Separados por rivalidades literárias e por visões distintas de mundo, Tolstói e Dostoiévski chegaram, cada um por caminhos próprios, à mesma inquietação: o vazio de uma vida moldada pelas expectativas.
A reflexão é de Mônica Lima, graduanda em Jornalismo pela Unisinos e membro da equipe do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Nos últimos meses, li dois livros indicados por um colega de trabalho e, se existem obras capazes de transformar e afirmar perspectivas, esses dois foram, sem dúvida, os meus "mudantes".
As obras em questão são Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, e A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói. Apesar das diferenças marcantes entre os autores, suas obras traçam paralelos que, em algum momento, se conectam, como se esse sempre fosse o objetivo.
Livros "Noites Brancas", de Fiódor Dostoiévski e A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói.
Desde pequenos, sempre ouvimos que a "crise dos 20" chega para todo mundo, mas acredito que essa crise não é necessariamente dos 20: é uma crise da vida.
Crescemos sendo ensinados a seguir um "roteiro": formar-se na escola, passar no vestibular, entrar em uma faculdade - não necessariamente uma que nos agrade, mas que ofereça retorno financeiro. Depois, trabalhar, construir carreira, preferencialmente casar e ter filhos, manter um casamento estável e morrer completo, sabendo que se alcançou o sucesso. Mas que sucesso é esse que todos querem atingir?
É exatamente neste ponto que a reflexão de Tolstói se une à de Dostoiévski. Em Noites Brancas, conhecemos o personagem chamado de Sonhador, um homem que, ao conhecer uma mulher, constrói a fantasia de um relacionamento com ela, cenário que se mantém apenas no campo da expectativa e da ilusão. Já em A Morte de Ivan Ilitch, o personagem oscila entre a racionalidade e a divagação sobre uma vida que poderia ter sido diferente. Ivan ilitch percorre sua existência dentro desse roteiro de sucesso: ponto a ponto, realiza tudo que a sociedade espera dele. Entretanto, quando a doença e a morte batem à sua porta, ele se vê refletindo sobre as escolhas que o trouxeram até ali, e sua conclusão é amarga: sua vida foi desperdiçada.
Foi a partir dessa conexão entre as duas obras que vivenciei uma espécie de “crise existencial”, pois a ideia de sucesso que sempre nos é apresentada nunca foi sólida. A “chegada” ao sucesso é totalmente hipotética e incerta, já que nunca sabemos o que o futuro nos reserva - e, de fato, pode nem haver um futuro.
Compramos a ideia de sucesso e esperamos, com expectativa, que ela se realize, mas, no fundo, talvez estejamos esperando por nada. Na ânsia de atingir o sucesso, vivemos a vida como se fosse uma lista de tarefas, e cada passo dado é um item marcado.
Talvez possamos entender melhor a “crise dos 20” quando reconhecemos que é nessa fase que começamos, de fato, a perseguir o futuro - essa vida plena, talvez irreal, a vida de sucesso. E, enquanto corremos atrás desse horizonte sempre distante, deixamos o presente passar despercebido.
Dentro de rotinas monótonas e mecanizadas, vivemos o “roteiro de cada dia” sem refletir muito, sem nos permitirmos um momento sequer de desaceleração. As pessoas estão sempre em busca de um futuro, sem nunca ver resultado. Como apresenta o filósofo Byung-Chul Han, tornamo-nos uma "sociedade do cansaço", enredados em um ciclo vicioso de produtividade em prol do sucesso, sem nem saber se teremos um futuro, quem dirá o sucesso em si. Nessa lógica de desempenho permanente, não somos movidos apenas pela promessa do sucesso, mas também pelo temor constante do fracasso.
E é justamente aqui que o sistema se revela mais cruel: não apenas nos impõe um roteiro, mas nos convence de que desviar dele é sinônimo do fracasso. Aquele que não constrói a carreira esperada, não acumula os bens esperados, não atinge os marcos esperados - é, aos olhos do mundo, um fracassado. O que raramente se questiona, porém, é que a noção de fracasso é inteiramente subjetiva. Fracasso para quem? Para o indivíduo que não encontrou sentido na própria vida ou para uma sociedade que estabelece métricas rígidas de realização? Afinal, aquilo que é considerado fracasso por um sistema econômico pode ser, para alguém, uma escolha consciente de liberdade.
O problema é que esse medo do fracasso não nos liberta, ele nos paralisa. E uma pessoa paralisada é exatamente o que o sistema precisa: alguém submisso, que não questiona, que continua produzindo dentro de uma vida feita de migalhas de plenitude, convencido de que qualquer coisa a mais seria arriscada demais. O medo, nesse sentido, cumpre uma função silenciosa e eficiente: nos mantém exatamente onde estamos, correndo sem sair do lugar, com a sensação permanente de que ainda não chegamos, e de que a culpa, se não chegarmos, é inteiramente nossa.
O fracasso passa a ser uma ameaça constante, enquanto o sucesso permanece como uma promessa distante.
E quando saímos da fase dos 20, quase nada muda: continuamos, aos 30, aos 40, aos 50, trabalhando em lugares que nos exploram ao ponto de nos restar tempo para pouco. Ainda assim, mesmo tendo desistido de certas ambições, continuamos esperando algo do futuro - uma promoção, uma aposentadoria, algo melhor, uma vida melhor.
No final, percebemos que a vida nunca nos foi apresentada para ser vivida no momento, no presente: ela sempre foi projetada para depois. Uma vida de espera, esperando por algo bom, por uma recompensa, por algo que justifique tudo o que foi deixado para trás.
Talvez a racionalidade de Ivan Ilitch nos leve a refletir sobre nossas escolhas, sobre como vivemos nossa vida, sobre o que de fato merece ser priorizado. Mas, com certeza, a perspectiva fantasiosa do Sonhador nos acolhe de forma mais real: vivemos de migalhas da vida, acreditando que pequenos momentos de alegria ao longo da trajetória são capazes de nos transformar em algo e dar sentido à existência.
Como ele questiona: “Um minuto inteiro de felicidade plena! Seria isso pouco para toda a vida de um ser humano?...”
Talvez não seja.
Talvez a plenitude nunca tenha estado na chegada, mas nos raros momentos em que deixamos de esperar pelo futuro e, finalmente, habitamos o presente.