23 Abril 2026
"O progresso só é real quando chega para todos. E enquanto não chegar, precisamos continuar falando sobre isso e sem eufemismos, sem médias que escondem abismos e sem deixar que esses números voltem a ser apenas abstrações em planilhas", escreve Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do EcoDebate, em artigo publicado por EcoDebate, 20-04-2026.
Eis o artigo.
Às vezes, os números que lemos nos jornais parecem distantes, meras abstrações em planilhas governamentais, que a gente folheia sem de fato sentir. Mas quando parei para olhar com calma para os dados mais recentes sobre saneamento básico no Brasil, senti aquele desconforto que só vem quando a estatística bate na vida real.
Não é exagero. Estamos falando de dignidade. Do direito básico de abrir a torneira ou usar o banheiro sem que isso represente um risco à saúde ou ao meio ambiente. E os números de 2025 deixam claro que, para milhões de brasileiros, esse direito ainda é uma promessa distante.
O avanço que esconde um abismo
O Brasil saiu de 68,1% de domicílios com ligação à rede de esgoto em 2019 para 71,4% em 2025. À primeira vista, parece progresso. E é, mas é o tipo de avanço que precisa ser olhado com cuidado, porque a média nacional tem o poder perigoso de apagar o que está embaixo dela.
Hoje, cerca de milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à coleta e tratamento de esgoto. Quando esse número tem rosto e endereço, a conversa muda completamente.
O contraste entre o asfalto e a terra batida
Nas grandes metrópoles do Sudeste, onde mais de 90% das casas estão conectadas à rede de esgoto, o problema parece quase resolvido. Mas a realidade muda de forma brutal quando cruzamos fronteiras regionais e os limites das zonas urbanas.
No Norte do país, essa conexão cai para assustadores 30,6%. E o dado que mais me chocou ao mergulhar nesses relatórios foi o da zona rural, em que apenas 8,9% dos domicílios rurais brasileiros possuem ligação com a rede geral de esgoto. É como se o tempo tivesse parado para essas famílias, enquanto uma parte do país discute cidades inteligentes e tecnologias de ponta, elas ainda aguardam o básico.
Não à toa, o Ranking do Saneamento 2025, publicado pelo Instituto Trata Brasil, aponta que as piores posições são dominadas por municípios do Norte e Nordeste, regiões que historicamente concentram as populações mais vulneráveis e mais ignoradas pelas políticas públicas de infraestrutura.
Gráfico mostra situação do saneamento básico nas grandes regiões. (Foto: IBGE)
O fogo que consome o que o caminhão não leva
A questão do lixo é outro ponto que exige atenção e empatia. A coleta direta por serviços de limpeza já alcança quase 87% do país, o que representa um avanço real. Mas nas áreas rurais, o cenário é de sobrevivência: mais da metade dos lares ainda recorre à queimada na propriedade como destino final dos resíduos.
Isso não é uma escolha de conveniência. É a falta de alternativa. Quase 5 milhões de domicílios no Brasil ainda usam o fogo para se livrar do lixo, sendo a maioria concentrada no Norte e no Nordeste. Mesmo com a redução das queimadas desde 2016, a prática ainda é realidade de 14,5% dos lares no Norte e 13% no Nordeste.
Não tem como não pensar nas pessoas por trás desse número.
Por que o Marco Legal do Saneamento não resolveu tudo?
Em 2020, o Brasil aprovou o Novo Marco Legal do Saneamento Básico, que estabelece metas ambiciosas: 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Mas cinco anos depois, estudos apontam estagnação até recuos em alguns indicadores. O atendimento com água, por exemplo, caiu de 83,6% da população em 2019 para 83,1% em 2023.
O problema não é só de vontade política. Estimativas do Ministério das Cidades indicam que o país precisaria de um investimento médio superior a R$ 223 por habitante ao ano para cumprir as metas, mas o investimento atual é de apenas R$ 126 por habitante. O rombo é imenso, e o prazo está correndo.
Saúde pública é saneamento
Olhar para esses dados não deve ser um exercício de pessimismo. Deve ser um chamado à consciência. O fato de 98,4% dos lares já possuírem banheiro de uso exclusivo é um avanço real, mas o que acontece depois que a descarga é puxada ainda é um problema invisível para muitos brasileiros e para boa parte dos gestores públicos.
Saneamento básico é a base da saúde pública. Cada quilômetro de rede de esgoto não construído no Norte ou no interior do país se traduz em doenças evitáveis, em crianças que adoecem antes de completar cinco anos, em rios que viram esgotos a céu aberto. A falta de acesso adequado à água e ao esgoto impacta diretamente a saúde, a produtividade, a valorização imobiliária e a qualidade de vida e aprofunda um ciclo de exclusão que se perpetua de geração em geração.
Um convite à reflexão e à cobrança
Ao fecharmos esses dados de 2025, fica uma pergunta que não me sai da cabeça: que Brasil queremos construir para a próxima década?
Não podemos aceitar que o CEP de uma pessoa determine se ela terá ou não acesso ao básico. O avanço para 71,4% na rede nacional é um passo, mas a vitória real só virá quando os 8,9% da zona rural deixarem de ser apenas um dígito em uma estatística de esquecimento.
O progresso só é real quando chega para todos. E enquanto não chegar, precisamos continuar falando sobre isso e sem eufemismos, sem médias que escondem abismos e sem deixar que esses números voltem a ser apenas abstrações em planilhas.
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