O que diz o PIB de 2016?

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Março 2017

"Ao longo de 2016, o PIB parecia desacelerar o ritmo de queda trimestre a trimestre até meados do ano: a queda de -1,2% no último trimestre de 2015 desacelerou para uma queda de apenas 0,3% no segundo semestre de 2016. O segundo semestre de 2016, porém, viu nova piora, com queda de 0,7% no terceiro e 0,9% no quarto trimestre. Esta queda torna muito difícil que 2017 tenha um PIB positivo, ao contrário da projeção de crescimento de 0,49% pela pesquisa Focus divulgada na segunda-feira 6", escreve Pedro Paulo Zahluth Bastos, economista, professor da Universidade de Campinas (Unicamp), em artigo publicado por CartaCapital, 08-03-2017.

Eis o artigo. 

A queda de 3,6% do Produto Interno Bruto de 2016 frustrou mais uma vez as previsões das consultorias e departamentos econômicos de bancos, que não entenderam a natureza da crise brasileira e, desde 2014, consideravam que a transparência e os cortes de gasto prometidos por Joaquim Levy recuperariam a economia brasileira.

No fim de 2014, o boletim Focus, com a previsão das instituições financeiras, apontava para um crescimento de 0,9% em 2015, depois que Levy anunciou seu programa de cortes. Após o tombo de 3,8% em 2015, a previsão para 2016 era um tombo menor que 3%, com recuperação firme a partir de meados do ano.

O problema central de diagnóstico foi a desconsideração do fim de um longo ciclo de endividamento de empresas e consumidores ao longo de 2014. Nestas circunstâncias, o setor privado tenta poupar para pagar (“desalavancar”) dívidas, mas só consegue fazê-lo quando as exportações “bombam” e/ou o governo aumenta seu déficit por meio do aumento do gasto (e não da queda da arrecadação). Se as exportações não auxiliam, o superávit desejado pelo setor privado só é possível com o aumento do déficit do setor público.

Os economistas que esqueceram as identidades da contabilidade nacional e do balanço patrimonial das empresas fizeram propaganda enganosa quanto aos benefícios da austeridade. Chegaram a convencer a maioria dos empresários. Agora só lhes resta a propaganda enganosa de que “não há alternativa”, e que a sociedade deve se acostumar com remédios cada vez mais amargos.

Os dados do PIB de 2016 mostram, mais uma vez, que se frustrou a esperança de o impeachment e a promessa de reformas neoliberais estimularem a expansão do crédito e o investimento das empresas. Os bancos continuam a preferir aplicar em títulos da dívida pública que pagam uma taxa de juros real invejável e rolar o débito de clientes antigos com juros elevadíssimos, mas fogem da incerteza de novos empréstimos. Com isso, as operações de crédito caíram 5,5% em termos reais em 2016.

A demanda de crédito para novos empreendimentos também despencou, pois as empresas estão endividadas e com capacidade ociosa. O investimento caiu 5,4% em 2016, a 11ª queda trimestral consecutiva. Os consumidores, desempregados ou com medo do desemprego também evitam empréstimos para compras de imóveis e automóveis. O saldo de operações de crédito para pessoas físicas teve queda real de 5,1%.

Assim, o consumo das famílias caiu 4,2% em relação a 2015 (quando havia caído 3,9%). O indicador recuou pelo oitavo trimestre seguido e se, em 2015, o consumo caiu menos que o PIB, em 2016 passou a cair mais. Ademais, o último trimestre viu nova aceleração da queda, -0,6% contra -0,3% no terceiro. Dado o aumento do desemprego no trimestre concluído em janeiro deste ano (mais 879 mil desocupados em relação ao trimestre concluído em outubro de 2016) e a perda do seguro-desemprego por um contingente crescente no longo prazo, tornou-se mais provável uma nova queda do consumo em 2017.

O ajuste neoliberal conseguiu amedrontar os trabalhadores a ponto de forçá-los a aceitar cortes salariais e piores condições de trabalho, mas ao mesmo tempo os deixou com medo de consumir além do mínimo. No fim, a queda da demanda contraiu a receita das empresas mais do que seus custos e inviabilizou o pagamento de suas dívidas sem venda de ativos.

Nestas condições de aumento da incerteza e retração do crédito, que os economistas chamam “armadilha da liquidez”, é necessário renegociar e alongar o pagamento das dívidas, mas isso, além da fada da confiança, não vai induzir investimentos. Só a recuperação das receitas privadas pode permitir o pagamento das dívidas e induzir novos investimentos à medida que a capacidade ociosa diminuir.

O setor externo não deve ajudar muito nesta tarefa. É verdade que a recuperação do preço de commodities tem aumentado a receita dos exportadores de bens básicos, mas um novo boom de investimentos no setor ainda depende de perspectivas firmes de sustentação da demanda. Ademais, a apreciação cambial estimulada pelo Banco Central contribuiu para a queda da taxa de inflação e para baratear a dívida externa das empresas, mas expulsa exportadores industriais do mercado internacional, que cresceu muito mais do que o PIB global nas últimas duas décadas, mas tende hoje a crescer menos.

Parece restar apenas o gasto público para salvar empresas e desempregados. Mas o governo federal resolveu se auto-amarrar com a emenda constitucional do teto do gasto, em uma proteção ao neoliberalismo e por considerar que a medida animaria o investimento privado a despeito da falência da demanda agregada. Se Michel Temer e Henrique Meirelles conseguirem forçar os governos estaduais a fazerem o mesmo sob o tacão da renegociação das dívidas estaduais, a recuperação da economia vai atrasar ainda mais e, quando começar, promete ser muito arrastada. O risco de mais um ano perdido aumentou.

Ao longo de 2016, o PIB parecia desacelerar o ritmo de queda trimestre a trimestre até meados do ano: a queda de -1,2% no último trimestre de 2015 desacelerou para uma queda de apenas 0,3% no segundo semestre de 2016. O segundo semestre de 2016, porém, viu nova piora, com queda de 0,7% no terceiro e 0,9% no quarto trimestre. Esta queda torna muito difícil que 2017 tenha um PIB positivo, ao contrário da projeção de crescimento de 0,49% pela pesquisa Focus divulgada na segunda-feira 6.

Como a austeridade deixou de ser um remédio retórico contra a recessão e a perda de confiança, para tornar-se um fim estratégico de quem quer mudar a sociedade brasileira de cabo a rabo, empresários e consumidores perderão dinheiro caso confiem na fada da credibilidade em 2017. O que seria uma recessão “de um trimestre”, como disse o ministro Joaquim Levy em janeiro de 2015, arrisca a transformar-se em um triênio de depressão.

Leia mais