Papa diz a freira que ajuda mulheres trans: ‘Deus recompensar-te-á abundantemente’

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19 Agosto 2020

Em seu mais recente sinal de respeito pela comunidade trans, o Papa Francisco escreveu a uma velha amiga da Argentina para dizer que está orando por ela e pelas mulheres que vão morar no novo complexo habitacional que a religiosa construiu para ajudar pessoas transexuais que vivem na pobreza.

A reportagem é de Elise Ann Allen, publicada por Crux, 18-08-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Formalmente chamado de Complexo Sustentável Costa Limay para mulheres transexuais, o novo prédio conta com doze apartamentos e faz parte de uma solução habitacional permanente para cerca de doze mulheres transgênero com idades entre 40 e 70 anos que atualmente vivem em situações de pobreza.

O local foi inaugurado semana passada em Neuquén, na Argentina, pela superiora do Convento das Carmelitas Descalças, Mónica Astorga Cremona.

Em entrevista à agência argentina de notícias Telam, Astorga Cremona, que tem laços com o Papa Francisco desde a época em que este foi arcebispo de Buenos Aires, disse que recebeu a comunicação em apoio à iniciativa.

Segundo a religiosa, ela escreveu ao pontífice contando da inauguração do complexo habitacional, e que recebeu uma resposta que dizia: “Deus, que não foi ao seminário nem estudou teologia, recompensar-te-á abundantemente” pelo trabalho que vem fazendo.

Nesta breve resposta, Francisco disse que está orando pela freira e pelas mulheres transexuais sob seus cuidados, acrescentando: “Não te esqueças de rezar por mim. Que Jesus te abençoe e a Virgem Santa te proteja”.

Nascida em Buenos Aires, em 1967, Astorga Cremona, de 53 anos, vive enclausurada no mosteiro de Santa Cruz e San José de Neuquén, onde, nos últimos quatorze anos, trabalha com mulheres transgênero, incentivando-as a deixar o vício em drogas e ajudando-as a saírem da prostituição através do ensino de outros ofícios.

Após receber o hábito aos 20 anos, ela imediatamente foi trabalhar com jovens alcoólatras e viciadas em drogas, e durante anos também ministrou para prisioneiras.

O novo complexo em Neuquén foi construído em um terreno doado ao mosteiro de Astorga Cremona pelo distrito local e contou com o financiamento do governo provincial.

Muitas das mulheres que agora irão morar no local eram prostitutas no passado e viviam em situação de pobreza, vendendo-se para conseguir dinheiro. No entanto, com as ordens de quarentena impostas pela pandemia de covid-19, as que trabalhavam na prostituição se viram impossibilitadas de continuar.

Construído pelo Instituto Provincial de Moradia e Desenvolvimento Urbano, o complexo fica no bairro Confluencia, de Neuquén, e foi imediatamente entregue à Ordem das Carmelitas Descalças para que o administrasse.

Iniciativa de Astorga Cremona, conhecida também com “a freira das trans” pelo trabalho junto desta comunidade, o projeto levou três anos para ficar pronto. Consiste de um edifício de dois andares, com apartamentos de 430 metros quadrados em cada nível, bem como uma sala multiuso, um parque a ser usado como jardim e espaço para recreação e estacionamento. Cada um dos apartamentos conta com cozinha, banheiro, aquecedor e tanque com água quente, além de uma varanda e um pequeno pátio interno.

No total, o complexo custa em torno de 27,6 milhões de pesos, equivalente a 380 mil dólares.

“Ele deve servir de pontapé inicial”, disse Astorga Cremona à agência Telam, “porque se uma freira conseguiu tornar o seu sonho realidade, então o quanto poderá fazer o governo!”

Astorga Cremona cortou a fita inaugurativa do novo complexo durante uma cerimônia em 10-08-2020, junto do governador de Neuquén, Omar Gutiérrez, e do prefeito, Mariano Gaido.

Como parte da inauguração, Astorga Cremona acompanhou cada uma das novas moradoras até a porta dos apartamentos.

“Elas quase não conseguiram segurar as chaves de tanto chorar”, disse, observando que uma das moradoras contou que o banheiro era maior do que toda a casa onde vivia.

