Medo, orações e gritos, depois Michelle desmaia a bordo: “Eles querem nos levar de volta à Líbia”

Foto: Francisco Gentico | Open Arms Facebook

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20 Agosto 2019

De repente, quatro garotos começaram a correr na ponte do Open Arms. Eles pegaram os coletes salva-vidas e se jogaram no mar. Aconteceu num instante. Lampedusa está lá, a 800 metros de distância. Michelle, que estava desenhando, começou a chorar. "Então é verdade o que eles estão dizendo, então é verdade."

Outra mulher grita: "Eles nos levarão de volta para a Líbia, é por isso que estão fugindo". Michelle desmaia. E ao redor, gritos, desespero e orações, cada um para o seu Deus, mas todos com os olhos no horizonte. Enquanto quatro voluntários da Open Arms mergulhavam para alcançar os migrantes que escaparam.

Riccardo Gatti, chefe de missão e presidente da Open Arms Italia, relata: “Assim que os rapazes subiram com os socorristas, houve uma reação violenta de quem estava em bordo, eles temiam sabe-se lá quais consequências para todos”. Os voluntários tentaram acalmar aqueles que ainda estavam gritando. "Mas agora, a situação está ficando cada vez pior, a segurança está em risco", diz Gatti.

A reportagem é de Salvo Palazzolo, publicada por La Repubblica, 19-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

"No sábado à noite, houve muita tensão depois que os menores desembarcaram: os 107 restantes no navio ficaram muito revoltados. Agora, eles se sentem ainda mais desprezados e anulados como pessoas”. Michelle, que vem da Costa do Marfim, quase não fala mais; no entanto, dois dias atrás, quando viu Francesco Piobbichi, da Mediterranean Hope subir a bordo, com folhas de papel e lápis de cor, ela imediatamente se aproximou. E lhe pediu para desenhar. Nunca mais parou. Com um lápis, ela desenhou um navio cheio de pessoas. Com as cores, frutas e verduras. "Naqueles desenhos há vida, que deveria ser um direito - diz Francesco, operador do projeto lançado pela Federação de Igrejas Evangélicas - em vez disso, o Mediterrâneo parece ter se tornado um cemitério da indiferença".

Michelle voltou a se fechar em seu silêncio. E adicionou mais pessoas ao seu navio. A dor está ficando mais forte. "A bordo aumentaram os estados depressivos e as crises de ansiedade - explica Gatti - assim como os casos de mudez estão se tornando mais frequentes, há muita resignação". Michelle continua a acrescentar homens no convés de seu navio. Cabeças pequenas e um corpo. Sem olhos, sem boca, sem braços. Quem sabe, talvez não sejam pessoas diferentes. Talvez seja sempre ela, dia após dia. E quem sabe quantos dias vão passar. Enquanto a vida se torna sufocante no convés do navio, 107 pessoas com apenas dois banheiros.

O relatório da Emergency relata outras histórias dramáticas. Duas mulheres com gravidez difícil, transferidas de helicóptero para Palermo, uma que já deu à luz por cesariana. Uma mulher com problemas neurológicos "devido a um tumor cerebral prévio", um homem com otite "resistente a três tipos de antibióticos", uma mãe com um bebê de nove meses que tem dificuldade respiratória, um homem com tuberculose pulmonar, um jovem com artrite "devido a tiros de arma de fogo anteriores", uma mulher com pneumonia, um homem com uma "ferida cirúrgica infectada".

Riccardo Gatti fala de uma "situação grave": "Essas pessoas não sofrem apenas por causa do espaço limitado disponível. Os homens e mulheres do Open Arms sabem muito bem que não são desembarcados porque há a ação direta de outros homens, especialmente políticos. Ação que anula os sentimentos humanos, isso foi percebido, os psicólogos o detectaram claramente.” Agora, mais uma noite está prestes a cair no Open Arms, à distância as luzes da Lampedusa dos turistas. Este ano, lotação esgotada nos hotéis.

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