A esquerda francesa, fragmentada em seis

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13 Fevereiro 2017

O problema da esquerda é que as suas profundas fraturas tornam impossível antecipar uma união visando como meta única a vitória. Hamon é a surpresa no Partido Socialista, mas não se juntará a Mélenchon.

O texto é de Eduardo Febbro, publicado por Página/12, 11-02-2017.A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Nem mesmo o mais rigoroso e imparcial analista político ou a consultora de opinião mais bem sucedida poderia antecipar-se na previsão do resultado das eleições presidenciais de abril e maio deste ano, nem mesmo a do primeiro turno. A esquerda francesa está dividida em seis grupos, dois dentro do Partido Socialista (PS) e outros três, exteriores: no interior do PS, uma esquerda ideal que se impôs nas primárias com a figura de Benoît Hamon luta contra os reformistas sociais liberais do ex-primeiro ministro, Manuel Valls. Afora, estão o movimento França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, a extrema-esquerda do partido Luta Operária e do Novo Partido Anticapitalista (NPA). Mas estes dois grupos trotskistas vivem o pior momento de sua história e já não tem certeza se poderão apresentar um candidato. O mesmo acontece com os ecologistas, também vítimas de prolongadas disputas que os transformaram em um ramo de flores murchas. O sexto grupo é um extraterrestre, nem uma coisa nem outra: reúne em torno da candidatura pseudo-progressista do ex-ministro de Economia, François Hollande, Emmanuel Macron, um homem do banco Rothschild, um "social-liberal" sem partido que espera atrair às urnas de seu movimento Em Marcha! os votos da ala mais conservadora do PS. A direita conta com um candidato único, o ex-primeiro-ministro Nicolas Sarkozy. François Fillon, grande favorito até que a sua aura católica moralista e honrada fosse desintegrada pelas revelações do periódico satírico semanal Le Canard Enchaîné sobre os generosos contratos de trabalho com os quais sua esposa Penélope e seus filhos se beneficiaram na Assembleia Nacional. Fillon chegou ao topo quando ganhou as primárias da direita e, em seguida, ao subsolo. A única que mantém o leme em rota para a vitória é a líder da extrema direita, Marine Le Pen. Em todos os cálculos, é Marine que nunca teve suas expectativas diminuídas: seja quem for o seu adversário, ela será uma das duas candidaturas presentes no segundo turno de maio.

O problema está na esquerda e as suas profundas fraturas que tornam impossível antecipar uma união visando como meta única a vitória. Dentro do PS, a vitória de Hamon nas primárias foi uma surpresa, um balde de água fria para o setor partidário das reformas de corte liberal representadas por Manuel Valls. Ninguém previu que o socialismo mais romântico prevaleceria nas urnas contra Valls e todo o seu poderoso aparato. Hamon rompeu com o molde previsto e com isso despertou a tentação de vingança.

Durante os pouco mais de dois anos em que Manuel Valls foi executivo-chefe, Benoît Hamon (ex-ministro da Educação no primeiro governo de François Hollande) e um grupo de parlamentares rebeldes leais se opuseram a muitas das medidas de Valls. Em mais de uma ocasião, isto obrigou Valls a adotar leis por decreto, mediante a falta de quorum para votar nelas. Hoje, os deputados fiéis a Valls se disponibilizam a escolher no primeiro turno o antigo ministro da Economia de Hollande, Emmanuel Macron, e assim desqualificar a corrida presidencial ao homem designado pelos eleitores para representar o PS. Os revoltosos pagariam nas urnas, hoje, por sua insolência do passado. Esta perspectiva não garante, por ora, a possibilidade de que Benoît Hamon passe do primeiro turno. Faltam-lhe votos de esquerda que, neste contexto, são monopolizados pelo partido França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon. Na esquerda, o candidato do PS e Mélenchon competem diante do mesmo eleitorado. É impossível pensar em uma aliança ou um acordo leviano antes do segundo turno. Durante quase um ano e meio falou-se na França sobre a organização de uma primária aberta entre todas as forças de esquerda, a fim de sair com um único candidato. A tentativa fracassou e cada grupo seguiu seu caminho. "Isto é excessivo! Esta competição cria as condições para uma eliminação da esquerda desde o primeiro turno", escreveu em novembro do ano passado o jornal matutino, Libération.

As pesquisas comprovam a relevância daquela advertência. Na configuração atual, a esquerda voltaria a viver a experiência de 2002, quando o então ex-primeiro-ministro socialista e candidato presidencial Lionel Jospin não passou do primeiro turno e a França atravessou um dos primeiros traumas políticos do século XXI: o turno definitivo foi protagonizado pelo ex-presidente Jacques Chirac contra o pai de Marine Le Pen e da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen. O capítulo ameaça se repetir, não somente devido à divisão entre as forças progressistas, mas também pelo surgimento da candidatura solitária de Emmanuel Macron. Este expoente do reformismo brando seduz os moderados-desencantados da direita, os centristas e uma grande parte da socialdemocracia francesa que aguarda ansiosa que o PS termine de uma vez por todas com as retóricas socialistas do século passado. Os social-liberais do PS enxergam a opção por Macron como a melhor maneira de mudar a história. Faltou à esquerda francesa um alicerce de modéstia e lucidez comum para aumentar suas fileiras atrás das sensibilidades e valores compartilhados, ao invés de serem atores de fragmentações cacofônicas. Sem dúvida, a virada liberal da presidência de François Hollande enfatizou as rupturas e tornou inviável o princípio de uma união.

Nas eleições de 2017, a esquerda parece estar caminhando para uma derrota inevitável ou, na melhor das hipóteses, colocar na presidência um candidato tão híbrido e impreciso como Emmanuel Macron. Este líder, na verdade, representa a versão mais liberal da socialdemocracia francesa. O declínio das esquerdas revolucionárias – Trotskistas, comunistas – que antes captavam votos importantes, tem contribuído para a "direitização" do eleitorado. No entanto, ainda hoje, as quatro esquerdas persistem, reencarnadas e presentes desde o século XIX. 1: A esquerda de protesto e de aversão ao chamado Estado burguês e ao hiperliberalismo, muito próxima de movimentos sociais, das narrativas ecológicas e ao sindicalismo (Jean-Luc Mélenchon, a França Insubmissa). 2: A esquerda reguladora e de transformação social, defensora do papel do Estado, da regulação das finanças e das reformas em benefício das classes mais baixas (Benoît Hamon, candidato do PS). 3: A esquerda social-liberal. Esta corrente tem inclinação e é respaldada pelo capitalismo e por reformas que são quase sempre em benefício das empresas (Emmanuel Macron, do Movimento Em Marcha!). 4: A esquerda social-liberal-autoritária, também chamada de "esquerda de direita". Reformista de corte liberal, dura em sua gestão, pouco inclinada ao diálogo social e com contínuas incursões nos templos ideológicos da direita, particularmente no que diz respeito a sua relação com o empresariado, o setor bancário e, no social, por certo "racismo brando" para com os estrangeiros (o ex-primeiro-ministro Manuel Valls, derrotado nas primárias pelo PS).

Neste esquema, a única convergência possível seria entre a esquerda de protesto e a esquerda de transformação social. Um pacto entre Benoît Hamon e Jean-Luc Mélenchon é, neste momento, rejeitado. A menos que um terremoto de lucidez impensável ocorra, ambas as esquerdas medirão suas forças uma contra a outra. Suas distâncias adornam o caminho por onde passará, vitoriosa, uma direita ultra-liberal, ou, sem máscaras enganosas, um social-liberalismo recém estreado na conquista democrática do poder.

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