Bauman, mestre entre integração e identidade

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27 Janeiro 2015

Zygmunt Bauman estimula a não se liquidar o discurso com frases fáceis diante da questão muçulmana, mas a nos reinterrogarmos sobre o inevitável destino a que estamos indo ao encontro como sociedades interétnicas e interculturais.

A opinião é do filósofo italiano Massimo Giuliani, professor da Universidade de Trento, em artigo publicado no jornal Avvenire, 25-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Reler Zygmunt Bauman, em particular o breve e estimulante livro Visti di uscita e biglietti di entrata (Ed. Giuntina), pode ajudar a entender os eventos de Paris do início do ano.

Falando da vontade e do processo de assimilação dos judeus no mundo moderno, entre o século XVIII e a primeira metade do século XX, surgem inevitavelmente alguns paralelos com a situação em que se encontra a minoria muçulmana nas nossas cidades ocidentais e com os dilemas (aspirações e frustrações, ilusões e desilusões, sucessos pessoais e insucessos coletivos) que tal minoria deve enfrentar.

Na sua análise histórica sobre o preço que os judeus estavam dispostos (ou não) a pagar para fazer parte da moderna cultura europeia, Bauman não articula a distinção entre assimilação e integração, hoje tão comum no mundo judaico: sim à integração, mas preservando o próprio específico étnico-cultural-religioso, que, ao contrário, a assimilação tende a remover ou a negar.

Com efeito, trata-se de uma distinção pós-moderna, por assim dizer, que surgiu em virtude da consciência do fracasso dos processos assimilatórios, marcados pela Shoá e, em paralelo, pela existência do Estado de Israel. No século XIX, a plena assimilação liberal-burguesa dos judeus na Europa centro-oriental foi um fenômeno da elite, que nunca conquistou realmente as massas pobres que, no fim e mais frequentemente, escolheram os diversos socialismos ou o bundismo ou o sionismo.

Mas, em todas essas estradas, tentava-se recuperar um sentido de identidade como pertença irredutível e, ao mesmo tempo, de realizar não só a aspiração à emancipação pessoal, mas também a fé messiânica nos valores pregados pelos profetas bíblicos. Tudo isso na consciência de que o projeto assimilacionista era impossível (até mesmo os mais assimilados acabavam sendo rotulados como judeus e agrupados entre si).

Detendo-se nas entrelinhas dessas vicissitudes históricas, é impossível não se fazer perguntas do tipo: quanto se aproximam desses modelos as escolhas dos muçulmanos que habitam as periferias de Paris, os bairros de Londres e as outras grandes cidades europeias? Eles ainda e realmente têm o desejo de integração ou já elaboraram a sua impossibilidade, se não até experimentado o seu fracasso, e, portanto, renunciaram a buscar um compromisso entre a sua identidade cultural e religiosa, nunca perdida na saída, diria Bauman, e o papel econômico e social, que ganharam ao entrar na Europa?

E como interpretar o fascínio da jihad, que muitos percebem de modo irresistível: é porque eles realmente consideram as liberdades ocidentais como incompatíveis com os valores islâmicos ou porque intuem que a sociedade que os hospeda não sabe reconhecê-los e respeitá-los?

O impulso à guerra santa é uma forma de messianismo em versão radical e fundamentalista? Quem é realmente responsável pelos "muros" invisíveis, mas muito reais, que separam esses enclaves de "estrangeiros culturais", que também nasceram entre nós e entre nós estudam e trabalham?

Portanto, é espontâneo se perguntar se os paradoxos vividos pelos judeus no processo integrativo da sua longa diáspora, os seus sucessos e os seus fracassos têm algo a ensinar a essa nova minoria (mas, na França, 16% é uma grande minoria)?

As densas páginas de Zygmunt Bauman e o brilhante posfácio de David Bidussa estimulam a não se liquidar o discurso com frases fáceis, mas a nos reinterrogarmos sobre o inevitável destino a que estamos indo ao encontro como sociedades interétnicas e interculturais. Fechar as portas e janelas e nos declararmos "sociedade fechada" é uma opção já rejeitada pela história.