O Papa do diálogo inter-religioso

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21 Janeiro 2016

“As peças do quebra-cabeça que o Papa criou em frente ao diálogo inter-religioso são cada vez mais significativas e, em alguns casos, surpreendentes”, escreve Francesco Peloso, em artigo publicado por Vatican Insider, 19-01-2016. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

Eis o artigo.

O Papa dos marginalizados, dos rejeitados, dos pobres; claro, Bergoglio é tudo isso, mas seria parcial considerar o Pontificado de Bergoglio “sozinho” neste sentido. As peças do quebra-cabeça que o Papa criou em frente ao diálogo inter-religioso são cada vez mais significativas e, em alguns casos, surpreendentes.

Depois da Sinagoga de Roma, o Papa deverá em breve visitar a Grande Mesquita de Roma; se assim for, ele vai se tornar o primeiro pontífice a visitar o templo construído pelo arquiteto Polo Portoghesi. A informação, contudo, ainda não foi confirmada oficialmente pelo Vaticano, mas Yahya Pallavicini, vice-presidente da Coreis, Comunidade religiosa islâmica na Itália, disse que, efetivamente, está se trabalhando em uma hipótese deste tipo.

O gesto aconteceria no contexto do Jubileu da misericórdia e adquiriria um significado muito importante, porque converteria Roma na capital pacífica das três grandes religiões monoteístas, a cidade de convivência inter-religiosa possível e praticada.

Além disso, é preciso lembrar que a mesquita de Roma, a maior da Europa, é por tradição sunita e que a Arábia Saudita promoveu sua construção. E a maior parte das comunidades de imigrantes ou cidadãos muçulmanos que chegaram à Itália buscando trabalho e paz, fugindo da guerra ou da pobreza, segue a tradição sunita.

O Jubileu e o diálogo com o judaísmo e o islamismo

O diálogo inter-religioso formava parte do “programa” jubilar, se considerasse a Bula Papal, na qual se afirma que “A misericórdia tem um valor que ultrapassa os limites da Igreja. Ela nos relaciona com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais qualificadores de Deus”. “Israel antes de todos – prossegue o texto – recebeu esta revelação, que permanece na história como o início de uma riqueza incomensurável a oferecer à toda humanidade. Como temos visto, as páginas do Antigo Testamento estão entrelaçadas de misericórdia porque narram as obras que o Senhor realizou por seu povo nos momentos mais difíceis da sua história”.

E depois acrescenta: “O Islã, por sua parte, entre os nomes que atribui ao Criador está o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia em sua debilidade diária. Eles também acreditam que ninguém pode limitar a misericórdia divina porque as suas portas estão sempre abertas”.

Ali nasce justamente um desejo que está começando a tomar forma: “Que este Ano Jubilar na misericórdia possa favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que nos torne mais abertos ao diálogo para conhecermos e compreendermos melhor uns aos outros; que elimine todas as formas de impasse e desprezo, e que afaste qualquer forma de violência e discriminação”.

Rohani visita o Papa

Na semana que vem, 26 de janeiro, Francisco receberá no Vaticano o presidente do Irã, Hassan Rohani. Será mais um evento de grande importância, um ato diplomático e polaco de primeira ordem, mas sem esquecer que o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso sempre manteve durante estes anos uma linha de diálogo em nível teológico com Teerã, capital do Islã xiita, e às vezes a teologia e a diplomacia seguem os mesmos caminhos.

Tendo em conta o papel de ator protagonista que o Irã assumiu na crise no Oriente Médio, principalmente no Iraque, na Síria e na Terra Santa, e também a nova fase em que se encontram as relações econômicas e policiais entre Teerã e as capitais ocidentais, pode-se compreender o quão significativa será esta reunião no Vaticano.

E tampouco devemos esquecer que a Santa Sé apoiou as negociações sobre a energia nuclear entre os Estados Unidos e o Irã, que concluíram de forma positiva e cuja consequência resultou no fim das sanções econômicas impostas ao Irã, fato que já está tendo repercussões na economia global.

Bangui, Istambul e Sarajevo

Também temos que ressaltar que o papa, além da eventual visita à mesquita de Roma, já esteve, em novembro do ano passado, na mesquita de Bangui, na República Centro-Africanana. Nessa ocasião a comunidade e as autoridades islâmicas locais o agradeceram pela mensagem de paz e esperança que ofereceu com seu gesto em um país abalado por conflitos internos também alimentados pelas diferenças religiosas, para disfarçar a clássica luta de poder e controle dos recursos naturais do território. Como também aconteceu com Bento XVI, Bergoglio visitou a Mesquita Azul de Istambul (em 2014), outro centro importante do islamismo sunita (em 2001 João Paulo II visitou a mesquita em Damasco, na Síria).

Francisco voltou a impulsionar o diálogo teológico entre as três grandes religiões do Livro: em primeiro lugar com o judaísmo, como ele mesmo disse durante sua visita à sinagoga de Roma, no domingo passado, 17 de janeiro.

Os motivos são complexos e muito simples ao mesmo tempo: em um discurso que tocou nas raízes comuns das três religiões monoteístas do Mediterrâneo, o sentido profundo da fé em um Deus da vida, segundo a expressão que utilizou o Papa no Grande Templo de Roma, contrapõe-se à religião transformada em um instrumento de morte, na ideologia fundamentalista; Bergoglio promove, assim, uma divisão entre a fé e o poder, entre o Deus do amor e o fundamentalismo que usa a religião para justificar violências inéditas ou para construir muros no coração da Europa.

Uma reflexão deste tipo começou graças ao João Paulo II, mas na atualidade a questão é crucial para afrontar os conflitos compatriotas. Não é por acaso que o Papa visitou a Terra Santa, assim como a Turquia e Sarajevo; todas elas etapas fundamentais de uma viagem pelo coração dos territórios que têm uma pluralidade de culturas, religiões e tradições espirituais, e cujo equilíbrio sempre corre grandes riscos devido às guerras ou à vontade de padronizar cada uma destas realidades. Um pouco o oposto do mundo poliédrico imaginado por Bergoglio, em que as diferenças são uma riqueza e uma oportunidade de colaborar e crescer juntos.