A teocracia de Ambrósio

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28 Abril 2016

O mundo cristão transtornara-se pela heresia ariana no século quarto. Ario, teólogo norte-africano, afirmou que Cristo, "gerado" pelo único Deus, eterno e indivisível, tinha "vindo depois" e não podia ser considerado da mesma forma que o Pai: pois havia "um tempo antes, em que o Filho não existia". Nos tempos de Constantino, que abrira as portas do Império aos seguidores de Cristo, o Concílio de Nicéia (325) condenou a doutrina ariana. Mas, depois de pouco tempo, o Imperador reintegrado Ario e mandou para o exílio seu grande inimigo, o bispo Atanásio da Alexandria.

O comentário é do escritor italiano Paolo Mieli, publicado por Corriere della Sera, 26-04-2016. A tradução é de Ramiro Mincato

Depois disso, as décadas seguintes foram marcadas por uma longa disputa entre arianos e atanasianos, e a Igreja de Roma fatigou não pouco para chegar à cabeça da doutrina herética que, neste interim, tinha conquistado bispos e reis. Um grande protagonista desta batalha foi Ambrósio, embora que no início tivesse alguma indulgência (ou algo mais) com relação ao arianismo. Este é o ponto de partida de um livro original, Contra Ambrósio, de Franco Cardini, publicado pela Salerno.

Cardini, desde as primeiras linhas, põe as mãos na frente para se defender das acusações que poderia receber pelo ousado ensaio. O seu não quer ser um panfleto "provocativo", nem “uma indecorosa profanação", muito menos "um insensato ataque histórico, ou pior ainda, teológico" contra um homem que, por sinal, foi inspiração e modelo para S. Agostinho. Seus juízos “não querem ser moralistas e totalmente anti-históricos" ou "paradoxais exercícios ucrônicos" e até mesmo “controvérsias fátuas e facciosas", com consciência tardia. Contra Ambrósio é uma tentativa de "sair do confortável abrigo do histórico" em favor de uma modalidade que lhe permita "descobrir", "expor" e "tomar posição". Tudo isso não separado de uma “pitada de auto-ironia, por tentar, diante de um gigante da história e do pensamento, dar uma espécie de rugido de rato". Além do mais, que existissem aspectos controversos da vida de Ambrósio transparecia já, nas entrelinhas, nas impecáveis notas de Marco Navoni à Vita di sant’Ambrogio (Ed. San Paolo), escrito por Paulino, um colaborador contemporânea do principal patrono de Milão. Assim como, sempre nas entrelinhas, a partir das biografias de Cesare Pasini, Ambrogio di Milano; Azione e pensiero di un vescovo (Ed. San Paolo) e de Angelo Paredi, S. Ambrogio e la sua età (Jaca Book). E também, ainda que marginalmente, do extraordinário Teodosio, il Grande (Salerno), de Hartmut Leppin.

O livro de Cardini parte do ano 374, quando, depois de ter exercido o papel de governador leigo da região que, na época, correspondia à Ligúria e Emília, e, mesmo não sendo batizado, aos trinta e cinco anos de idade, Aurélio Ambrósio (nascido em 339, em Trier, cidade residência oficial do imperador romano do Ocidente, desde o ano de 292) foi nomeado bispo de Milão, que desde o ano de 286, era "sede Imperial". Era filho de um alto magistrado do Soberano Constantino II, mas sobre seu pai paira um "ambíguo silêncio", que induz a suspeitar estivesse envolvido numa controvérsia e tivesse "militado ao lado dos perdedores". A “levá-lo tão alto" teria sido o Prefeito Sexto Petrônio Probo, homem muito falado, com óbvias inclinações para o arianismo, assim como a imperatriz Justina (esposa de Valentiniano I e mãe de Valentiniano II), protetora de Probo. Ariano era também Auxêncio, seu predecessor na cátedra episcopal de Milão.

