Literatura afro-brasileira e sua contribuição para o debate antirracista no imaginário coletivo. Entrevista especial com Luciany Aparecida

"Escritoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo geram movimentos de representatividade indispensáveis para a saúde antirracista e feminista do país", afirma a escritora

Foto: Markus Spiske/unsplash

Por: Luana de Oliveira | 21 Agosto 2026

A hegemonia de um país também se decifra nas palavras escritas na literatura. De acordo com o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), cerca de 2,5% dos livros publicados no Brasil são de autoria de autores pretos ou pardos, algo completamente absurdo em um país onde 56% de sua população é predominantemente preta ou parda. O racismo estrutural assola corpos onde os espaços ainda são limitados por um sistema patriarcal dominado pela branquitude e pelo masculino. É nesse contexto que a literatura afro-brasileira emerge quebrando barreiras, impulsionando vozes negras em um cenário global. Contar histórias é ultrapassar o limite das entrelinhas e reescrever seu espaço na história, de forma a inspirar novas gerações de pessoas a conquistarem seus espaços de representação. Escritoras como Maria Firmina dos Reis (primeira romancista negra da América Latina) são uma inspiração para escritoras negras que partilham as histórias, a partir de uma literatura potente que produz novos imaginários. A sociedade ainda precisa compreender a importância dessas obras, de tal modo que elas não sejam discutidas e tiradas das prateleiras apenas em novembros de Consciência Negra.

Em entrevista, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a escritora Luciany Aparecida afirma que "se sabe por diferentes estudos que a sociedade brasileira é estruturalmente racista, logo isso quer dizer que se reproduz com alguma frequência imagens e pensamentos limitantes sobre a população negra e suas filosofias ou mesmo sobre sua história". Na obra Contos ordinários de melancolia, Luciany assina o livro como Ruth Ducaso, partindo da seguinte questão: "qual a importância de um nome em uma sociedade ferida pela colonialidade?"; a partir disso, ela conta que começou a elaborar um trabalho que "se aproximasse ao que mulheres que estiveram aprisionadas no período escravista fizeram, que foi inventar nomes, como um gesto abolicionista, para não usarem os nomes que lhes foram impostos pelo sistema colonial. Nessa linha, esse processo de criação e nomes se relaciona com um desejo de referenciar essas antepassadas".

Citando outras referências da literatura afro-brasileira, a autora comenta que "escritoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo geram movimentos de representatividade indispensáveis para a saúde antirracista e feminista do país. Elas ensinam a geração delas e a novas gerações que uma mulher negra pode ir onde ela desejar".

Luciany Aparecida, escritora e pesquisadora | Foto: Arquivo pessoal

Luciany Aparecida (1982, Vale do Rio Jiquiriçá, Bahia) é doutora em Letras, com pesquisas nas áreas de nação, imigração, memória e identidades. Professora do Programa de Pós-graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP (doutorado e mestrado). Pesquisadora do Grupo Literatura de Ancestralidade Negra. Escritora da Editora Alfaguara, Grupo Companhia das Letras. Autora de Mata Doce, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2024. Mata Doce foi ainda finalista do Prêmio Jabuti 2024 e semifinalista do Prêmio Oceanos 2024.

Seus estudos pensam escrita, teoria e crítica da literatura contemporânea na interface: história, memória, ancestralidade, afrodiáspora, imigração e nação. É autora de Macala (2022), plaquete do Círculo de Poemas; Joanna Mina (2021), dramaturgia que resultou do edital Dramaturgias em Processos, do Teatro da USP. Com a assinatura Ruth Ducaso, publicou: Florim (2020) e Contos ordinários de melancolia (2017), ambos pelo selo editorial paraLeLo13S.

Confira a entrevista.

IHU – Qual a importância das diferentes obras literárias afro-brasileiras na atualidade, principalmente para se fazer memória e denunciar apagamentos que reverberam na sociedade?

Luciany Aparecida – Acho que principalmente para renovar e ampliar a literatura brasileira, trazer complexidades para a linguagem e consequentemente para nossos imaginários. No Brasil, temos uma cena literária ainda muito reduzida a publicações que marcam lugares hegemônicos, e diferentes pesquisas demonstram isso. Autorias negras e LGBTs ainda são minorias. Sonho com o dia em que a literatura identitária escrita por pessoas brancas não seja mais lida como universal. Pois universal deveria ser o uso da linguagem, os ajustes de imagens, a reelaboração das estruturas da ficção, e isso todas as pessoas que escrevem podem vir a elaborar, independentemente do ambiente onde se passam suas histórias, da cor da pele e ou mesmo do gênero ou da orientação sexual dos seus personagens.

