''Não se negocia com os valores da família'': mais um livro antipapal

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06 Outubro 2015

Não é um cisma, mas um forte sinal do clima de rebelião dos setores mais conservadores da Igreja às vésperas do Sínodo sobre a família, inaugurado nesse domingo pelo Papa Francisco. As primeiras vozes "contra" se fizeram ouvir em um livro-manifesto, assinado por cerca de 10 cardeais, começando pelo prefeito da Doutrina da Fé, Gerhard Müller, passando pelo ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana, Camilo Ruini, pelo prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Robert Sarah, terminando com o ex-presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Antonio María Rouco Varela, durante décadas à frente do catolicismo espanhol, ligado à temporada de Wojtyla e Ratzinger, e abertamente contrário à abertura reformista do Papa Francisco.

A reportagem é de Paola Del Vecchio, publicada no jornal Il Messaggero, 05-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em Onze cardeais falem do matrimônio e da família, publicado em inglês pela editora Ignatius Press, eles manifestam a radical oposição à abertura à comunhão dos divorciados que voltaram a se casar, insistindo nos "valores inegociáveis" da família. Até defender que o papa parece disposto a autorizar o "divórcio católico".

Um livro que, de acordo com a editora, está na linha de um primeiro volume publicado há um ano, intitulado Permanecer na verdade de Cristo. Matrimônio e comunhão na Igreja, escrito por outros cinco prelados em resposta ao cardeal Walter Kasper – um dos mais escutados conselheiros do Papa Francisco em matéria de pastoral familiar – acusado de defender a tese contrária à doutrina da Igreja.

Em apoio do Papa Francisco, diante das "cruéis resistências e das pressões crescentes dos setores mais rigorosos no Sínodo de Roma" – como observa o diretor do sítio Religión Digital, José Manuel Vidal – a maioria silenciosa começou a se mobilizar.

O detonador foi a campanha lançada por cerca de 20 teólogos espanhóis de reconhecido prestígio, com uma coleta de assinaturas em favor de uma eventual decisão do Sínodo para permitir o acesso ao sacramento do matrimônio aos divorciados. E em resposta à coleta de mais de meio milhão de assinaturas contrárias, enviadas ao Vaticano às vésperas do Sínodo.

O abaixo-assinado

No abaixo-assinado "Carta ao Bispo de Roma", lançado em várias línguas através da plataforma Change.org, apela-se "a todas as pessoas de boa vontade", em particular, aos fiéis católicos, para que apoiem com a sua adesão "o papa da misericórdia e os Padres sinodais que querem segui-lo neste caminho de uma 'misericórdia exigente'".

Entre os promotores da iniciativa, que já reuniu 11 mil assinaturas, está também o bispo emérito de Valência, Nicolás Castellano, o ex-vigário da diocese de San Sebastian, José Antonio Pagola, e um dos jesuítas mais influentes da Espanha, José Ignacio González.

Ao se dirigir ao papa de modo informal, pedem-lhe que "escute o clamor do Povo de Deus, em meio a tão cruéis resistências, a dar à Igreja um rosto mais consistente com o espírito do Evangelho, para além de supostas fidelidades à letra de certos ensinamentos da Igreja". E em uma formulação "fiel à questão dogmática definida no Concílio de Trento".

Poucas horas antes da abertura do Sínodo, a iniciativa também lançou a página ProPapaFrancisco.com, que visa a para "aglutinar pessoas, associações, meios de comunicação, coletivos e instituições do âmbito hispânico" com dois objetivos claros: "Apoiar o Papa Francisco e visibilizar tal apoio em uma plataforma digital propositiva e plural". Uma iniciativa que foi tomada para somar "crentes de todas as sensibilidades e posições ideológicas", promovido pelo sítio Religión Digital, e por alguns dos principais portais da América Latina, como Ameríndia, além de ONGs como Mensageiros da Paz.

O face a face entre os setores mais conservadores e os mais progressistas da Igreja espanhola sobre o Sínodo está apenas começando. E, como reconheceu José Maria Castillo, ex-jesuíta e um dos maiores teólogos da teologia da libertação, em declarações ao jornal El País, "há muito mais oposição ao papa do que se possa imaginar. Sabe-se que há uma porcentagem que supera os 50% de pessoas da Cúria que atuam sob controle contra ele. Conhecemos os seus nomes, como os dez cardeais que assinam o livro com Rouco".