Pai Nosso, não nos tentais

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30 Janeiro 2018

Foi uma insistência constante, que me acompanhou por anos. A pergunta era sempre a mesma, até por parte dos leitores desta página: como se justifica a sexta das sete invocações daquela oratio perfectissima de Jesus – como a definia são Tomás de Aquino - que é o Pai Nosso, "Não nos deixeis cair em tentação"? (em italiano “não nos induza em tentação” – ndt).

O artigo é de Gianfranco Ravasi, cardeal italiano, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 28-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Os jornais já divulgaram as considerações do Papa Francisco sobre a incongruência dessa frase, a que, em seguida, juntou-se à Conferência Episcopal Italiana, enquanto outros bispos de várias línguas há tempo introduziram variações do tipo "não nos abandone à tentação", "não nos deixe cair em tentação", “não nos permita entrar em tentação” e assim por diante.

É curioso notar que a "brutalidade" da tradução latina da Vulgata - ne nos inducas in tentationem – já criava constrangimento no século VIII: dois manuscritos em latim dos Evangelhos, o chamado Codex Dublinensis e Codex Rushworthianus, conservado em Oxford, substituam-na com um significativo Ne nos patiaris induci, "não tolerais que sejamos induzidos em tentação" (subentendido "por Satanás").

Dois outros códigos de uma antiga versão latina anteriores à Vulgata, o Bobbiensis (V sec.) e o Colbertinus (XII sec.) apresentam variações na mesma linha: "Não suportais que sejamos levados à tentação". Vamos, então, voltar para o original grego que, de qualquer forma, certamente tem um fundo aramaico, a língua usada por Jesus, em que o verbo utilizado provavelmente possuía um valor permissivo, "não deixeis / não permitais que entremos em tentação".

O induzir (usado em italiano), aliás, já é bem mais excessivo que o grego de Mateus (6:13) eisenénkes (de eisphero): literalmente significa "não nos leve para", bem diferente de ''induzir”, que é “empurrar” alguém concretamente a realizar alguma ação. O sentido autêntico, então, é o de não ser expostos e abandonados ao risco da tentação.

Nesse ponto, no entanto, é necessário distinguir entre "tentação-prova" e "tentação-armadilha", ambos os sentidos possíveis no grego peirasmos usado por Mateus. A prova pode ter como sujeito Deus que avalia a fidelidade e a pureza da fé do homem: pensemos em Abraão, convidado a sacrificar Isaque, o filho da promessa divina (Gênesis 22), em Jó, em Israel duramente “disciplinado” por Deus no deserto "como um homem disciplina seu filho" (Dt 8,5). É uma educação à fidelidade, à doação altruísta, ao amor puro e sem duplos propósitos.

É significativa a esse respeito uma frase da Primeira Carta dos Coríntios a São Paulo, 10,13:

“Vocês não foram tentados além do que podiam suportar, porque Deus é fiel e não permitirá que sejam tentados acima das forças que vocês têm. Mas, junto com a tentação ele dará a vocês os meios de sair dela e a força para suportá-la". (Nota de IHU On-Line: Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. Edições Paulinas, 1990).

Diferente é a "tentação armadilha" que visa a rebelião do homem contra Deus e a sua lei, e que, à primeira vista, deveria ter como raiz Satanás ou o mundo pecador. Pois bem, se é fácil compreender a aplicação no caso da prova (pede-se a Deus para não nos provar muito duramente e não nos deixar ceder naquele momento escuro), é mais difícil justificar a segunda atribuição a Deus. Sim, porque - estritamente falando - na Bíblia, parece que até mesmo Deus possa "tentar" ao mal. Isso pode ser lido, por exemplo, no segundo livro de Samuel: "A cólera do Senhor se inflamou novamente contra Israel e incitou Davi contra eles" (24,1). A invocação do nosso Pai poderia, portanto, também tem essa nuance. Mas, como explicar isso?

A resposta reside na mentalidade semita: para evitar e introduzir o dualismo diante do bem e do mal, ou seja, a existência de duas divindades, uma boa e a outra má, tenta colocar tudo sob o controle do único Deus, bem e mal, graça e tentação. Em Isaías, o Senhor não hesita em declarar: "Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas" (45,7). Na verdade, sabe-se que o mal moral deve ser relacionado com a liberdade humana ou com o tentador por excelência, Satanás. Tanto é que a frase acima citada sobre Davi, na narrativa paralela dos livros das Crônicas é corrigida para: "Satanás incitou Davi a numerar a Israel" (I, 21.1).

Rezando ao Pai divino "não nos deixeis cair em tentação" queria-se, então, pedir-lhe para não nos tentar duramente, ou seja, não nos expor a provas demasiado pesadas para a nossa realidade humana, para que não fossemos capturados pelas redes de mal, para não permitir que entrássemos no círculo mágico e fascinante do pecado, para não nos expor à armadilha diabólica. Nessa invocação estão envolvidos, portanto, problemas capitais como a liberdade e a graça, a fidelidade e o pecado, a dor e a esperança, o bem e o mal.

É importante, nesse contexto, também o sétimo e último pedido, que é a versão positiva do anterior: "Livrai-nos do mal". É interessante notar que no original grego pode-se imaginar no vocábulo poneroù tanto a tradução "do mal" como "do Maligno", isto é, o diabo, e ambos os significados são aceitáveis e podem coexistir.

Durante a Última Ceia, Jesus oferece a Pedro uma representação sugestiva da ajuda divina para "nos livrar do mal / Maligno": "Simão, Simão, Satanás pediu vocês para peneirá-los como trigo. Mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça."(Lc 22,31-32). O famoso teólogo francês ortodoxo Olivier Clément (1921-2009) observava: "O Pai Nosso, não se conclui com um louvor ou agradecimento, mas permanece suspenso em um urgente grito de miséria", enquanto o homem se sente à beira de abismo escuro da dor e do mal.

É por isso que alguns códigos antigos, seguidos pela tradição e pelo culto protestante, sentiram a necessidade de adicionar ao final Pai Nosso essa aclamação: "Teu é o reino, o poder e a glória para sempre." Mas, com a elegância que lhe é habitual e sua sensibilidade à mensagem cristã, apesar de sua origem judaica, Simone Weil em sua obra À espera de Deus (1950) observava atentamente que a sequência do Pai Nosso é antitética ao que costuma ser empregada em uma oração, que geralmente vai de baixo para o alto, do homem e da sua miséria para Deus e à sua luz. Aqui, ao contrário, se parte do céu e se desce até o emaranhado escuro do mal.

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