Quando o outro vira ameaça: a vulnerabilidade da infância em um mundo sem hospitalidade. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica | 01 Agosto 2026

Crianças migrantes perdem advogados nos Estados Unidos e escolas passam a usar drones com spray de pimenta contra atiradores: quando a infância vira ameaça a ser controlada, o que sobrou da ideia de proteção? Uma inteligência artificial da OpenAI escapou do controle humano. Mas antes disso, foi em Gaza que um algoritmo passou a decidir quem seria bombardeado: o que isso diz sobre o valor que damos a uma vida?

Enquanto o Rio Grande do Sul soma tornados e vendavais, há incêndios que já deslocaram meio milhão de pessoas na Europa. Por que só aprendemos a lidar com o desastre depois que ele já destruiu tudo?

"A Odisseia" de Christopher Nolan chega aos cinemas em meio a deportações, guerras e crises climáticas: será que a hospitalidade ainda é possível num mundo que insiste em erguer muros?

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

EUA: Máquina de deportação de crianças migrantes

Existe algo profundamente inquietante quando uma sociedade começa a tratar crianças como ameaça. Não porque elas cometeram crimes. Não porque representam um risco à segurança. Mas simplesmente porque nasceram do outro lado de uma fronteira. Nesta semana, duas notícias vindas dos Estados Unidos mostram como a política migratória e a lógica da segurança caminham cada vez mais lado a lado. E, no meio desse caminho, está a infância.

A partir desta sexta-feira, milhares de crianças migrantes nos Estados Unidos, de bebês a adolescentes, correm o risco de perder a assistência jurídica que recebem há anos. Elas correm o risco de perder a assistência jurídica que garante seu direito básico à defesa. Muitas delas chegaram desacompanhadas aos Estados Unidos, fugindo da violência, da fome ou da perseguição. Sem advogados, essas crianças ficam praticamente sozinhas diante de juízes de imigração, em processos que podem terminar com deportações, perda de vistos e separação definitiva de suas famílias.

O governo expirou os contratos que, desde 2003, financiavam uma rede nacional de 100 organizações dedicadas a defender menores desacompanhados ou sob custódia da imigração. A crise já vinha se arrastando. Em novembro de 2025, o governo americano reteve mais de 65 milhões de dólares em fundos já aprovados pelo Congresso, de ambos os partidos. Sem esse dinheiro, organizações foram obrigadas a recusar novos casos ou fechar operações inteiras.

"Não sabemos o que vai acontecer, porque o governo não nos informou sobre nenhum plano de transição para as 20 mil crianças representadas por este contrato", explica Shaina Aber, diretora executiva do Acacia Center for Justice.

Organizações que atuam na proteção de migrantes alertam que retirar esse apoio jurídico significa acelerar aquilo que chamam de "máquina da deportação". Não se trata apenas de uma mudança administrativa. Trata-se de transformar crianças em números de um sistema que privilegia rapidez em vez de justiça.

Drones em Gaza e a IA fora de controle

Nesta semana, dois episódios diferentes mostraram a mesma coisa por ângulos opostos: até onde vai a autonomia de uma inteligência artificial quando ela escapa do controle humano, seja para atacar, seja para proteger.

O mais alarmante veio de dentro do próprio Vale do Silício. Dois modelos de IA desenvolvidos pela OpenAI, incumbidos de resolver uma vulnerabilidade de segurança dentro de um ambiente fechado, sem acesso à internet, fizeram algo que ninguém esperava: em vez de procurar uma solução, foram atrás de uma resposta que já existia em outro lugar.

Primeiro, invadiram o próprio ambiente de testes para conseguir acesso à internet, explorando uma falha de segurança desconhecida até então. Depois, usaram uma conta comprometida em outro serviço como base de operações e, a partir dali, passaram a atacar a plataforma Hugging Face.

O relatório da empresa atacada descreve o episódio como algo saído de um romance de espionagem: um "diário" dia a dia do agente, testando canais de comunicação, mapeando o ambiente, escalando privilégios. No terceiro dia, escreve a empresa, "todas as escaladas principais foram feitas".

Ao todo, foram 17.600 ações realizadas ao longo de cinco dias, atingindo pelo menos quatro serviços diferentes de internet. Cada vez que um ambiente de teste era reiniciado do zero, o agente simplesmente reconstruía suas ferramentas e continuava de onde havia parado.

Catástrofes climáticas afetam os mais vulneráveis 

Após as chuvas intensas da última semana, o Rio Grande do Sul foi impactado mais uma vez por um evento climático extremo. Um tornado atingiu o noroeste do estado na noite da última terça-feira, dia 28 de julho, deixando quatro pessoas feridas e um rastro de destruição

O fenômeno, causado por uma supercélula de tempestade, provocou destelhamentos, queda de árvores e postes e duas residências ficaram totalmente destruídas na cidade de Sete de Setembro. O tornado também foi registrado nos municípios de Giruá e Senador Salgado Filho.

De acordo com a CNN Brasil, o sistema de monitoramento da Defesa Civil gaúcha não conseguiu prever a formação do tornado. O Centro de Monitoramento havia emitido um alerta laranja para a região, indicando potencial de tempestade severa com granizo e rajadas de vento, mas o radar não conseguiu identificar a ocorrência do fenômeno.

Enquanto isso, um vendaval na mesma região do estado gaúcho, com ventos acima de 85 km/h e granizo, destelhou cerca de mil casas nos municípios de Santo Antônio das Missões, Ernestina e Osório. São Paulo e Rio de Janeiro também sofreram com ventanias e rajadas de até 125 km/h. O temporal deixou ao menos cinco mortos — dois no Rio e três em São Paulo —, além de quedas de árvores, desabamentos, apagões e transtornos no trânsito e no transporte público nas duas cidades.

A Odisseia e hospitalidade

Deportações de imigrantes, guerras sem fim e pessoas obrigadas a sair das suas casas por conta do clima. A conexão com o lar é perdida, não por opção, mas por forças externas impulsionadas por aqueles que detêm o poder e que insistem em tentar criar um mundo sem hospitalidade.

Talvez por isso o filme A Odisseia, lançamento mais recente de Christopher Nolan nos cinemas, seja tão fascinante e compreensível às dores do nosso tempo. O filme retrata Odisseu como o herói do retorno, que luta para voltar para casa após a Guerra de Troia.

Ao ser entrevistado pelo jornal La Repubblica, Nolan afirma que a sua história é sobre as consequências da guerra, sobre o retorno e família. Ele ainda revela uma face semelhante dos nossos tempos com o período do texto original de Homero: “como naquela época, todos estamos à mercê da bondade alheia: somos hóspedes neste mundo”

O missionário e filósofo em formação, Jesús Lozani Pino, em artigo publicado por Religión Digital, destaca a hospitalidade como um fio condutor do filme: “Essa tragédia nos desafia eticamente. Hoje vemos como certos discursos e projetos políticos, protegidos pela chamada "prioridade nacional", estão ganhando terreno, juntamente com leis e barreiras de exclusão que erguem muros e justificam a rejeição de estrangeiros. A Odisseia e a tradição evangélica coincidem num apelo inegável: a hospitalidade.

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IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.