25 Fevereiro 2015

Padre Diego Fares junto ao arcebispo Jorge Maria Bergoglio
Fonte: Radio Vaticana
Está em andamento na Casa Divino Mestre de Ariccia, o terceiro dia de Exercícios Espirituais do Papa e da Cúria Romana, pregos pelo carmelita Bruno Secondin. O tema da meditação cotidiana é “Caminhos de liberdade”. Para um testemunho sobre quão importantes sejam os Exercícios Espirituais na vida e na ação pastoral do Papa Francisco, Alessandro Gisotti entrevistou o padre jesuíta argentino, Diego Fares, amigo de longa data de Jorge Mario Bergoglio, que também foi o seu padrinho de ordenação sacerdotal. Há poucos dias o padre Fares é membro do Colégio dos escritores de “Civiltà Cattolica“, para a qual já firmou três artigos. Na Itália publicou – para a Ancora Editora – o volume “Papa Francesco è come un bambù. Alle radici della cultura dell’incontro" (Papa Francisco é como um bambu. Nas raízes da cultura do encontro”, em tradução livre).
A entrevista é publicada pela Radio Vaticana, 24-02-2015. A tradução é de Benno Dischinger.
Eis a entrevista.
Eu conheço o Papa Francisco-Bergoglio há quase quarenta anos! Desde quando me admitiu no noviciado da Companhia de Jesus, em 1976. Pessoalmente ele me ensinou a acompanhar os outros nos Exercícios Espirituais.
Eu me recordo – eu era estudante – quanto me surpreendeu certa vez que ele, que pregava os Exercícios anuais aos estudantes do Colégio Máximo (em San Miguel, Argentina), me perguntou se eu me disporia acompanhar com sua ajuda três companheiros meus, porque éramos tantos. Eu disse que sim, me dispunha se eles quisessem falar comigo e que eu falasse com o Reitor para informá-lo sobre como andavam as coisas e se havia algum problema. Estes três aceitaram, porque era um modo de fazer os Exercícios com Bergoglio, indiretamente, digamos. Ele dava “os temas” – os “pontos”, dizemos nós – para fazer as preces, escutava muitos que se dirigiam a ele e eu, uma vez ao dia escutava estes meus companheiros. Ao entardecer conferia com Bergoglio. Assim comecei como estudante, como jovem, a fazer a guia espiritual. Isto não se aprende dos livros, mas sob a guia de um mestre espiritual como era Bergoglio para todos nós. Para nós, dar os Exercícios faz parte da nossa missão, aquilo que temos mais a peito.
O Papa Francisco é um jesuíta e obviamente os Exercícios Espirituais estão no DNA de cada discípulo de Santo Inácio de Loyola. Mas, que valor particular tem que o Papa queira consigo, como no ano passado, os seus mais restritos colaboradores neste momento forte do Ano litúrgico, para a Páscoa, mas também num período no qual avança a reforma querida pelo Papa, a reforma da Cúria?
Esta é a verdadeira reforma! Fazer junto com outros os Exercícios é uma experiência espiritual muito forte. Compartilha-se muito, embora cada um faça os seus exercícios pessoalmente. Penso que para um grupo de colaboradores do Papa fazer os Exercícios com ele deve ser algo muito especial. Eu o faria com prazer! Mas não tive a coragem de perguntar se podia ir... Isto é lindo!
O Papa pratica aquilo que na Companhia de Jesus chamamos de “governo espiritual”: é um tipo de governo que está atento não só ao que se deve fazer, mas ao como se faz, com que espírito, e ad maiorem Dei gloriam. “Se devem fazer as coisas com bom espírito”, como diz Santo Inácio. E por isso o seu modo de governar, me parece bom que os seus colaboradores façam os Exercícios de Santo Inácio, para entendê-lo. Se o Papa Francisco consegue reformar a Cúria e a Igreja fará uma reforma – penso eu – que parte do interior, do coração, não será uma reforma de modificações somente no exterior.
Indo a Ariccia com os colaboradores da Cúria, o Papa Francisco também deu um exemplo a todos, não só aos bispos e cardeais. Segundo ele, os Exercícios Espirituais poderão ser sempre mais praticados, também por leigos e pelas famílias, quem sabe com propostas adequadas para eles?
Isto é verdade, é um exemplo. Para mim é uma provocação, porque sinceramente às vezes transcuro fazer os meus exercícios com a escusa do muito trabalho. Mas, se o Papa encontra o tempo, ninguém pode escusar-se, não é verdade? Os Exercícios são uma graça para toda a Igreja. Inácio dava-os aos leigos e a todo tipo de pessoas, cada um segundo suas possibilidades e os seus desejos. Inácio dizia: “Os Exercícios são certamente o que de melhor posso conceber, conhecer e compreender nesta vida, tanto para o progresso pessoal de uma pessoa, como pelos frutos, a ajuda e o proveito que ele pode procurar aos outros”. Os Exercícios são um dom, um presente para nós, e não uma obrigação.