A decisão de sua elevação a este importantíssimo cargo foi o grito de uma criança que, num encontro popular, teria gritado "Ambrósio, bispo!", levantando um imediato e enorme entusiasmo popular, ao que Cardini define como evidente "armação", um "bem arquitetado episódio de organização de consenso", uma espécie de "espontaneidade popular cuidadosamente pilotada". Atrás da mesma é bem reconhecível a regia de Probo. De qualquer maneira, em seguida àquela aclamação, Ambrósio foi batizado, tornou-se bispo (com alguma irregularidade formal) e não tardou em livrar-se do pesado apoio de seu poderoso protetor.

Naquele momento aparece, ao seu lado, o presbítero Simpliciano, fiel a Atanásio, que acompanhou Ambrósio ao longo de toda sua vida e, apesar de vinte anos mais velho, sobreviveu a ele. Por um curto período de tempo houve também seu irmão Sátiro, que Cardini suspeita nutrisse simpatias arianas. Quanto a Ambrósio, em 376, contrastando a imperatriz Justina, opôs-se à eleição de um bispo seguidor de Ario para Sirmio, e desde 378 começam a aparecer ideias antiarianas em suas homilias. Apenas em tempo para estar em sintonia com o Edito de Tessalônica (380), com o qual o Imperador do Oriente, Teodósio, impôs a “todos os povos a nós submetidos" a disciplina apostólica e a doutrina evangélica do credo "na única divindade" do Pai, e do Filho e Espírito Santo. Assim que, Teodósio, de acordo com Franco Cardini, "muito mais adequadamente que Constantino, pode ser considerado o verdadeiro fundador do império Romano-Cristão".

De qualquer modo, a disputa religiosa abriu-se novamente em 386, quando Justina decretou liberdade de culto, o que permitiu aos arianos exigirem uma basílica onde celebrar seus ritos. Ambrósio opôs-se fortemente, e uma multidão ("espontaneamente convocada”, ironiza Cardini) desceu às ruas para apoiar o bispo, criando "uma situação no limite de legalidade". A “contenção das basílicas” prolongou-se por semanas, deteriorou a relação de Justina com seu próprio filho Valentiniano, terminando com o triunfo de Ambrósio, e a derrota da liberdade de professar qualquer religião diferente daquela estabelecida pelo Concílio de Nicéia.

O bispo de Milão, uma vez dobrada a coroa do Ocidente, dedicou-se a submeter aquela do Oriente. Ou seja, Teodósio. Uma primeira vez, durante uma cerimônia religiosa, o bispo convidou o Imperador a deixar o presbitério, e sentar-se, mesmo que na primeira fila, entre os fiéis.

Quase explicito o significado, sob o perfil simbólico, desse gesto. Mas a ocasião decisiva apresentou-se, após uma série de pequenas e grandes grosserias da parte da autoridade religiosa, em relação aquela Imperial, com a horrível história do templo de Calínico (hoje, Raqqa). Ali, um grupo de cristãos havia incendiado uma sinagoga, e o imperador tinha-lhes condenado a ressarcir a comunidade judaica. Ambrósio impôs a Teodósio levantar aquela liminar.

Então, em 390, houve o massacre de Tessalônica. Um cocheiro dos jogos circenses tinha sido preso por "comportamento imoral". Seus fãs reagiram, atacando com pedras um funcionário Imperial, Buterico, que acabou morto e arrastado pelas ruas da cidade grega. Teodósio julgou suspeita aquela explosão de raiva, e concordou com o pedido dos militares de reprimir, com violência, (milhares de mortes) os desordeiros. Ambrósio não deixou passar a oportunidade de humilhar, uma segunda vez, Teodósio, solicitando um arrependimento público pelo massacre. O imperador tentou resistir, mas depois decidiu submeter-se a injunção. De acordo com a reconstrução de Paolino, Teodósio “chorou publicamente na Igreja o seu pecado... com lamentos e lágrimas, invocou por perdão". Também Agostinho, no De Civitate Dei, recorda a cena: Teodósio “fez penitência com tal empenho" que entre os fiéis, a "dor em ver humilhada a majestade do Imperador" prevaleceu em desdém da memória do massacre. Teodósio provavelmente percebeu profundamente o que tinha acontecido e, para remediar, viajou a Roma, onde foi recebido pelos senadores e nobres com festas que, mais ou menos explicitamente, homenageavam os antigos cultos pagãos.

