Os méritos da revolução sexual e a Igreja

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25 Abril 2019

“Devemos admitir: a publicação das reflexões de Bento XVI sobre o escândalo da pedofilia, um problema ao qual dedicou muito tempo como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, intrincou a já complicada conjuntura que seu sucessor enfrenta. São uma ajuda ou uma maneira, talvez inconsciente, de explicar a todos que o Papa não pode enfrentá-lo sozinho?”, pergunta Lucetta Scaraffia, em artigo publicado por Vida Nueva, 23-04-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

Foi um texto realmente escrito por ele, um homem muito idoso? Estas são as primeiras perguntas que surgem ao se adentrar nas páginas, profusas em pensamentos e lembranças pessoais, que por seu estilo confirmam que o antigo professor Joseph Ratzinger é o autor.

De maneira ordenada, o artigo se divide em três partes: a primeira descreve o contexto histórico, ou seja, a revolução sexual, na qual o escândalo da pedofilia adquiriu as dimensões preocupantes que agora conhecemos. O segundo é uma análise dura sobre a incapacidade demonstrada pela Igreja para responder a esta mudança. O terceiro se concentra nas possibilidades de sair da crise.

O tom é sincero, e o Papa emérito não teme denunciar a decadência na formação dos seminários, a crise da moral que substitui a ideia de bem e mal pela possibilidade de escolher em cada momento e segundo as circunstâncias que forem relativamente melhores. Bento XVI recorda como nos anos sessenta em muitos espaços se aceitou e defendeu a pedofilia, e como estas ideias entraram na cultura católica disfarçadas de “sentir conciliar”. A isto Ratzinger também atribui a dificuldade mostrada pelas autoridades eclesiais para julgar os pedófilos internamente: teria sido um excesso de garantismo a proteger os culpados e não, como sempre se denunciou, a tentativa de salvar a instituição e, portanto, o próprio poder.

A via de saída que o Papa emérito sugere seria, então, considerar como um bem que faz falta defender e garantir a fé, a mais prejudicada pelos atos dos pedófilos. Em consequência, a salvação da Igreja só pode vir daqueles que ainda vivem nela para entregar sua vida ao bem, daqueles que se movem por uma fé autêntica e não consideram a instituição somente como um aparato político.

A análise toda não toca em pontos centrais: é verdade que a Igreja nunca acertou as contas com a revolução sexual e, sobretudo, com a sexualidade masculina, e é fato que este silêncio favoreceu os focos de perversão. Mas também devemos recordar que justamente graças à revolução sexual, que permitiu falar publicamente sobre o sexo sem julgamentos negativos, as vítimas puderam denunciar os abusos e encontraram coragem para fazer ouvir sua voz. E deve se acrescentar que o movimento das mulheres, dentro da revolução sexual, conseguiu que o estupro fosse considerado um crime contra a pessoa e não contra a moral, fazendo do consentimento uma condição indispensável.

Na nova moral que nasceu, e que certamente carrega a marca do relativismo, há espaço para a palavra das vítimas, e isto deve ser levado em conta. Certamente, é impossível não concordar com o Papa emérito quando ele diz que só a mensagem cristã, com o retorno a uma Igreja inspirada por uma fé sincera, já praticada por muitos todos os dias, pode oferecer um renascimento depois desta crise terrível. Porque não é suficiente estabelecer normas mais rígidas se não há a conversão dos corações.

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