De acordo com Astorga Cremona, o novo condomínio não é “um refúgio nem um lar trans”, e sim casas dadas como se fossem empréstimos, “como se fossem um aluguel, mas sem pagar nada e nem parcelamento”.

As moradoras que cumprirem o regulamento, que é o mesmo que de um aluguel qualquer, poderão ficar no local por toda vida. No entanto, quem desobedecer receberá três advertências antes de ser solicitado a sair.

Quatro das novas moradoras se mudaram com os parceiros. Entretanto, Astorga Cremona insistiu que, se as primeiras vierem a falecer, estes últimos precisarão sair, já que o complexo se destina especificamente a pessoas trans.

Sem precisar pagar aluguel e com uma cesta de alimentos, junto de uma pensão, algumas das novas moradoras poderão levar a vida sem trabalhar durante a pandemia de coronavírus na Argentina.

Outras começaram a preparar alimentos, doces e conservas para vender enquanto aguardam a volta à normalidade da vida, em diferentes profissões, tais como em salões de cabelereiro ou com cuidado de idosos.

Essa não é a primeira vez que o Papa Francisco e Astorga Cremona trocam mensagens. Eles têm uma história que remonta ao tempo em que Francisco foi arcebispo de Buenos Aires, quando ele visitava a religiosa ao passar por Neuquén.

“Ele nunca se opôs ao que faço, e para mim esse é um grande apoio”, disse ela, lembrando uma visita do então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, de 2009, na qual ele disse para não abandonar este seu “trabalho de fronteira, que o Senhor lhe deu” e a contatá-lo caso precisasse.

A palavra “fronteira”, segundo a religiosa, tem um grande significado na Igreja Católica, especialmente quando implica o trabalho junto aos “descartados” pela sociedade e “com os quais poucos querem se envolver”.

Segundo o censo de 2017, as pessoas transexuais em Neuquén têm uma expectativa de vida em torno de 45 anos, e somente 5% conseguem chegar aos 56 ou mais.

Desde que foi eleito papa em 2013, os dois mantiveram-se em contato. Astorga Cremona disse que, quando o papa responde, ela normalmente recebe um e-mail com uma foto de carta escrita a mão, já que Francisco não usa pessoalmente um computador.

Numa dessas cartas enviadas por Francisco em 2017, o papa conta a Astorga Cremona que estava rezando por ela e pelo seu convento, e numa outra ocasião ele escreveu para se opor à discriminação contra pessoas transexuais, dizendo: “Na época de Jesus, os leprosos eram descartados assim”.

“Às vezes, eu pergunto a ele como lidar quando as pessoas dizem coisas feias para mim”, contou a religiosa na entrevista, notando que Francisco, repetidas vezes, lhe diz para não parar de orar e continuar com este trabalho.

Esta não foi a primeira vez que o papa deu o seu apoio pessoal ou material a uma comunidade trans.

Em maio, por meio da intervenção do esmoler papal, o cardeal polonês Konrad Krajewski, algumas prostitutas transexuais de Roma se tornaram beneficiárias da caridade do papa enquanto a Itália sofria pela quarentena imposta pelo coronavírus.

Foi o Pe. Andrea Conocchia, pastor da Igreja Beata Vergine Immacolata de Torvaianica, cerca de 45 minutos de Roma, quem pôs o grupo – de aproximadamente vinte pessoas – em contato com Krajewski quando estas bateram à porta da paróquia pedindo ajuda.

Krajewski, que supervisiona os fundos de caridade do papa e que, ao longo da pandemia de covid-19, andava por Roma entregando alimentos e suprimentos médicos aos pobres, enviou-lhes dinheiro suficiente para cobrir os aluguéis e contas até o fim do lockdown no país.

Em entrevista ao sítio eletrônico Crux, Krajewski declarou que “esse é também o rosto da Igreja”. Ele destacou a necessidade de se pensar fora das categorias tradicionais, porque “a nossa Igreja não é só para os fiéis. Jesus lavava os pés de todo mundo. Esse é o Evangelho, basta lê-lo para encontrar as respostas de como ajudar”.

 

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