A unidade entre ciências humanas e tecnologia em Simondon

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Por: Luciano Gallas | 31 Outubro 2013

O professor Ivan Domingues, da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, abordou o impacto dos processos sociológicos e da noção de individuação sobre a tecnologia no pensamento de Simondon em palestra realizada na noite de 24-10-2013 na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O evento faz parte do II Seminário preparatório ao XIV Simpósio Internacional IHU: revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades e reuniu cerca de 30 pessoas no local.

“Na noção de individuação em Simondon, os seres humanos e os aparatos tecnológicos compartilham uma história: ambos nascem, crescem e morrem”, afirmou Ivan Domingues durante a palestra, passando então a investigar que disciplina científica seria capaz de contemplar esta unidade entre homem e máquina. Para o professor, tal unidade não poderia ser corretamente abordada pela filosofia da tecnologia, por esta não contemplar a questão humana. Desta forma, a conclusão primeira da análise pretendida é de que tal investigação se adequaria mais aos parâmetros de disciplinas como a biologia, a psicologia e a sociologia.

A proposta de Ivan Domingues neste ponto da palestra era contextualizar o pensamento de Simondon, de modo a favorecer a construção de uma hermenêutica da obra deste filósofo. Para Domingues, Simondon parecia querer buscar em suas investigações um axioma das ciências humanas, que ele passa a procurar em uma psicossociologia da tecnicidade – psicologia porque lhe interessava os processos humanos tomados a partir da individualidade do ser, assim como a sociologia lhe interessava por permitir estudos dos processos humanos tomados a partir da organização dos homens em sociedade, ambos os paradigmas então aplicados para a investigação da técnica. “Tecnologias e ciências humanas são abordadas em conjunto. Simondon as toma em bloco, devolvendo uma unidade perdida ou, quem sabe, conquistada”, pondera o professor.

Platão, Aristóteles e gestalt

Conforme Domingues, Simondon testou inicialmente dois paradigmas para estruturar a base de sua investigação: o arquétipo de Platão, que baseia-se no conceito central de que a ideia é o modelo das coisas concretas – a ideia seria, portanto, a base da individualidade do ser –, e o hilemorfismo de Aristóteles, que estrutura-se a partir do conceito de que todos os seres são constituídos por matéria e forma – sendo então a forma a base da individualidade do ser. Para realizar o diálogo entre estes dois paradigmas, Simondon utilizou a teoria gestalt, cujas ideias principais são de que o todo é maior que a soma das partes ou a interação dos indivíduos que o compõem e de que a forma se sobressai independentemente dos elementos que componham determinado objeto.

Entretanto, o paradigma teórico buscado por Simondon teria que dar conta da mutabilidade do social, impactado por revoluções, por disputas de poder e pelos conflitos estruturais existentes. Deste modo, o filósofo passou a utilizar em suas análises um conceito de informação que se aproximava das ideias de variações de uma forma ou de transformação de uma forma em outra (in-forma-ação). “A natureza da informação não é da ordem de uma essência ou de uma positividade, e sim de uma operação. E aqui estamos falando de cibernética [e não de mecanologia]”, enfatiza Domingues, demonstrando o momento em que Simondon passa a trabalhar com a noção de potencial.

Energia e dinâmica

Simondon tenta então uma teoria energética da forma. O negócio em Simondon não é o equilíbrio, é a dinâmica. Ele quer passar da estática para a dinâmica. Afinal, um sistema em equilíbrio não possui nem ganho nem perda de energia. Em um processo dinâmico, ao contrário, é necessário um plus de energia”, destaca Ivan Domingues, plus este que se dá após terem sido ajustados os desequilíbrios e ultrapassados os ruídos. Assim, a obra de Simondon é perpassada por ideias como as de transdução, tomada de forma, informação, passagem de um estado para outro, metaforma.

O filósofo utiliza-se também da 2ª Lei da Termodinâmica em sua abordagem teórica, contrastada com a perspectiva de que os sistemas naturais estão condenados ao equilíbrio (morte) térmica. “Os processos humanos e sociais, os processos biológicos e a cibernética rejeitam os efeitos desta lei na luta contra a morte da substância”, pondera Ivan Domingues. As máquinas cibernéticas trazem consigo conceitos como feedback, estabilidade, sinergia. “Simondon utiliza-se da psicologia e da sociologia, que estudam não estruturas ou positividades, mas suas correlações”, aponta o professor. Ele mesmo completa o argumento: “As máquinas atuais são humanizadas, interagem, não são mais robôs, palavra cujo significado original é o de ‘escravos’. Por isso a prevalência nas investigações atuais de conceitos próximos à biologia”.

Quem foi Simondon

Gilbert Simondon (1924–1989): filósofo francês. Possuía conhecimentos sólidos em mecânica, eletrônica, hidráulica e termodinâmica. Dedicava seus estudos às áreas da tecnologia, técnica, estética e individuação. Publicou em 1958 sua tese complementar de doutorado, Du mode d'existence des objets techniques, a qual causou repercussão pela ousada abordagem anti-fenomenológica de investigação sobre a gênese dos objetos técnicos e pela opção por uma análise baseada no tratamento das realidades da utilização de tais objetos.

A tese principal de doutorado viria a ser publicada posteriormente em duas partes: L'individu et sa gènese physico-biologique (1964) e L'individuation psychique et collective à la lumière des notions de forme, information, potentiel et metaestabilité (1989). Em seu laboratório de psicossociologia e tecnologia, localizado na Universidade de Paris I – Sorbonne, construiu diversas máquinas, utilizando-se de prensas hidráulicas, receptores de sinais UHF e tubos catódicos. Com elas, realizava desenhos técnicos e fazia analogias reais entre seres bióticos e abióticos em suas investigações acadêmicas.

Quem é Ivan Domingues

 Ivan Domingues é graduado e mestre em Filosofia  pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG,  cursou doutorado em Filosofia na Universidade de  Paris I – Sorbonne com a tese O grau zero do  conhecimento: o problema da fundamentação das  ciências humanas (2. ed. São Paulo: Edições  Loyola,  1999). É pós-doutor pela Universidade de  Oxford e  leciona no Departamento de Filosofia da  UFMG. De  sua produção bibliográfica, destacamos  O fio e a  trama: reflexões sobre o tempo e a  história  (São  Paulo/Belo Horizonte: Iluminuras /  Editora da UFMG,  1996) e Epistemologia das  ciências humanas - Tomo  1: Positivismo e  Hermenêutica - Durkheim e Weber  (São Paulo: Edições Loyola, 2004). Também organizou  Biotechnologies and the Human Condition (Belo Horizonte: Editora UFMG/IEAT, 2012).

Veja também: