrado hoje (04) operação para apurar o caso e identificar os culpados.

— O governo de Goiás não admite a destruição do meio ambiente e ações criminosas em nosso território. Nosso Cerrado é nosso lar e as comunidades tradicionais, como a Kalunga, devem ser protegidas da ganância. Estamos em campo para tomar as devidas providências contra este grave crime contra o patrimônio de todos os goianos.

Segundo a secretária Andrea Vulcanis, não foram expedidas licenças para o desmate na região. “O território Kalunga está sob gestão do governo federal, porém toda a área de meio ambiente e supressão de vegetação e autorizações é da Semad”, afirmou, em vídeo publicado no Instagram. “Faremos nosso papel atuando de forma efetiva”.

Desde 9 de março, com a entrada em vigor do Decreto n° 10.252, de 20 de fevereiro de 2020, o licenciamento ambiental em territórios quilombolas deixou de ser atribuição da Fundação Cultural Palmares, passando ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), sob a tutela do secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia. A mudança foi informada às secretarias estaduais apenas na última semana.

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