A crise no STF e o impacto nas eleições de 2026. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 19 Setembro 2026

O que acontece quando uma crise política se intensifica justamente às vésperas de uma eleição? E como os escândalos envolvendo o Banco Master, o STF e parlamentares podem afetar o debate político brasileiro? A inteligência artificial avança rapidamente em uma corrida tecnológica. Quem deve controlar o desenvolvimento dessa tecnologia e quais são os limites quando ela deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a participar de decisões que envolvem vidas? 

Como a destruição de Gaza é revelada por quem esteve dentro da guerra? O documentário Naza reúne relatos de soldados israelenses e expõe os bastidores de ataques que deixaram cidades em ruínas e milhares de vítimas. Diante de um futuro incerto, ainda é possível encontrar esperança? O que o perdão pode ensinar sobre como lidar com a dor, a memória e as feridas que permanecem?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Crise do STF e o impacto nas eleições de 2026

Faltando menos de um mês para as eleições brasileiras de 2026, o escândalo de corrupção envolvendo parlamentares e ministros do STF com o Banco Master agrava a crise institucional do país e coloca o futuro do pleito eleitoral em cheque.

Jean-Philip Struck, em reportagem para a DW, destaca como isto vem ofuscando os projetos políticos: revelações sobre condutas suspeitas de ministros da Corte, embates internos e quebras de sigilo de inquéritos ligados ao escândalo do Banco Master vêm tomando as páginas do noticiário, em detrimento de eventos de campanha e divulgação de propostas. Segundo Jorge Chaloub, em entrevista ao IHU existem duas consequências dessa crise do judiciário:

A primeira delas é o aprofundamento da deslegitimação da política. Isso porque, “a ideia de que todos são corruptos joga água no moinho da ultradireita, que propõe uma ruptura radical com a atual democracia, mas não em nome de um regime mais democrático ou igualitário, já que defende uma ordem mais claramente hierárquica”. A segunda diz respeito às eleições dos próximos dias e pode prejudicar mais o presidente Lula do que Flávio Bolsonaro.

Para ele, três pontos evidenciam este desfavorecimento ao presidente Lula, mesmo com supostas ligações de Flávio Bolsonaro ao caso Master, algo que parte da sociedade não associa.

“Primeiro, o presidente é visto como pertencente à atual ordem democrática em crise. Segundo, há uma “memória negativa de parte do eleitorado” sobre os casos de corrupção envolvendo as gestões petistas e terceiro, o discurso da corrupção é “facilmente manejado a partir da oposição, como forma de criticar o atual governo”.

O mestre e doutor em Sociologia, José de Souza Martins, também em entrevista ao IHU, destaca que a atual crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) “foi provocada propositalmente para debilitar a candidatura do PT. No ritmo em que novos escândalos vêm à tona, faltando poucos dias para as eleições, “a trama pode dar certo, a menos que o óbvio potencial de desgaste moral da direita, em particular dos Bolsonaros, se traduza em consciência política e voto, avalia.

Já o economista Daniel Negreiros Conceição, ao ser entrevistado pelo IHU, revela como a direita utiliza a insatisfação dos trabalhadores, oferecendo soluções simples para problemas estruturais complexos.

“Diante do cenário de “corrida diária pela sobrevivência” do trabalhador e a falta de perspectivas para o futuro, a esquerda aparece como a gestora fria de um sistema que só produz exaustão e dívidas” e “a extrema-direita valida a raiva do trabalhador. Ela oferece bodes expiatórios fáceis – o pânico moral, a demonização das minorias, a retórica punitivista e o individualismo armamentista – para canalizar uma fúria que tem raízes puramente materiais”.

Inteligência Artificial no controle do nosso futuro?

“Nenhuma outra atividade humana representa esse nível de perigo”. A frase de Jacob Coxon, ex-funcionário da OpenAI e Anthropic, lançou um alerta sobre o avanço desenfreado dos modelos de Inteligência Artificial. O especialista em pré-treinamento de modelos de linguagem, que trabalhou durante três anos nas duas empresas, colocou em ebulição o debate sobre a desaceleração do desenvolvimento das IAs.

Jacob se demitiu, alegando que as duas empresas não estão agindo com responsabilidade e que estão correndo a toda velocidade rumo a uma superinteligência que se aprimora sozinha. Para ele, os donos das big techs estão “apostando nossas vidas nessa corrida”.

