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04 Julho 2011

A dor é a pedra de moinho que nenhum dos seres vivos pode evitar, mas é necessário passar por ela. Depois de uma primeira edição ligada a um evento cultural, chega às livrarias um livro de Massimo Cacciari para o catálogo da editora Saletta dell`Uva (www.salettadelluva.it): Il dolore dell`altro. Una lettura dell`Ecuba di Euripide e del libro di Giobbè [A dor do outro. Uma leitura da Hécuba de Eurípides e do livro de ] (62 páginas), com introdução de Luigi Nunziante, posfácio por Raffaele Nogaro, bispo emérito de Caserta.

A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada em seu blog Oltretevere, 03-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É um jogo de relação entre a ideia de dor na tragédia grega e em Jó – explica Cacciari –, porque a história de Jó se conclui com um ressarcimento que, ao contrário, falta totalmente na tragédia grega. Uma leitura que também é uma tentativa de projetar sobre a cena clássica e bíblica um tema eterno, o do unde malum. Uma demanda enorme".

"No seu peregrinar nas terras do Meridiano, o filósofo de Veneza deixou em uma cidade do Sul o seu pensamento e as suas palavras, que a nossa editora – explica Luigi Nunziante, diretor da Saletta dell`Uva – quis reunir em um livro, para que seja um sinal de um caminho que ajude a refletir sobre como é necessário hoje penetrar nas fendas escondidas do logos, para além do fácil caminho dos lugares-comuns".

"A justiça – reforça o texto – não habita jamais no campo do vencedor. Jó, equivocado como exemplo de paciência, quer, na realidade, falar cara a cara com Deus. Quer entrar em agonia", porque busca o confronto com o Altíssimo. O patriarca idumeu "não pergunta sobre coisas. Ele busca, pede a razão da sua existência nua, naquele `dia-logo` que lhe permite se conhecer como Abele renatus. Quer romper o silêncio de Deus". Ser chamado por Deus, escreve Cacciari, "e ter que naufragar porque se decidi a lhe corresponder. Isso é tremendo".

Hécuba, a velha rainha, também está desfeita. Sustenta-se sobre um bastão curvo. Ela mesma é um dos seus pesadelos de asas negras. Cinquenta vezes engravidou luz para dar à luz a 50 destinos de morte. Hécuba e são duas figuras "desesperadas". Suas palavras estão entre as mais poderosas da literatura clássica e da literatura bíblica, porque a experiência comum da dor os faz gritar: é concebível um sofrimento maior? Onde está a justiça (Dike)? É concebível desesperar, renunciar a sentir toda forma de possibilidade?

Essa é a pergunta que marca uma profunda afinidade, na leitura feita por Massimo Cacciari, entre cena bíblica e cena trágica, aparentemente tão distantes entre si. Para buscar a profundidade de um nomos com que todos devem acertar as contas na história.