“Minha filha trans e católica é uma prova viva de como o Vaticano está errado em relação ao gênero”

Foto: Vatican News

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17 Junho 2019

“Não, a transição da minha filha não levou à ‘desestabilização da instituição familiar’. Ao contrário, estamos mais fortes do que nunca”, afirma uma mãe anônima, em artigo publicado por The Guardian, 13-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O recente documento da Congregação para a Educação Católica do Vaticano fala de uma “crise educacional” e alega que as discussões em relação ao gênero “ajudaram a desestabilizar a família como instituição”. Como mãe de uma criança trans, acho isso extremamente decepcionante.

Eu tenho duas filhas adolescentes. O pai delas é católico, e elas foram criadas na fé católica. Quando o nosso filho mais novo “saiu do armário” como transgênero, nós lutamos. Isso foi há cinco anos, e havia uma cobertura limitada sobre as pessoas trans na mídia. Nós lutamos dentro das nossas próprias mentes – como a nossa filha pode saber disso sendo tão nova? E se ela estiver errada? O que isso significa? Nós lutamos com as nossas famílias – sem saber como dizer a elas ou, de fato, como elas reagiriam. Nós lutamos com a nossa Igreja – ainda seríamos acolhidos? Deveríamos encontrar uma Igreja diferente? Uma escola diferente?

Eu me encontrei com a liderança sênior da nossa escola primária católica para discutir o apoio. Também me sentei com a nossa irmã paroquial e conversei ao longo de muitas xícaras de café. A sua resposta ficou comigo. “Estamos falando de uma criança. Haverá pessoas que não entenderão. O mundo está mudando, e a Igreja pode ser lenta em alcançá-la. Mas a sua filha deve ser tratada com amor, compaixão e carinho. Quem somos nós para virar as costas a ela?”

Os funcionários da escola primária explicaram aos colegas, de uma maneira apropriada à idade, por que a nossa filha usaria um nome e pronomes diferentes depois das férias escolares. A única mudança nesse estágio é social – não há nenhuma intervenção médica. Eu entrei em contato com alguns pais. Mensagens de apoio retornaram abundantemente.

No ano depois da sua transição social, voamos para a Irlanda para um casamento. Esta seria a primeira vez que muitas tias, tios e primos (assim como a minha sogra de 86 anos) se encontrariam com a nossa filha em seu verdadeiro eu autêntico. Mais uma vez, como pais, estávamos nervosos. Essas são as pessoas com as quais mais nos importamos no mundo; como elas responderiam à nossa filha? O amor da família foi avassalador. Sempre haverá aqueles que não entendem, mas eu vi o alívio que a minha filha sentiu ao ser aceita e não ridicularizada. Todos os dias eu a vejo prosperar e crescer em confiança. Estou orgulhosa dela.

A transição da minha filha não levou à “desestabilização da instituição familiar”. No máximo, os laços familiares estão mais fortes. Seu relacionamento com seus avós é uma alegria de se ver. Ela e sua irmã discutem (a maioria dos irmãos faz isso), mas existe uma proximidade que antes faltava. Eu pensei muito sobre o porquê disso. Honestamente? Ela não está mais fingindo ser alguém que não é. Ela pode relaxar e ser ela mesma.

O Vaticano diz que você não pode escolher seu gênero. As pessoas trans e não binárias não “escolhem” o seu gênero. Elas sabem quem são e desejam viver com autenticidade e felicidade. O que eu digo é que as famílias, os amigos, as comunidades e as congregações podem escolher como responder. No nosso caso, eles responderam com amor, compaixão e respeito, mesmo quando não entendiam.

Como eu disse no início, tenho duas filhas adolescentes. Ambas agora frequentam a nossa escola secundária católica local. Ambas são prósperas e felizes. O Papa Francisco entrevê uma Igreja inclusiva – a nossa experiência como família é um lembrete de que Deus acolhe a todos, até mesmo e especialmente aqueles que a sociedade rejeita. A nossa comunidade é composta de pessoas que vivem a sua fé com compaixão através das suas ações. Esse, para mim, é o verdadeiro cristianismo.

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