O cardinalato de dom Romero

Charge: Otto | Fonte: El Faro

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29 Junho 2017

Quando conheci dom Gregorio Rosa Chávez vários anos atrás, ele me deu um livro intitulado Dia a dia com dom Romero e me destacou uma frase do mártir salvadorenho que diz: “A palavra permanece. E este é o grande consolo de quem prega. Minha voz desaparecerá, mas minha palavra, que é Cristo, permanecerá nos corações que a quiserem acolher” (17-12-1978). Por isso, não me surpreende absolutamente que seja essa a frase que Rosa Chávez escolheu para colocar em suas lembrancinhas da cerimônia de investidura como cardeal.


Assim os salvadorenhos veem o novo cardeal.Ou seja, Dom Romero é quem impõe o chapéu cardinalicio a Gregorio Chávez (Charge: Otto | Fonte: El faro)

A reportagem é publicada por Super Martyrio, 28-06-2017. A tradução é de André Langer.

Junto com a frase de Romero, nas lembrancinhas se pode ver o escudo concebido para o primeiro cardeal salvadorenho. Contemplar estes elementos me faz refletir sobre o fato inédito que é a nomeação cardinalícia de Rosa Chávez, e proporciono três aprofundamentos: (1) como a nomeação de Rosa Chávez é realmente uma concessão a uma causa; (2) as diferenças entre Rosa Chávez e dom Romero; e (3) como o cardinalato de Rosa Chávez pode aproximá-lo ainda mais do seu santo patrono.

O escudo de Rosa Chávez contém vários elementos que chamam a atenção. O desenho é dividido em quatro painéis com símbolos do seu ministério. O primeiro painel é uma estrela que representa Nossa Senhora, e é praticamente igual à estrela que figura no escudo do Papa Francisco e que tem o mesmo significado. O segundo painel contém uma palma, que representa os mártires da Igreja salvadorenha, quase todos conhecidos pelo agora cardeal. O terceiro painel contém um ramo de alecrim [chamado, em espanhol, de romero, motivo pelo qual remete imediatamente a Romero.], símbolo óbvio de Óscar Romero, que também figurava no escudo episcopal do 4º arcebispo de San Salvador. Finalmente, o quarto painel apresenta duas mãos que se estendem uma para a outra, que significa a “opção preferencial pelos pobres” da eclesiologia latino-americana encarnada por Romero e pelos mártires.

De qualquer forma, é impressionante ver como este estandarte de Rosa Chávez parece advertir-nos que esta nomeação cardinalícia é para Romero (como disse o próprio Rosa Chávez), é para os mártires, é para a Igreja salvadorenha. Não se vê um único símbolo representando Gregorio Rosa: nem seu escudo familiar, nem as montanhas de sua Morazán natal, nem a bandeira de sua cidade. Através do seu escudo vemos como Rosa Chávez se esvazia de si mesmo, deixa-se de lado, para dar lugar a outros que considera os verdadeiros merecedores da sua nomeação. Isto me parece bastante incomum. Não se vê normalmente nas nomeações de outros cardeais que se outorgue o honorífico não a um homem, mas a uma causa. Nem nos casos em que um seguidor de um maior na Igreja foi elevado – no caso de Loris Capovilla, o secretário de São João XXIII, ou Stanislaw Dziwisz, o secretário de São João Paulo II – viu-se tamanha submissão do homenageado ao seu fiador.


Fonte: Blog Super Martyrio

O segundo aspecto para refletir é algo que não se desenvolveu nos comentários que foram feitos sobre a nomeação de Rosa Chávez, que muitas vezes enfatizam a definição do novo cardeal como seguidor de Romero, amigo dele, inspirado por ele, evidentemente muito devoto dele, e, por conseguinte, presume-se que exista uma unidade de identidade entre os dois. Contudo, na realidade, devemos admitir que eles não são a mesma pessoa. Há diferenças entre os dois. Para honrar a pessoa de Rosa Chávez temos que admitir que ele não é Romero, e não devemos esperar que vá se converter em Romero depois da quarta-feira. Quais são as diferenças entre o beato Romero e o cardeal Rosa? Em primeiro lugar, Romero é único: fruto do seu tempo, do seu contexto, da sua trajetória pessoal, a hora histórica que lhe coube viver e, sobretudo, do seu glorioso martírio. Rosa Chávez é, na realidade, mais progressista que Romero, mas nunca alcançou o mesmo impacto sobre a sociedade salvadorenha que teve Romero, pelas razões que mencionamos anteriormente e porque Rosa Chávez não teve um púlpito imponente, como a Arquidiocese de San Salvador.

Neste consistório, Rosa Chávez será o centro da atenção. Isso se deve a vários fatores, incluindo as circunstâncias fora do comum da sua nomeação, assim como ao fato de ser o primeiro bispo auxiliar a ser nomeado cardeal. Também ajuda o fato de ser “criado” cardeal em um grupo excepcionalmente pequeno – significa que cada novo cardeal receberá bastante atenção da imprensa, e já vimos as dezenas de entrevistas, reportagens na imprensa nacional e internacional e a constante atenção nas redes sociais. É possível imaginar que o cardinalato se transforme no púlpito imponente que Rosa Chávez nunca teve anteriormente e que poderia agora ajudá-lo a catapultar-se a uma posição que o aproxime da estatura do seu lendário mentor.

Contam que o famoso vidente da Idade Média, Nostradamus, encontrou-se certa vez com um grupo de monges jovens, ajoelhou-se diante de um deles e o chamou de “Sua Santidade”. Diz o relato que esse mesmo rapaz foi eleito décadas depois Papa Sisto V. Quando eu conheci Rosa Chávez anos atrás em sua paróquia de São Francisco, em San Salvador, inclinei-me e beijei o anel episcopal como um gesto de reverência por tudo o que representava, especialmente sua irrecompensável lealdade e sua solidariedade com a Igreja dos pobres. Eu jamais pensei que estivesse assinalando um futuro “papável”. No entanto, se meu gesto foi profético, quero que conste que o papa que eu predisse se chamará “Oscar I”.

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