Mais um guerreiro na casa do Pai

Thomaz Lisboa, ou Jaúka, como é chamado pelos Mÿky | Foto: Egon Heck

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26 Março 2019

“Thomaz tornou-se semente de resistência, de novos caminhos possíveis e necessários”, escreve Egon Heck em homenagem a Thomaz Lisboa, em artigo publicado por CIMI, 25-03-2019. 

Eis o artigo. 

Thomaz partiu silencioso em sua derradeira “missão calada”. Foi mais de meio século de doação de uma vida a uma causa. Desde aquela Semana Santa de 1967, de maneira especial com seu companheiro Egydio, acenderam a chama de um novo indigenismo missionário, marcado por um compromisso radical e coerente com a causa dos povos indígenas, com respeito à vida, cultura, religião e autodeterminação desses povos.

Encarnação

Desde os primeiros contatos com os Kaingang e Guarani do Rio Grande do Sul, na década de 1960, foi construindo, em meio a dores e alegrias, dúvidas e certezas, um novo caminho missionário que veio a se concretizar na criação do Cimi – Conselho Indigenista Missionário, do qual participou de diversas formas, desde Conselheiro até vice-presidente e articulador da questão das terras indígenas. Também foi designado pela Missão Anchieta como diretor do internato de Utiarit, em Mato Grosso. Um processo lento, de dores e esperança, de coragem profética, de ousadia e fé.

Neste período de fortes ventos de mudança, a decisão era de encarnar-se na vida e luta dos povos originários, tornando-se, na medida do possível, um deles ou mais próximo da vida e sonhos desses povos. Thomaz buscou com todas as energias encarnar-se na vida desses povos, em especial dos Myky, com os quais partilhou grande parte de sua vida, desde a realização dos primeiros contatos, em 1970, até sua partida definitiva nestes dias de início de outono de 2019.

Caminhos plurais e causa comum

A Missão Anchieta, na Prelazia de Diamantino, foi uma terra fértil para a afirmação de um novo indigenismo missionário de resistência e conquista de importantes direitos dos povos indígenas.

No encontro de 50 anos da Operação Amazônia Nativa (Opan), Thomaz senta-se ao lado de Egydio Schwade, ao microfone. Foto: Egon Heck 

Aí também temos a fundamental contribuição de Thomaz. Sua sensibilidade aguçada, coragem e determinação, ele e Egydio tiveram a intuição de ajudar os povos indígenas no Brasil de darem um passo decisivo na luta e conquista de seus direitos, especialmente suas terras. Ao sentirem os povos originários em nosso continente se unirem e mobilizarem para enfrentar a opressão do sistema colonial, procuraram buscar um caminho solidariedade, apoio e visibilidade às lutas dos povos indígenas em nosso país.

Foi então que ajudaram os povos, especialmente as assistidas pelas missões católicas, num primeiro momento, a começarem a se visitar e reunir em grandes assembleias para debaterem sua causa, seus problemas e principalmente as formas de se apoiarem nas lutas por seus direitos.

Da aldeia ao Sínodo da Amazônia

Thomaz tornou-se semente de resistência, de novos caminhos possíveis e necessários em nosso ardor missionário e testemunho profético. Tua presença e partilha de vida com os Myky, é certamente um desses caminhos a emergir com vigor no Sínodo da Amazônia que se realizará em outubro desse ano.

Thomaz! Pagaste um preço alto pela tua ousadia e radicalidade, mas podes ter a certeza de que o sofrimento se transformará em semente e a semente em muitos frutos.

Abraço a meu melhor amigo, companheiro de luta e caminho

No dia em que encontramos Vicente Kiwxi, você Jaúka, aos prantos, bradaste por justiça: “Encontramos esse meu maior amigo... Chorei comovido, e, pensando na figura desse meu amigo, que tombava ali, insepulto até então, ignorado por todos, como ele foi durante muito tempo, por muita gente, que não dava valor ao tipo de trabalho que ele levava, que era de total respeito ao povo Enawenê Nawê” (Provocar rupturas, construir o reino, memória, martírio e missão de Vicente Cañas, Egon Heck e Paulo Suess, ed. Loyola, 2017).

Como afirmaste há poucos dias, por ocasião dos 50 anos da OPAN, teu batismo de fogo foi ajudar a sobrevivência dos Tapaiúna, que foram quase totalmente massacrados pela irresponsabilidade do Estado brasileiro, e que até hoje estão sem ter sua terra devolvida.

Thomaz, os povos indígenas são imensamente gratos, pois foste e continuas sendo um guerreiro dessa causa, agora junto a todos os que deram suas vidas por essa causa.

Egon Heck
Secretariado Nacional do Cimi
Brasília, início de outono de 2019.

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