IHU – Em que medida a literatura afro-brasileira ultrapassa o campo estético e assume uma função política ao denunciar violências estruturais e produzir novas formas de imaginar o futuro?

Luciany Aparecida – Ainda é tão surpreendente para o imaginário ficcional do país a presença de histórias negras que nossas fabulações são lidas como políticas. Claro, com isso não quero dizer que não sejam, mas digo que toda obra literária estabelece um diálogo entre o estético e o político, pois nada na sociedade é separado tão rigidamente. A diferença seria se uma obra se aproxima ou se distancia de posições hegemônicas. Por exemplo, se sabe por diferentes estudos que a sociedade brasileira é estruturalmente racista, logo isso quer dizer que se reproduz com alguma frequência imagens e pensamentos limitantes sobre a população negra e suas filosofias ou mesmo sobre sua história. Logo, se um romance apresenta personagens negras complexas, ele estará sendo político, sem em nenhuma medida deixar de ser uma obra elaborada por diferentes acionamentos estéticos.

IHU – Ao assinar alguns de seus trabalhos (como Contos ordinários de melancolia) com o nome de Ruth Ducaso, você afirma que "o estilo de Ruth Ducaso é tocar em dores coloniais". Como é o processo de transformar essas dores em literatura, denunciando o que foi o processo de colonização e sua herança estrutural?

Luciany Aparecida – É um processo de pesquisa. Primeiro existe o desejo da escrita literária. Sou uma escritora e escrevo por um genuíno desejo de inventar mundos. Segundo, vou pensando: qual mundo quero construir? Quais histórias quero contar e, principalmente, a partir de quais pontos de focalização? Bem, tendo essas questões como base e aliando minha escrita a uma reflexão sobre a criação de assinaturas estéticas, por exemplo, a invenção de nomes é uma criação de liberdade ou mesmo uma reflexão sobre autoria. Que seria pensar: qual a importância de um nome em uma sociedade ferida pela colonialidade? Comecei a elaborar um trabalho que se aproximasse ao que mulheres que estiveram aprisionadas no período escravista fizeram, que foi inventar nomes, como um gesto abolicionista, para não usarem os nomes que lhes foram impostos pelo sistema colonial. Nessa linha, esse processo de criação e nomes se relaciona com um desejo de referenciar essas antepassadas.

Por exemplo, bell hooks, professora e pesquisadora estadunidense, criou esse nome em referência a sua avó materna. Inspirada em todas elas eu criei o nome Ruth (inspirada no nome de minha avó materna — para criar uma linha matrilinear) Ducaso (junção das palavras do+caso, quer dizer um nome inventado a partir de casos de histórias de mulheres negras).

É verdade também que, quando publiquei Contos ordinários de melancolia com o nome Ruth Ducaso e não o nome Luciany Aparecida assinando a capa, as pessoas disseram: "Ah!, então você está criando um heterônimo como Fernando Pessoa?" E não era isso. Então, para estabelecer essa diferenciação teórica, eu criei o conceito de assinaturas estéticas, o relacionando com essas ações de reescrituras nominais abolicionistas de que falei anteriormente.

Em resumo, nos trabalhos com minhas assinaturas ou com o meu nome mesmo, escrevo em diálogo com pesquisas historiográficas e com o desejo de criar um campo de imagens para trajetórias que não quero que fiquem arquivadas.

IHU – Como Mata Doce e outros escritos literários afro-brasileiros contribuem para ampliar o debate público sobre racismo estrutural, violência de gênero e direitos da população negra?

Luciany Aparecida – A primeira contribuição é que, quando se tem Mata Doce nas bibliografias dos cursos de Letras, História ou Filosofia, clubes de leitura e nas cestas de compras, quer dizer a ampliação das referências de leitura de mulheres negras, e isso já é uma ação considerável em um país estruturalmente racista e patriarcal. Esse destaque é importante pois, infelizmente, muitos cursos e famílias se formam sem nunca terem colocado em suas bibliografias a leitura de um livro escrito por uma mulher. Mais grave ainda, sem a presença de uma mulher negra. Bem, considerando esse ponto superado, obras da literatura afro-brasileira contribuem para o debate antirracista, pois apresentam imaginários negros complexos, criando cenas diferentes do que um imaginário racista e/ou machista apresenta desses corpos.

IHU  Mata Doce estabelece um diálogo com Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis. Qual foi a importância de referenciar o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil na construção da obra e no diálogo com a literatura afro-brasileira?