No entanto, o episódio do imperador "penitente pela imposição de um bispo", observa o autor, causou sensação em todo o ecúmeno Romano: era a primeira vez que "o Augusto, de príncipe aureolado de autoridade sacral, como sempre tinha sido, de vigário de Cristo na terra, tinha descido para o nível de um simples fiel, pronto a humilhar-se para receber o perdão". Ambrósio aproveitou-se daquele ato de submissão, para retomar e levar adiante "o projeto de deslegitimação total e irreversível das greis diferentes daquela niceno-cristã em todo o Império". Foi ele quem inspirou o edito de 391, proibindo qualquer forma de homenagem aos deuses "gentios", na cidade de Roma, que previa pesadas sanções para os funcionários inadimplentes. Era a "retratação" total pelo comportamento e pelas medidas tomadas pelo Imperador, pouco menos de dois anos antes, na sua mencionada visita a Roma. A partir daquele momento, até sua morte em 397, Ambrósio exerceu uma espécie de sutil "ditadura" sobre o poder imperial do Oriente e do Ocidente. Mesmo a custo de deixar-se levar por indiscrições, cometer erros, e fazer escolhas em contradição com seus princípios. Mas sua missão estava cumprida.

Seu legado foi inequívoco. Desde o momento em que o Soberano, para ele, não se situava acima, mas dentro da Igreja, seguia-se que estava subordinado a autoridade eclesial. Neste sentido, Ambrósio está na base "de um longo e complexo itinerário, que de diversas maneiras, através do agostinismo político, da reforma da Igreja do século XI e do monarquismo papal", configurou-se numa tradição bem definida. Tradição que, “em círculos católicos - uma vez derrubadas as heresias e isolados como hereges ou como perigosos muitos movimentos "não conformistas" medievais - apenas o conciliarismo do século XV, em certa medida, o Vaticano II, e hoje, as escolhas inovadoras do Papa Francisco, tendem, de alguma maneira a limitar e corrigir".

Uma mensagem vinda de longe, enraizada na certeza de que "liberar e manter o clero livre dos controles e dos condicionamentos de qualquer autoridade terrena - muito além, senão ao contrário do que Jesus declarava explicitamente a Pilatos - seria condição necessária e suficiente para salvá-lo das tentações terrenas". Mas sabemos, acrescenta Cardini, que "toda a história da Igreja demonstra o contrário". Depois de Ambrósio, a Igreja Romana tornou-se poderosa "pela força de uma admirável expansão intelectual e missionária, mas também pela inflexibilidade e intransigência de fidelidade a um projeto hegemônico, estabelecido entre os séculos XI e XVI, por meio da remoção das instâncias provenientes do mundo grego, do Oriental, do variado, insidioso e imprevisível das heresias, do muçulmano (pensamento filosófico e científico a parte), salvo ter que sofrer, em seguida, os contragolpes de cismas, da Reforma Protestante, da ofensiva racionalístico-científica".

Trazendo inspirações e ideias de Francisco de Assis, Nicola de Cusa e Erasmo de Rotterdam, pergunta-se Cardini “se Igreja teria chegado, abstraindo-se do modelo e do magistério ambrosianos, a conceber tribunais inquisitoriais, a lidar com cismas e reformas, a sofrer a ‘ruptura cultural’ da ‘modernidade’ com seu relativo processo de secularização". Dúvidas e relevos que, evidentemente, vão muito além da figura histórica de Ambrósio.

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