O governo fraco da ciência. Artigo de Michele Ainis

Coronavírus. | Foto: Governo do Rio de Janeiro/Divulgação

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22 Abril 2020

No carrossel de opiniões, normas e proclamações, os italianos entenderam apenas que é melhor ficar em casa e lavar as mãos continuamente. Mas o jogo da culpabilização da política, que foge das suas responsabilidades, não é bom.

A opinião é de Michele Ainis, jurista, constitucionalista italiano e ex-professor da Universidade de Roma III, em artigo publicado por La Repubblica, 19-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Com ou sem razão, desconfiamos dos políticos. Da ciência, não, ela é a divindade de cujo poder celebrávamos. Pelo menos até ontem, antes que o vírus desnudasse os seus insucessos, limites, atrasos. Antes de assistir ao concerto desafinado dos virologistas, em que cada opinião se despedaçada contra a opinião conflitante.

O último insulto à dignidade da ciência, no entanto, vem ainda da boca dos políticos. Porque, nesta crise, eles estão usando as incertezas dos especialistas como uma tela, um para-brisa: para não decidir ou para decidir aquilo que lhes agrada.

O fato é que sabemos pouco, realmente pouco, sobre a infecção que atingiu o mundo. Depois de três meses, não conhecemos exatamente a sua fonte, se foi em um mercado ou em um laboratório de Wuhan. Continuam desconhecidos os números reais do contágio (10 vezes mais do que o dado oficial?). A possibilidade de reincidência para quem se curou dele. Os tempos de incubação (14 dias ou o dobro?). Se o vírus permanece no ar em suspensão, por quanto tempo, em que porcentagem. Se ele teme o calor, se o verão ajudará a Itália a derrotá-lo. Qual é a distância social a ser observada (os números oscilam, de um metro até oito). Se os animais de estimação são uma fonte de contágio. Por que a mortalidade poupa as mulheres.

Até aqui, falta uma vacina, mas também falta um teste sorológico confiável, e falta também uma terapia substitutiva.

Deve ser por isso, pela quantidade de dúvidas que zunem nas nossas cabeças, que as nossas instituições chamaram às suas cabeceiras todos os duvidosos. Daí a pletora de comissões, comitês, consultores. Foram contadas 15 forças-tarefa, com um exército de 448 generais; mas provavelmente a estimativa está viciada por padrão.

Há um Comitê Técnico-Científico a serviço da Defesa Civil, com uma composição em forma de acordeão (tinha sete membros no ato da sua instituição, depois cerca de 20, agora 12). Há o superconsultor (Ricciardi) designado pelo ministro da Saúde.

Há as comissões setoriais, como a que auxilia a ministro da Inovação na luta digital contra o vírus (76 especialistas). E, por fim, há as forças-tarefa anti-Covid nomeadas pelos governadores regionais, começando pela Lombardia (27 componentes, entre virologistas, epidemiologistas, pneumologistas, farmacologistas, “professorólogos” das mais variadas resmas).

Surge a partir disso uma lição dupla: sobre o papel da política, sobre o papel da ciência. Neste carrossel de vozes (e de normas, de éditos, de proclamações), os italianos entenderam apenas que é melhor ficar em casa, lavando as mãos a cada suspiro. Isso não é bom, não é assim que nos sentimos mais protegidos. Mas também não é bom o jogo da culpabilização no qual a política italiana se exercita, fugindo das suas próprias responsabilidades.

No último relatório ao Senado do presidente Conte, o Comitê Técnico-Científico foi mencionado cinco vezes. Na Lombardia, Fontana quer reabrir, mas aguarda o “sim” dos cientistas. Na Puglia, Emiliano quer manter tudo fechado, mas com o “não” dos cientistas. Cômodo demais e até um pouco covarde. Porque a discórdia da comunidade científica permite ao político escolher a fina flor. E porque, se ele acertar a decisão, depois se apossará de todo o mérito; caso contrário, a culpa será toda dos especialistas.

A ciência também, no entanto, precisa urgentemente de um banho de humildade. Afinal, ela possibilitou o desperdício dos recursos naturais, a poluição, o aquecimento global. Talvez essa mesma pandemia, como Trump denuncia.

Porém, no clima cultural que marca o nosso tempo, o seu primado é indiscutível; até a Consulta, na sentença sobre o “multitratamento Di Bella” (n. 185 de 1998), comprometeu o legislador a se submeter às evidências experimentais. Que, porém, cada vez mais frequentemente, são muito pouco evidentes: em 2016, um ensaio publicado na Nature revelou que mais de 70% das pesquisas científicas falham nos testes de reprodutibilidade. Então, levemos isso em conta, mas também escutemos a opinião dos economistas, dos sociólogos, dos juristas, também dos psicólogos, nestes dias de clausura.

Por outro lado, Karl Popper já nos ensinou: “Se tivéssemos que contar com a imparcialidade dos cientistas”, dizia, “a ciência seria totalmente impossível”.

 

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