Luciany Aparecida – Trouxe Úrsula para Mata Doce, pois queria me filiar a uma tradição de mulheres negras romancistas no Brasil. Esse foi o meu primeiro romance publicado por uma editora de grande circulação no país, e eu sabia que, chegando na cena sudestina, primeiro eu seria referenciada não apenas por ter escrito um romance, mas por ter escrito um romance sendo uma mulher negra, LGBTQIAPN+, baiana, nordestina, do Vale do Rio Jiquiriçá. Tudo isso é muito importante e definidor das minhas escolhas estéticas, sem dúvida, mas são importantes também os ajustes de linguagens que faço no livro. Há séculos mulheres negras estão escrevendo literatura no Brasil. O absurdo é que nem sempre estiveram sendo publicadas e/ou lidas.

Sobre a construção do livro, tem um momento em que Maria Teresa reencontra a máquina de datilografia, e eu queria que ali ela não se sentisse sozinha, por isso ela encontra Maria Firmina. Quer dizer, ela estava sozinha no casarão, mas trazer o livro foi um jeito de colocar a personagem de volta ao campo da leitura e da escrita. Lugar que ela se viu obrigada a sair depois de ter vivido um grande trauma e de ter abandonado, por isso, uma profissão de datilógrafa para ser matadora de bois.

IHU – Em Mata Doce, a palavra circula entre diferentes vozes e perspectivas. A escolha por uma narrativa polifônica também representa uma forma de descolonizar quem tem o direito de narrar?

Luciany Aparecida – Acho lindo pensar na polifonia como ação descolonizadora, vou anotar. Gosto muito de ouvir leituras sobre Mata Doce porque também vou aprendendo. Acho assim, quem lê um livro também escreve aquela história lida e pode, desse modo, aferir sobre ela teorias. Sabe, criei a narrativa em Mata Doce variando entre uma voz em terceira e em primeira pessoa, pois me interessava expor um diálogo com o tempo.

Maria Teresa e ou Filinha Mata-Boi, a personagem principal de Mata Doce, é uma mulher com 92 anos quando está batendo suas lembranças em uma máquina de datilografia, e ela já estava sob o efeito de um narrar velho. Quero dizer assim, eu queria que a estrutura narrativa do romance imitasse a estrutura da memória de uma mulher mais velha.

Somado a isso, sou leitora de Leda Maria Martins, e a professora escreve sobre o tempo espiralar. Então acho que fui em Mata Doce trabalhando o foco narrativo para ser dançante. Ele bailarina com o tempo. Ah!, mas claro, sua referência à polifonia pode ser também pelas cartas! Ali, pensei enquanto estava escrevendo que queria que a pessoa leitora chegasse mais perto dos personagens, sem a mediação da narradora, já que nas cartas cada personagem fala por si. Então é isso mesmo, é uma polifonia como acionamento contracolonial inclusive na estrutura do narrar. Tá vendo? Incrível como a leitura nos leva. Sabe, quem lê um livro o conhece muito mais do que quem o escreve. Isso é a verdade.

IHU – A presença das cartas e das memórias escritas por Maria Teresa parece criar um arquivo afetivo da comunidade. A literatura afro-brasileira pode ser entendida como um espaço de preservação das histórias que a história oficial deixou de registrar?

Luciany Aparecida – Acho que sim! Sabe, mais que preservação, acho que a literatura negra e/ou afro-brasileira e indígena tem funcionado como um arquivo vivo, um espaço de reescritura crítica de imaginários.

IHU – De que forma os livros de grandes escritoras como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus contribuem para inspirar novas gerações ao exporem a realidade afro-brasileira?

Luciany Aparecida – Escritoras como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo geram movimentos de representatividade indispensáveis para a saúde antirracista e feminista do país. Elas ensinam a geração delas e a novas gerações que uma mulher negra pode ir onde ela desejar. Elas nos inspiram a escrever e a batalhar por nossos espaços na cena literária e, principalmente, a trabalhar pelos nossos sonhos.

IHU – Como a escolha de Mata Doce como leitura obrigatória do Vestibular Uesb 2026 valoriza a literatura produzida por mulheres negras e as narrativas regionais? Qual a importância dessa leitura para combater o racismo estrutural nas escolas?

Luciany Aparecida – Quando um romance é indicado como leitura obrigatória de um vestibular, essa obra passa a ser trabalhada nas escolas, e isso pode alterar a trajetória de um livro, pois ele passará a ter grupos de pessoas especializadas em literatura compondo aulas, leituras, interpretações. Infelizmente, é recente esse movimento de termos livros de mulheres negras sendo indicados nessas listas. Essa ação é, sem dúvida, uma ação político-pedagógica antirracista e feminista. Vibro por isso, pois entendo que estamos levando imaginários de liberdade para diferentes espaços e inspirando grande parte da população brasileira (visto que 55% é negra e ou indígena), que nem sempre se viu representada nas histórias que lia.

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