“O sistema foi construído para não enxergar os quilombolas”. Entrevista com Joana Maria

Fonte: Wikimedia Commons

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21 Agosto 2026

Joana Maria mantém uma conexão ancestral com a terra. Um modo de viver o mundo e de estar em harmonia com ele. Essa jovem, mãe de dois filhos (Norberto Máximo e Mara Amanayara), faz parte da comunidade quilombola Saco-Curtume, no Piauí. Milita no que define como educação para a equidade, as relações étnico-raciais e a educação escolar quilombola. Veio a Buenos Aires com Renata Marquez, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais, para apresentar o livro A terra dá, a terra quer, cujo autor é Antônio Bispo dos Santos, seu próprio pai, falecido em 3 de dezembro de 2023.

A entrevista é de Gustavo Veiga, publicada por Página|12, 17-08-2026.

No livro, Nêgo Bispo, como também era conhecido, líder comunitário, detalha suas vivências, a relação entre oralidade e escrita e a forma como se tornou tradutor de dois mundos distintos: aquele em que viveu até os 64 anos e o mundo que cercava seu povo com hostilidade. Por isso, seus pares lhe confiaram a tarefa de alfabetizar-se para poder ler os títulos de propriedade de seus territórios impostos pelo Estado.

Hoje, há milhares de quilombolas no Brasil, recenseados pela primeira vez em 2022. Nesses territórios vivem mais de 1,3 milhão de pessoas. Seus antepassados sobreviveram ou escaparam da escravidão, entre os séculos XVI e XIX. Joana Maria conversou com o jornal Página|12 sobre esses temas, os governos de Lula e Bolsonaro e a criminalização de seus pares.

Eis a entrevista.

O que é uma comunidade quilombola?

Para nós, é a reedição da África no Brasil. É o lugar de um povo que existe, que vive e que cultiva sua espiritualidade, seu modo de vida a partir da terra, das montanhas, das águas, dos rios. E preservamos nossos modos de vida, a dança, o batuque, o canto.

Meu pai gostava de dizer que somos um povo que vive cantando e que dança vivendo. Então, quilombo, para nós, é isso: é festejar, é viver em comunidade e, sobretudo, é compartilhar.

Somos um povo que compartilha com os demais seres e que compreende que a terra não é apenas nossa. A terra pertence a todos os viventes, vivos e não vivos também. Então, conversamos com as pedras, com as montanhas, com a terra em sua plenitude.

Como é sua comunidade no Piauí? É semelhante às do Sul do Brasil ou às do Rio de Janeiro e São Paulo? Porque achamos que sua região é muito mais desfavorecida em termos socioeconômicos.

Vivemos em um território que, para nós, é sinônimo de riqueza. Então, essa ideia de que o Piauí é um lugar pobre, marcado pela miséria e pela pobreza, não corresponde à nossa visão, porque nosso sentido de riqueza é outro. Vivemos em um lugar onde há pessoas. E se há pessoas, há riqueza. E se há pessoas, há vida. Não somos únicos, mas somos diversos.

Em nosso quilombo, há comida para receber quem chega, há casa para acolher quem chega, porque, para nós, as vidas estão acima do material. E não existe essa pressão de que precisamos produzir o tempo todo para comercializar alimentos. Produzimos o que é necessário para comer. E quando é necessário vender, vendemos.

O que suas comunidades significam na história brasileira?

Até o período da ditadura militar, uma comunidade quilombola era considerada uma organização criminosa. Como forma de nos mantermos vivos, tivemos de negar essa condição. Como defesa, porque fomos perseguidos, fomos exterminados. Por mais que tentassem nos destruir, nós nos reinventávamos e nascíamos de novo, mas ainda assim havia essa pressão.

Então, para nos mantermos vivos, durante muito tempo tivemos de dizer que não éramos quilombolas. Com a Constituição de 1988, que é uma grande conquista para a democracia brasileira, passamos a ser considerados cidadãos de direitos. E passamos a ter acesso à terra, ao direito à moradia, à educação e à saúde.

Como o conflito gerado pela expansão do agronegócio no Brasil afeta as comunidades quilombolas?

O agronegócio não se relaciona com a terra, com os seres vivos, com os rios, com tudo aquilo que compõe o território quilombola. O desenvolvimento está preso ao agronegócio. É a desconexão com a terra. Em nome desse crescimento, dessa ideia de riqueza, desconecta-se da natureza e tenta extrair toda a vida que a terra possui. Na verdade, expropriá-la.

Desse modo, o agronegócio quer expropriar a vida da terra em nome daquilo que chamam de desenvolvimento. E nós, povos quilombolas, e também povos originários que ainda preservam seus territórios, retiramos da terra apenas o que é necessário para sobreviver.

A destruição provocada pelo agronegócio é conhecida em grande parte do mundo, fora do Brasil, por meio do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que há muitos anos atua nessa pauta. Você se sente representada pelo MST?

O MST é um movimento diferente do nosso; seu modo de vida é o de quem vive no campo, sem considerar que, vivendo no campo, existem outras diversidades. Na verdade, o Movimento Sem Terra no Brasil nasce no Rio Grande do Sul [Nota do editor: o MST foi fundado no Paraná, em 1984.] Surge em uma região onde há uma predominância muito grande da população branca.

Em alguns lugares, as referências do MST ainda são eurocêntricas. Eles estão começando a discutir isso. No campo não existe apenas a vida camponesa. Há quilombolas, há indígenas, há quebradeiras de coco. Precisamos começar a compreender essas diversidades. É um movimento que respeito, mas a referência desse movimento não é a referência do Movimento Quilombola.

Ou seja, vocês têm diferenças políticas e uma cosmovisão distinta do mundo?

Nossa referência é nossa ancestralidade, é nossa realidade, é nossa sabedoria, o povo negro, o quilombola. No Movimento Sem Terra ainda existe uma luta muito alinhada à ideia do comunismo. Seus referenciais, em algumas situações, são Che Guevara, Karl Marx.

Isso não tem problema, mas estou dizendo que nossa referência é um povo que luta contra a colonização, um povo que não aceitou a colonização e que vem lutando e confluindo com os povos originários. Para nós, a referência é a terra, mas não como um lugar de produção; é a terra como um lugar de vida.

O que aconteceria se a extrema direita, o bolsonarismo, voltasse a vencer no Brasil? Como isso repercutiria nas comunidades quilombolas?

Nêgo Bispo, meu pai, tem um ensinamento sobre o qual devemos refletir muito: a esquerda e a direita dirigem o mesmo trem colonialista. Esse sistema de governo foi construído para não enxergar os povos indígenas, para não enxergar os quilombolas.

Se não ocuparmos as ruas, independentemente de quem esteja no governo, não seremos ouvidos. O sistema foi feito para não funcionar, para não nos atender. E qualquer governo que o ocupe terá de, em algum momento, em nome da governabilidade, fazer concessões. E na maioria das vezes, essas concessões acabam recaindo sobre o lado considerado mais fraco.

Mas Bolsonaro representa o neofascismo e a reivindicação da ditadura, enquanto Lula representa uma esquerda democrática.

Durante o governo Bolsonaro foi extinta a Secretaria de Educação para a Inclusão e a Diversidade, uma secretaria do Ministério da Educação responsável por formular ações voltadas à educação no campo, à educação indígena, à educação quilombola e à educação inclusiva.

Agora, com o retorno do governo Lula, ela voltou e voltou mais forte. Foi necessário ter passado por essa transição para que pudéssemos compreender como a força popular faz a diferença e que precisamos continuar ocupando as ruas, independentemente de o governo ser de esquerda ou de direita.

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