Por: Jonas | 29 Setembro 2014
“O Evangelho não é um museu, não é um código penal, não é um código de doutrinas e mandamentos. É uma realidade vivente na Igreja e nós temos que caminhar com todo o Povo de Deus e ver quais são suas necessidades. Alguns cardeais temem que haja um efeito dominó e que, caso algum ponto seja mudado, tudo entre em colapso”.
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| Fonte: http://goo.gl/n1mbP4 |
Quando falta uma semana para o início do Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre os desafios da Família, marcado em vermelho vivo pela questão dos divorciados em segunda união, o cardeal alemão Walter Kasper (foto), favorável a uma abertura, disse em uma entrevista ao La Nacion que “existe medo de um debate aberto”. E enfatizou que, embora “a doutrina não possa ser mudada, a disciplina, sim, pode”.
Kasper é um teólogo de grande prestígio internacional e muito próximo a Francisco, que em seu primeiro Angelus elogiou o livro sobre a misericórdia escrito pelo cardeal e que recebeu de presente durante o conclave. Recentemente, foi atacado por um grupo de cardeais conservadores que, em um livro que significativamente começa a ser vendido no dia 1º de outubro (intitulado “Permanecer na verdade de Cristo, Matrimônio e comunhão na Igreja Católica”), rejeitam enfaticamente sua abertura para os divorciados em segunda união.
Segundo Kasper, após um caminho penitencial, sob a supervisão de um sacerdote e após sua absolvição, estes poderiam ser readmitidos à comunhão.
Durante a entrevista, em um escritório cheio de livros do Vaticano, Kasper, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade Cristã, lamentou que em razão da agitação sobre este tema, o Sínodo tenha sido reduzido à questão dos divorciados em segunda união. “Esse é um problema, mas não o único. A agenda do Sínodo é muito mais ampla e tem a ver com os desafios pastorais da vida da família de hoje. Alguns meios de comunicação dizem que haverá um grande avanço e começaram uma campanha para isso. Eu também espero que haja uma abertura responsável, mas é uma questão aberta, que deverá ser decidida pelo Sínodo. Porém, é preciso sermos prudentes, porque caso não aconteça, a reação será de grande desilusão”.
A entrevista é de Elisabetta Piqué, publicada por La Nacion, 29-09-2014. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Alguns cardeais e bispos parecem assustados com essa possibilidade e a rejeitam, até mesmo antes do início do Sínodo. Por que o senhor acredita que existe tanto medo de uma evolução na disciplina da Igreja?
Acredito que temem um efeito dominó, que caso seja mudado um ponto, tudo entre em colapso. Esse é seu medo. Tudo isto se vincula com a ideologia, uma interpretação ideológica do Evangelho, mas o Evangelho não é um código penal. Como o Papa disse na exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, citando Santo Tomás de Aquino, o Evangelho é uma graça do Espírito Santo que se manifesta na fé que opera pelo amor. Essa é uma interpretação distinta. Não é um museu. É uma realidade vivente na Igreja e nós temos que caminhar com todo o povo de Deus e ver quais são suas necessidades. Logo, devemos fazer um discernimento à luz do Evangelho, que não é um código de doutrinas e mandamentos. Não podemos simplesmente tomar uma frase do Evangelho de Jesus e daí tirar todas as conclusões. É preciso uma hermenêutica para entender toda a mensagem do Evangelho e, em seguida, diferenciar o que é doutrina e o que é disciplina. A disciplina pode mudar. Por isso, parece-me que aqui temos um fundamentalismo teológico que não é católico.
Então, o senhor diz que não se pode mudar a doutrina, mas a disciplina sim?
A doutrina não pode mudar. Ninguém nega a indissolubilidade do matrimônio. Porém, a disciplina, sim, pode mudar, e já mudou várias vezes, como vemos na história da Igreja.
Como se sentiu quando ficou sabendo que estava para ser publicado um livro de cinco cardeais, que atacam sua postura?
Todo mundo é livre para expressar sua opinião, não é um problema para mim. O Papa queria um debate aberto, e acredito que isto é uma novidade e é algo saudável, que ajuda muito a Igreja.
Existe medo entre alguns cardeais porque, como disse o Papa, há uma construção moral que poderia entrar em colapso como um castelo de cartas?
Sim, é uma ideologia, não é o Evangelho!
Existe o medo de uma discussão aberta no Sínodo?
Sim, porque temem que tudo possa entrar em colapso. Entretanto, antes de tudo, vivemos em uma sociedade aberta e plural, e é bom para a Igreja que haja uma discussão aberta, como tivemos no Concílio Vaticano II (1962-65). Também é bom para a imagem da Igreja, porque uma Igreja fechada não é uma Igreja saudável. Por outro lado, quando debatemos sobre o matrimônio e a família, devemos escutar as pessoas que vivem esta realidade. Há um sensus fidelium [o sentido dos fiéis]. Não pode ser decidido apenas de cima, da hierarquia da Igreja, e principalmente não se pode citar velhos textos do último século, é necessário observar a situação de hoje, fazer um discernimento do espírito e chegar a resultados concretos. Eu penso que esta é a aproximação do Papa, ao passo que muitos outros partem da doutrina e usam, em seguida, um método mais dedutivo.
Em uma entrevista com um meio de comunicação italiano, o senhor disse que o alvo verdadeiro dos ataques dos cinco cardeais conservadores não é você, mas, sim, o Papa...
Talvez, tenha sido imprudente. Contudo, muitas pessoas estão dizendo isso. Isto pode ser ouvido nas ruas todos os dias. Não quero julgar ninguém, mas é óbvio que existem pessoas que não estão totalmente de acordo com este Papa, algo que não é novo e que já aconteceu durante o Concílio Vaticano II, quando muitos eram contra o aggiornamento [atualização] de João XXIII e Paulo VI.
Muitos analistas pensam que não é uma coincidência que este livro surja justamente nas vésperas do Sínodo...
Sim, é um problema. Não me lembro de uma situação semelhante, na qual de forma tão organizada cinco cardeais escreveram semelhante livro. É como atuam os políticos, mas acredito que na Igreja não deveríamos nos portar assim.
O que espera do Sínodo?
Acredito que depende muito de como o próprio Papa abrirá o Sínodo. Ele não pode nos dar uma solução, inicialmente, mas, sim, uma perspectiva, uma direção. Espero que haja uma discussão serena e amistosa de todos os problemas relacionados à família, não sobre apenas um. E acredito que conseguiremos um grande consenso, como tivemos no Concílio Vaticano II.
Nos últimos dias, o Papa falou várias vezes da misericórdia, disse que é preciso captar os “sinais dos tempos”, que os pastores devem estar perto das pessoas, parecendo muito claro o que quer dizer...
Sim, ler os sinais dos tempos foi fundamental durante o Concílio Vaticano II. Não consigo imaginar que a maioria do Sínodo, neste ponto, possa se opor ao Papa.
Sobre a questão dos divorciados em segunda união: a comunhão é um prêmio para quem é perfeito ou é uma ajuda ao pecador?
A comunhão tem um efeito sanador. E especialmente para pessoas que vivem em situações difíceis, necessita da ajuda da graça e necessita dos sacramentos.
Outra solução seria anular, de forma mais rápida, os matrimônios.
Há situações em que a anulação é possível. Porém, tome o caso de um casal com dez anos de matrimônio, com crianças, que nos primeiros anos teve um matrimônio feliz, mas por diversas razões fracassa. Este matrimônio era uma realidade e dizer que era canonicamente nulo não faz sentido.
