''Uma avó cansada? É falta de ambição.'' Entrevista com Rémi Brague

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28 Novembro 2014

Entre os intelectuais europeus que acompanharam mais de perto a visita do Papa Francisco a Estrasburgo, certamente figura também o grande filósofo francês Rémi Brague, que dedicou obras memoráveis à identidade continental, começando por Il futuro dell’Occidente. Nel modello romano la salvezza dell’Europa [O futuro do Ocidente. No modelo romano, a salvação da Europa] (Ed. Bompiani).

A reportagem é de Daniel Zappalà, publicada no jornal Avvenire, 27-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Professor da Sorbonne e ex-titular em Munique da cátedra dedicada a Romano Guardini, professor convidado em inúmeras universidades dos Estados Unidos e vencedor em 2012 do Prêmio Ratzinger pelos estudos em teologia, Brague se diz impressionado não só pelas palavras proferidas pelo papa, mas também por todo o contexto da atenção concentrada, principalmente durante o primeiro discurso ao Parlamento Europeu.

Eis a entrevista.

Professor, o que mais chamou a sua atenção nos dois discursos em Estrasburgo?

Em primeiro lugar, a reação do público. Certamente, alguns estúpidos deixaram a sala, recusando-se a priori a ouvir. Mas Francisco soube se fazer aplaudir, embora dizendo coisas muito pouco agradáveis de se ouvir. Eu volteu da Espanha, e os jornais falavam desse deputado da extrema esquerda, um pouco "comedor de padres", que postou no Twitter a sua satisfação.

No fim do discurso ao Conselho da Europa, o Papa Francisco desejou uma "nova ágora" de debate entre instâncias civis e religiosas. E a famosa pintura "A Escola de Atenas", de Rafael, foi empregada pelo pontífice como metáfora do continente. Como o senhor percebeu o convite dirigido ao espírito da ágora?

A ágora era o mercado de Atenas, onde Sócrates buscava os seus discípulos. É interessante que, em um mundo onde tudo tende a se reduzir a mercado, um ponto que os papas criticam, é preciso desejar um mercado das ideias e dos credos. Não há nenhuma contradição, já que, se os bens que trocamos nos mercados materiais e financeiros passam para a mão de quem os compra e são perdidos por quem os vende, os bens intelectuais e espirituais enriquecem quem os recebe sem empobrecer quem os dá. Para esses bens, é preciso desejar um mercado totalmente aberto, em que ideias e credos valham apenas pela própria dignidade, sem intervenção de um poder qualquer que buscaria impô-los.

As passagens sobre o "cansaço" da Europa são as palavras de um pastor ou as de quem guia a Igreja "perita em humanidade"?

Husserl tinha evocado esse ponto na sua famosa conferência de Viena, em 1935. Chamou-me a atenção a imagem da avó, sendo eu mesmo um avô. A Igreja não é só perita em humanidade. É, acima de tudo, uma instância que faz do homem uma ideia mais alta do que a que o homem tem de si mesmo. O Deus do qual ela é serva tem ambições muito altas sobre o homem, muito além daquilo que o homem, abandonado a si mesmo, poderia se permitir esperar. Esse "cansaço", no fundo, é uma falta de ambição.

O discurso ao Parlamento Europeu evoca "a cultura do descarte", difundida nas nossas sociedades. Na sua opinião, é preciso entender isso como o polo oposto à ''ecologia humana" evocada em Estrasburgo pelo papa?

Esta última expressão foi lançada por Bento XVI em 2011. O fato de que Francisco a retome, mostra, por trás das diferenças evidentes de estilo, a profunda continuidade entre os dois.

O Papa Francisco observa: "A cultura, de fato, nasce sempre do encontro recíproco, voltado a estimular a riqueza intelectual e a criatividade daqueles que dela fazem parte; e isso, além de ser a implementação do bem, é beleza". O senhor está surpreso ou impressionado com essa evocação da beleza?

Eu a achei tocante, mas não me surpreendi. Li Hans Urs von Balthasar o suficiente para apreciar a promoção da beleza a conceito teológico. Falar da beleza é ainda mais necessário se pensarmos que existe na arte uma tendência de longo fôlego, que começou justamente no fim do século XVIII, para substituir a busca da Beleza pela do interessante, que pode ser feio, contanto que seja incisivo. Algumas tendências naquela que se autoproclama como "arte contemporânea" levam isso às últimas consequências. É importante redescobrir a Beleza, já elevada a dimensão transcendente, de pleno direito, por Boaventura e, como tal, capaz de abrir ao Verdadeiro e ao Bem.