Esta guerra está devastando cada vez mais a África

Foto: Patrick Meinhardt | FAO

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Julho 2022

 

"Analistas acreditam que a curva dos efeitos sobre os preços dos eventos atuais - escassez de fornecimento de cereais, aumento de hidrocarbonetos - na Europa Ocidental poderia começar a diminuir já no final do verão. Veremos. Na África, por outro lado, a explosão foi e tende a ser impressionante, com um efeito multiplicador que por anos devastará as estatísticas de desenvolvimentofome e pobreza", escreve Fabio Carminati, em artigo publicado por Avvenire, de 01-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Cuidado, porque os sinais estão todos presentes. E são claros como quando a ONU e a OMS, juntamente com muitas organizações não governamentais, lançavam os alarmes no Ocidente que conseguia garantir para si a proteção vacinal contra o Covid e a África, em vez disso, tinha que se contentar com doações pontuais de países ricos ou reivindicava o direito de infringir patentes e produzir suas próprias doses. Hoje o 'novo Covid', menos abrangente, mas igualmente devastador e sobretudo induzido, chama-se 'trigo', ou 'energia'.

 

Diferentes nomes, diferentes faces de uma crise que levará o mundo da inflação descontrolada à nova recessão. E esses sinais, há dias, vêm sendo captados bem no coração ferido da África. Em Gana, pessoas famintas foram às ruas de Acra para entrar em confronto com a polícia. Que não poupou cassetetes e uso de gás lacrimogêneo e urticante. No Malawi, como em outros países com economias debilitadas, o preço do combustível aumentou de forma geométrica. Em poucas semanas, a gasolina em Lilongwe subiu para o equivalente a dois euros e meio. Não há carros, exceto aqueles dos militares, dos ricos ou dos políticos: a distinção entre os quais, naquelas latitudes, é sempre difícil de fazer. Na rica (de petróleo) Nigéria acontece o mesmo.

 

A pobreza galopa por toda parte, como a fome. No Chifre da África, as Nações Unidas primeiro reduziram as rações de ajuda alimentar e, em alguns casos, tiveram que suspendê-las. A equação é elementar: para a mesma quantidade de dinheiro disponível, a soma que antes permitia comprar quatro quilos de farinha, hoje permite conseguir menos da metade. Com a reação em cadeia e o efeito dominó resultante. As próprias 'economias do controle do pão', por exemplo a do Egito e de outros países às margens do Nilo, estão mantendo sob controle os ânimos, mas com dificuldade. Antes desta crise, desencadeada pelo conflito ucraniano e pelo fechamento dos portos (também) do trigo, em Cartum - nas margens do Nilo - já se morria nas ruas por pão e para pedir o retorno de um ditador que tinha governado com os pães, com fingida devoção aos princípios do Alcorão e aos milicianos. Chama-se Omar el-Bashir: está sendo processado por crimes cometidos contra a humanidade. Ou, pelo menos, deveriam fazê-lo.

 

Mas voltando aos dias de hoje, em que os sinais já foram destacados inclusive nestas páginas por vários observadores, que falam abertamente sobre a nova bomba da fome africana, o problema realmente corre o risco de se tornar devastador. Também porque a velocidade da circulação dos alimentos e os tempos de resposta humanitária na África são terrivelmente estendidos em comparação com os do Ocidente.

 

Analistas acreditam que a curva dos efeitos sobre os preços dos eventos atuais - escassez de fornecimento de cereais, aumento de hidrocarbonetos - na Europa Ocidental poderia começar a diminuir já no final do verão. Veremos. Na África, por outro lado, a explosão foi e tende a ser impressionante, com um efeito multiplicador que por anos devastará as estatísticas de desenvolvimento, fome e pobreza. Ou seja, contribuirá para aumentar o 'fosso' que a pandemia tornou mais evidente, trazendo de volta as tabelas estatísticas aos terríveis valores da primeira década do novo século.

 

Em 2020, 12% (de 8,4% em 2019) da população mundial viveu em um estado de grave insegurança alimentar, cerca de 928 milhões de pessoas, 148 milhões a mais que em 2019. Depois veio a pandemia e agora a guerra e a crise das commodities. Acabou de se encerrar um G7 nos castelos da Alta Baviera, o G20 terá de esperar por novembro e o único fator desconhecido parece ser a presença ou ausência de Vladimir Putin na Indonésia. A ausência de uma intervenção verdadeiramente urgente, para ajudar quem ajuda a ajudar, infelizmente é uma dramática certeza.

 

Leia mais