Além disso, em entrevista à CNN, ele afirmou que “aqueles que estão construindo IA acreditam sinceramente que ela poderá nos matar a todos antes do final da década” e que existe 10% de chance da Inteligência Artificial destruir a humanidade.

Jacob não apresentou nenhuma prova dessas ameaças além de seu próprio depoimento, mas colocou a discussão em evidência no mundo todo. Especialistas de diversas áreas das ciências e da tecnologia expressaram suas opiniões, que como destacou o jornalista Jordi Pérez Colomé, em reportagem para o El País, “variaram em de apaixonadas e conspiratórias a fervorosas”.

Documentário Naza expõe bastidores do genocídio em Gaza

Não sabemos se a inteligência artificial acabará com o mundo de verdade, mas em Gaza, ela fez parte da dinâmica da guerra. Desde o início da ofensiva israelense, em 2023, sistemas de inteligência artificial foram utilizados para processar grandes volumes de dados, identificar possíveis alvos e acelerar decisões militares.

Gaza se tornou um dos primeiros grandes exemplos contemporâneos de uma guerra em que a inteligência artificial participa diretamente dos processos de identificação e seleção de alvos. Entre os sistemas citados em investigações estão o Gospel, utilizado para gerar recomendações de alvos, o Lavender, associado à identificação de pessoas consideradas suspeitas de ligação com grupos armados, e o Where’s Daddy?, relacionado ao rastreamento da localização de indivíduos.

A promessa da tecnologia é acelerar o processamento de informações que seriam impossíveis de analisar na mesma velocidade por seres humanos. Mas essa mudança também cria uma questão central: quando um algoritmo participa da decisão sobre quem ou o que pode ser alvo de um ataque, onde começa e termina a responsabilidade humana?

O conflito israelense se tornou uma espécie de laboratório para observar como tecnologias de IA podem ser incorporadas à guerra moderna. O que está acontecendo ali pode influenciar a maneira como outros países desenvolverão e utilizarão sistemas semelhantes nos próximos conflitos.

E as consequências desse conflito ainda não terminaram. Na última quarta-feira, um prédio desabou na Faixa de Gaza. Segundo a Defesa Civil Palestina, pelo menos 100 pessoas ficaram presas sob os escombros, entre elas cerca de 50 crianças. O número provisório de mortos chegou a 21.

O edifício já havia sido parcialmente danificado por ataques israelenses durante o conflito entre Israel e Hamas. Mesmo assim, moradores continuavam vivendo no local porque não tinham para onde ir. Segundo a Defesa Civil, cerca de dois mil edifícios residenciais em Gaza estão em condições estruturais precárias e podem desabar.

O "perdão" como ensinamento para lidar com a dor

Depois de falar sobre crises políticas, inteligência artificial e guerras, chegamos a uma palavra que pode parecer distante de tudo isso: perdão. Mas perdoar não significa esquecer uma violência ou deixar de reconhecer uma injustiça. Pelo contrário: pode ser uma maneira de olhar para aquilo que aconteceu sem permitir que a dor determine sozinha o futuro.

É justamente a partir dessa perspectiva que o jesuíta italiano Paolo Gamberini fala sobre o perdão como uma possibilidade de libertação. Em artigo publicado por Apertamente, o autor diferencia perdoar de simplesmente esquecer o que aconteceu. A ferida permanece como parte da história, mas o perdão pode permitir que a pessoa deixe de permanecer presa a ela.

"Virar a página não significa arrancá-la do livro: ela permanece, faz parte da minha história, ninguém pode mudar o que aconteceu. Mas uma coisa é ter essa página para trás, outra é continuar a lê-la como se fosse a única página existente. Dentro de cada um de nós vive uma força que ainda deseja encontrar, amar e se maravilhar: o perdão restaura a liberdade a esse desejo de vida, que o ressentimento havia aprisionado", afirma.

O perdão não substitui memória, justiça ou responsabilização, mas ele pode significar justamente a possibilidade de construir algo depois da ferida, sem transformar a dor em um ciclo permanente de violência.

Para isso, é preciso também escutar. A mensagem do Papa Leão XIV aos novos bispos insiste justamente na proximidade: conhecer os nomes das pessoas, ouvir suas histórias, entrar em suas casas e rezar com elas. Antes de qualquer tentativa de reconstrução, existe a necessidade de reconhecer o outro como alguém que tem uma história e uma dor próprias.

IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.