A Igreja e os abusos sexuais sob a ótica dos arquétipos culturais

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Abril 2021

 

Existe a intenção de proteger a instituição, que se presume desejada pelo próprio Deus. Existe a certeza de se conceber como um corpo autônomo, portanto regulado e sujeito a normas diferentes daquelas da sociedade civil secular. Existe o corporativismo, que tende a proteger seus membros de intrusões externas. Existe tudo isso. Mas na raiz da incapacidade da Igreja Católica de fazer frente ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos - independente das intervenções individuais que aconteceram, inclusive por alguns pontífices - existe uma razão cultural: a convicção de que a pedofilia não é um "crime", mas um "pecado", e como tal é redimível através de um percurso de penitência e expiação, a realizar-se dentro da instituição, a única com direito a julgar o pecador e a proferir condenações, mesmo pesadas, porém sempre dentro do perímetro que ela mesma traçou.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 21-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma cultura do pecado que penetrou em profundidade e foi totalmente assimilada graças a uma tradição teológica e canônica de vinte séculos, que só entrou em crise nos últimos quarenta anos, quando na opinião pública, num amálgama apenas aparentemente contraditório de secularização e renascimento do sagrado, porém retirado do controle das instituições eclesiásticas, abriu espaço de forma avassaladora a ideia - a princípio longe de ser compartilhada - de que a pedofilia não é um crime contra a moral, mas uma violação dos direitos humanos dos sujeitos mais frágeis, um crime abjeto e imperdoável.

Com as denúncias públicas dos abusos sexuais cometidos pelo clero (as primeiras em meados dos anos 1980), amplificadas pelos meios de informação e de comunicação em geral - especialmente o cinema -, a rolha explodiu: a Igreja Católica se viu atingida por um escândalo após outro que foram minando a sua credibilidade para muitos fiéis, gerando descrédito e alimentando a raiva contra as hierarquias eclesiásticas, fechadas em seu código de silêncio quando não cúmplices.

A instituição tentou recentemente (o Papa Bento XVI, não o Cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) e está tentando (o Papa Francisco) correr aos reparos com uma série de intervenções e medidas, mas a onda parece impossível de ser segurada. Precisamente porque a falha não é tanto - ou não apenas - normativa e disciplinar, mas precisamente cultural.

Peccato o crimine. La Chiesa di fronte alla pedofilia

É a tese com a qual dois historiadores da modernidade, Francesco Benigno e Vincenzo Lavenia (o primeiro professor na Normale de Pisa, o segundo na Universidade de Bolonha) enfocaram o tema, com uma abordagem original e objetiva que olha para a história e, em certo sentido, aos arquétipos culturais, no livro que acaba de ser publicado pela Laterza: Pecado ou crime. A Igreja perante a pedofilia (em tradução livre, p. 284, euro 20). O livro é o resultado de um esforço de análise e, ao mesmo tempo, de síntese. A história da Igreja é percorrida, observada com as lentes da atitude em relação à sexualidade: desde as origens cristãs (a partir não dos Evangelhos - porque Jesus falou pouco ou nada de "sexualidade" - mas de Paulo, o primeiro a distinguir práticas sexuais virtuosas e pecaminoso, primeira entre elas a homossexualidade) ao Papa Bergoglio, passando pelo Império cristão tardio, Idade Média, Contrarreforma, Idade Moderna, século XX e início do novo século, com os grandes escândalos da pedofilia eclesiástica nos EUA, Irlanda, Austrália, Holanda, Alemanha e Chile. E é interpelado o pensamento dos filósofos, de Foucault a Žižek, invadindo também a literatura contemporânea e o cinema.

Para chegar a uma conclusão que não pretende explicar as causas da pedofilia (o movimento de 1968 e a liberação sexual, junto com a disseminação da homossexualidade, para os setores conservadores; o clericalismo, segundo a ala mais liberal), mas tenta identificar suas profundas raízes e explicar porque a Igreja ainda não parece capaz de virar a página: uma "cultura compartilhada pelos fiéis, pelos padres pedófilos e pelas hierarquias eclesiásticas" - mas agora não mais pela nova sensibilidade da sociedade civil – que é considerada pecado, com sua intrínseca "inelutabilidade" e "redimibilidade".

 

Leia mais