Lutero, uma lembrança controversa. Artigo de Eugenio Bernardini

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23 Outubro 2017

“Nunca se falou tanto da Reforma e dos seus protagonistas, com Lutero à frente. Mérito também da Igreja Católica e do Papa Francisco, em particular, que assumiu o ‘desafio’ das celebrações, aceitando participar e contribuir ativamente com vários eventos e, sobretudo, depondo a tese do cisma e da divisão para se defrontar com as perspectivas do caminho comum também com as Igrejas filhas da Reforma.”

A opinião é do teólogo e pastor valdense Eugenio Bernardini, moderador da Mesa Valdense, o órgão representativo e administrativo da Igreja Valdense. O artigo foi publicado por Il Fatto Quotidiano, 20-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto

Eis o texto.

A memória dos 500 anos da Reforma Protestante não está passando despercebida nem na Itália: as publicações, os congressos acadêmicos, as iniciativas de base, até mesmo alguns atos institucionais, como a dedicação de ruas a Martinho Lutero, são surpreendentes em número.

Na , nunca se falou tanto da Reforma e dos seus protagonistas, com Lutero à frente, mas, acima de tudo, falou-se melhor, não debitando mais a esse movimento todos os males da sociedade moderna – como a secularização, o individualismo e o relativismo ético –, mas buscando interpretações novas e mais positivas.

Mérito também da Igreja Católica e do Papa Francisco, em particular, que assumiu o “desafio” das celebrações, aceitando participar e contribuir ativamente com vários eventos e, sobretudo, depondo a tese do cisma e da divisão para se defrontar com as perspectivas do caminho comum também com as Igrejas filhas da Reforma.

Eu acredito que tudo isso é conhecido, mas, evidentemente, não compartilhado por Paolo Isotta [musicólogo e escritor italiano], que, no dia 18 de outubro, definiu Lutero e o luteranismo como obscurantista do ponto de vista cultural e inimigo da arte, até a acusação final de um estreito parentesco espiritual entre Lutero e Hitler, entre nazismo e luteranismo.

Ora, é compreensível que um fenômeno tão complexo e articulado como a Reforma Protestante teve luzes e sombras, assim como é reconhecido que a personalidade de Lutero é a típica de um intelectual em meio a duas épocas: a Idade Média e a Modernidade. Da primeira, fazem parte a sua subordinação à estrutura social do tempo e os seus escritos – terríveis – contra os judeus; da segunda, a promoção do laicato e do espírito crítico que só pode ser cultivado com a educação e com o acesso direto às fontes, a distinção entre o poder civil e o religioso.

Mas o julgamento geral sobre o personagem e o movimento que derivou dele, também graças à contribuição de muitíssimos outros protagonistas, só pode se basear nos frutos daquela grande transformação. O nazismo foi um desses frutos? Não, em nada.

Hitler – católico que não sabia nada de Lutero – e o nazismo, ao contrário, foram capazes de instrumentalizar os instintos mais reacionários e os medos de um povo em crise e de concentrá-los em uma multiplicidade de bodes expiatórios que deviam ser simplesmente eliminados.

A religião também foi instrumentalizada, tanto a luterana, quanto a católica, porque, na Alemanha dos anos 1930, o nazismo não podia vencer sem curvar também as instituições eclesiásticas alemãs.

Deveria fazer refletir o fato de que essa ideologia violenta e fanática teve maior influência em países de tradição católica, como a Itália e a Espanha, já às presas de tiranias sanguinárias (também estas aparentadas com Lutero?), e não em países de fortíssima tradição luterana, como os escandinavos, que nunca conheceram a tirania.

E o que dizer dos mártires luteranos que, com a Bíblia em uma mão e os textos luteranos sobre o senhorio de Deus na outra (e, portanto, opondo-se à idolatria do Führer), militaram nas fileiras antinazistas ou foram trucidados em campos de concentração? Como o teólogo Dietrich Bonhoeffer, para citar o nome mais conhecido.

Em suma, repetir hoje os lugares-comuns da polêmica antiluterana de antigamente não nos ajuda a compreender os fenômenos complexos do passado, nem nos ajuda a interpretar os fenômenos bem mais complexos e de forte e imprevisto conteúdo religioso que as nossas sociedades ocidentais atravessam hoje.

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