“Não fomos capazes de vos reconhecer, apreciar e defender na vossa peculiaridade”. Papa Francisco pede perdão aos ciganos

Papa Francisco com o povo rom na Romênia | Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Junho 2019

No último compromisso da viagem à Romênia, o Papa Francisco encontrou-se com a comunidade cigana. Na ocasião pediu perdão, “em nome da Igreja ao Senhor e a vós, pois no curso da história nos vos discriminamos, maltratamos ou olhamos de maneira errada, com o olhar de Caim ao contrário daquele de Abel”.

O discurso é publicado pela Sala de Imprensa do Vaticano, 02-06-2019.

Eis o discurso.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Estou feliz por vos encontrar e agradecido pela vossa recepção. Padre Ioan, não te enganas, quando afirmas estar certo desta verdade, segura mas às vezes esquecida: na Igreja de Cristo, há espaço para todos. A Igreja é lugar de encontro, e precisamos de o lembrar, não como um belo slogan, mas como parte do nosso cartão de identidade de cristãos. Tu no-lo recordaste, dando como exemplo o bispo mártir Ioan Suciu, que soube plasmar em gestos concretos este desejo de Deus Pai: encontrar-se com cada pessoa na amizade e na partilha. O Evangelho transmite-se na alegria de encontrar-se e saber que temos um Pai que nos ama. Sob o olhar d’Ele, compreendemos como olhar-nos entre nós. Com este espírito, quis cumprimentar-vos, fixar os meus olhos nos vossos, fazer-vos entrar no coração, na oração, com a confiança de entrar, também eu, na vossa oração e no vosso coração.

No coração, porém, trago um peso. É o peso das discriminações, segregações e maus-tratos sofridos pelas vossas comunidades. A história diz-nos que os próprios cristãos, os próprios católicos não são alheios a tanto mal. Quero pedir perdão por isso. Em nome da Igreja, peço perdão, ao Senhor e a vós, por todas as vezes que, ao longo da história, vos discriminamos, maltratamos ou consideramos de forma errada, com o olhar de Caim em vez do de Abel, e não fomos capazes de vos reconhecer, apreciar e defender na vossa peculiaridade. A Caim, não importa o irmão. É na indiferença que se alimentam preconceitos e fomentam rancores. Quantas vezes julgamos, imprudentemente, com palavras que doem, com atitudes que semeiam ódio e criam distâncias! Quando se deixa alguém para trás, a família humana não avança. Não somos completamente cristãos, nem sequer humanos, se não soubermos ver a pessoa antes das suas ações, antes dos nossos juízos e preconceitos.

Sempre houve, na história da humanidade, Abel e Caim. Há a mão estendida e a mão que fere. Há a abertura do encontro e o fechamento do desencontro. Há a hospitalidade e há o descarte. Há quem veja no outro um irmão e quem nele veja um obstáculo no próprio caminho. Há a civilização do amor e há a do ódio. Cada dia, há que escolher entre Abel e Caim. Como sucede perante uma encruzilhada, frequentemente impõe-se-nos fazer uma escolha decisiva: seguir o caminho da reconciliação ou o da vingança. Escolhamos o caminho de Jesus; trata-se dum caminho que exige esforço, mas é o caminho que conduz à paz. E passa através do perdão. Não nos deixemos arrastar pelos ressentimentos que incubamos dentro de nós: não demos qualquer espaço ao rancor. Porque nenhum mal resolve outro mal, nenhuma vingança satisfaz uma injustiça, nenhum ressentimento faz bem ao coração, nenhum fechamento aproxima.

Como povo, queridos irmãos e irmãs, tendes um papel de protagonista a assumir e não deveis ter medo de partilhar e oferecer as caraterísticas específicas que vos moldam e marcam o vosso caminho e de que tanto precisamos: o valor da vida e da família em sentido alargado (primos, tios...); a solidariedade, a hospitalidade, a ajuda, o apoio e a defesa dos mais frágeis no seio da sua comunidade; o respeito e valorização dos idosos; o sentido religioso da vida, a espontaneidade e a alegria de viver. Não priveis destes dons as sociedades onde vos encontrardes, e disponde-vos também a receber todas as coisas boas que os outros vos possam oferecer.

Por isso, desejo convidar-vos a caminhar juntos, lá onde estiverdes, na construção dum mundo mais humano, ultrapassando medos e suspeitas, deixando cair as barreiras que nos separam uns dos outros, alimentando a confiança mútua na busca, paciente e nunca vã, da fraternidade. Esforçar-se por caminhar juntos com dignidade: a dignidade da família, a dignidade de ganhar o pão de cada dia – é isto que te faz continuar – e a dignidade da oração. Sempre olhando para diante (cf. Encontro de oração com o povo Rom e Sinti, 9 de maio de 2019).

Este encontro é o último de minha visita à Romênia. Vim a este país lindo e acolhedor como peregrino e irmão para encontrar o seu povo. E agora volto para casa enriquecido, levando comigo recordações de lugares e momentos, mas sobretudo de rostos. Os vossos rostos vão colorir as minhas recordações e povoarão a minha oração. Agradeço-vos e levo-vos comigo. E agora abençoo-vos, mas antes peço-vos um grande favor: rezai por mim. Obrigado!

Leia mais