Uma nova chave hermenêutica. Intervenção de C. Schönborn no Sínodo dos Bispos sobre a Família

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17 Novembro 2014

Publicamos na sequência a intervenção do cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência Episcopal Austríaca, pronunciado durante a Segunda Congregação Geral do Sínodo dos bispos, na segunda-feira do último 06 de outubro e publicada pelo blog Índice del Sínodo, 09-11-2014. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis a intervenção.

Como falar a respeito do matrimônio e da família, quando esses não são realizados perfeitamente?

Anotações do “Instrumentum laboris”, cap. 1,4

A intenção desta Assembleia extraordinária do Sínodo dos bispos é a de promover a alegria para a beleza do matrimônio e da família, mas também a de examinar atentamente como o matrimônio e a família estão vivendo no mundo atual.

Trata-se acima de tudo de uma mudança de perspectiva. No discurso eclesiástico tendemos seguidamente a indicar o ideal sem encontrar palavras adequadas para situações que ainda não correspondem, ou não correspondem mais, a este ideal. Muitas pessoas em todo o mundo esperam deste Sínodo palavras de esperança, de encorajamento, de estima e não a habitual listagem de todas as carências das quais as pessoas já são atingidas.

Proponho portanto para o trabalho do nosso Sínodo uma chave hermenêutica que permita termos fé, ao mesmo tempo, ao pleno ideal do matrimônio sacramental, sem porém considerar formas imperfeitas de matrimônio e de família de maneira somente negativa.

Creio poder encontrar essa chave hermenêutica na analogia entre o matrimônio e a Igreja, mais precisamente entre o famoso “subsiste na” da LG n.8 e a doutrina da Igreja sobre o matrimônio.

Recordemos do segundo verso do LG.8, “Haec ...unica Christi Ecclesia ... in hoc mundo ut societas constituta et ordinata, subsistit in Ecclesia Catholica, a successore Petri et Episcopis in eius communione gubernata". (Esta... única Igreja de Cristo..., neste mundo constituída e organizada como sociedade, é a Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele).

Analogamente podemos dizer: a realidade plena do matrimônio sacramental, que é estritamente conjunta ao mistério da Igreja (Cf. Ef 5, 21-33), se realiza no matrimônio um contrato de forma eclesiástica com os seus três bens – prole, fé, sacramento. O matrimônio sacramental representa o amor a fé de cristo à sua Igreja. Nela, o matrimônio se realiza como uma pequena igreja.

Lumen Gentium 8” acrescenta de imediato uma frase que representa o fundamento, seja do Decreto sobre o Ecumenismo (Unitatis Redintegratio) que da Declaração sobre as diferentes religiões (Nostra Aetate): “Ainda que (exista a ‘subsistit in’) além do seu organismo se encontram muitos elementos de santificação e de verdade que, pertencentes propriamente ao dom de Deus à Igreja de Cristo, impulsionem para a unidade católica.

Com esta famosa frase, o Concílio não nega as carências que se encontram nas outras igrejas, comunidades eclesiásticas ou religiões. Mas coloca primeiramente em relevância os elementos positivos que também neste se encontram, aqueles “diversos elementos de santificação e de verdade” de fato, que “impulsionam para a unidade católica”.

Não temos aqui, na analogia entre a Igreja e o matrimônio, uma chave hermenêutica para denominar positivamente aqueles “diversos elementos de santificação e de verdade” que são encontrados também nas formas imperfeitas dos casamentos e famílias, para considerá-los com respeito?

Nomeio por exemplo somente as “uniões de fato”, a convivência dos que não são casados, os “casamentos sem a respectiva certidão”, como são chamados. Sempre mais pessoas, jovens ou não, convivem simplesmente sem se casar no civil, quanto menos na igreja. Nestas “uniões estáveis” se convive seguidamente com fidelidade e amor. O casamento aqui não é realizado plenamente, mesmo que existam “elementos de santificação e de verdade”.

Obviamente não é suficiente parar por aqui. Estes elementos impulsionam, são “dons de Deus à Igreja de Cristo”, “para a unidade católica”. Com esta “chave hermenêutica” gostaria que se conseguisse perceber, a avaliar essas tantas situações irregulares de matrimônios e famílias, que na sua multiplicidade hoje representam a maioria, antes de tudo nos seus elementos positivos, que se se consiga ver nesses a “semente do verbo” que fazem alusão à “forma plena de matrimônio sacramental” e que impulsionam a isso.

Não seria isso um dos papéis mais importantes deste Sínodo, aquele de fazer brilhar não somente a beleza da forma plena da união matrimonial “quae subsistit in Ecclesia Catholica” (que subsiste na igreja católica) assim como de incentivar coragem e esperança aos muitos que vivem em formas imperfeitas de matrimônio e família?

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