Jacques Ellul teve razão muito cedo?

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Por: André | 07 Julho 2014

Vinte anos após sua morte, o pensador protestante retorna para a linha de frente. Tanto na ecologia, como na teologia, ele teve, talvez, “o azar de ter razão muito cedo”.

A reportagem é de Laurence Desjoyaux e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 27-06-2014. A tradução é de André Langer.

É Frédéric Rognon, professor de filosofia na Faculdade de Teologia Protestante de Estrasburgo, que levanta o assunto no semanário protestante Réforme (edição de 12 de junho de 2014). Segundo ele, Jacques Ellul tinha “o azar de ter razão muito cedo”.

Vinte anos após a morte do sociólogo francês, edições, reedições e simpósios se multiplicam. “Na sua morte, em 1994, a maioria dos livros de Jacques Ellul estava esgotada e impossível de encontrar, observa Frédéric Rognon. A incansável luta da sua filha, Dominique Ellul, permitiu a reedição de muitos deles, muitas vezes em formato de bolso: de 1998 a 2014, nada menos que 27 títulos foram reeditados. (...) Todas essas reedições mostram um verdadeiro interesse pelo pensamento de Jacques Ellul: um editor não iria correr o risco de reeditar os livros publicados há 50 anos sem ter a segurança de encontrar um leitor para eles”.

Outro fenômeno, que reflete a ressurreição popular de Jacques Ellul, é o número de artigos de imprensa que evocam o seu pensamento. “Os exemplos mais emblemáticos são os do Le Monde Diplomatique e da revista Marianne, raramente interessados em questões teológicas, e que saudaram a reedição de Le Vouloir et le Faire e a publicação de Théologie et Technique”, diz Frédéric Rognon.

Do nosso lado, podemos constatar, por exemplo, um artigo recente no site Rue89 intitulado “José Bové contra a PMA: o que Jacques Ellul teria pensado?” ou ainda a homenagem inesperada de Jean-Luc Godard em seu último filme O Adeus à linguagem. “Se ele ainda professa teorias, o faz sobretudo para suscitar a inveja e a curiosidade. Basta que elogie o sociólogo e teólogo Jacques Ellul, ‘que anunciou e inclusive desde 1947, antes de todo o mundo, o aparecimento da energia nuclear, dos OGM...’, para que tenhamos o desejo de mergulhar em suas obras”, escreveu Jacques Morice em sua resenha do filme para a revista Télérama.

Por que uma tão longa ausência do cenário intelectual? E por que um retorno agora?, pergunta-se Frédéric Rognon. “Ellul foi um provinciano inveterado, e, portanto, afastado das redes intelectuais e midiáticas parisienses; crítico lúcido da modernidade técnica desde o começo do boom dos Trinta Gloriosos, portanto inaudível e culpado de ter razão muito cedo (...) e, enfim, que não hesita em confessar sua fé cristã num momento em que só se falava em ‘fim da religião’, o que, por parte de um intelectual, foi fatal”.

E hoje? Entre outras razões, explica o autor do artigo da Réforme, “é sobretudo a tomada de consciência do aumento dos perigos ecológicos, especialmente das mudanças climáticas, dos desastres nucleares, da privatização da vida, dos escândalos na saúde pública, e dos fantasmas transumanistas, que pode explicar a beleza desta recepção”.

Entretanto, Ellul ainda não é uma celebridade. Ele ainda não consta no dicionário de nomes próprios, e sua recepção “não é um fenômeno social de massa”. “O que estamos vendo no momento, observa Frédéric Rognon, parece manter-se coerente com o conteúdo existencial do seu pensamento: trata-se cada vez de um encontro pessoal com um pensamento que sempre se dirige ao indivíduo e não às multidões”.