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18 Março 2014

"Durante seu primeiro ano, o Papa Francisco significou tamanha quantidade de feitos e surpresas que fica difícil saber o que dizer. Já escrevi tanto sobre ele, de forma que fico em dúvida sobre o que falar sobre seu aniversário de primeiro ano. Durante as duas últimas semanas, dezenas de jornalistas vêm me telefonando com perguntas sobre o papa. Então, achei que poderia partilhar com vocês as perguntas mais comuns junto de minhas respostas", afirma Thomas Reese, jornalista e jesuíta, em entrevista publicada por National Catholic Reporter, 14-03-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Qual o Papa Francisco fez de mais importante?

O que o Papa Francisco fez de mais importante é que ele rebatizou o catolicismo e o papado. Antes dele, se perguntássemos a alguém na rua: “Do que se trata a Igreja Católica afinal? O que o papa representa?”, a resposta seria: “Seus membros são contra o aborto, os casamentos homoafetivos e o controle de natalidade”. Com certeza foi isso o que se retratou na mídia ao longo dos abusos sexuais por parte do clero.

Hoje, a resposta seria diferente. “Ele se preocupa com a compaixão, com o amor, principalmente com os pobres”. Eles ganhou para si até mesmo dos meios de comunicação.

Como um repórter me falou: “É legal não ficar mais cobrindo crimes, e sim voltar à religião”. A Igreja está aparecendo na primeira página por outras coisas que não a atividade criminosa e escândalos. O Papa Francisco tornou divertido novamente a atividade jornalística religiosa.

Ele tem feito um trabalho tão magnífico na mudança da imagem da Igreja que as faculdades de Administração poderiam usá-lo como um estudo de caso.

O Papa Francisco terá condições de reformar o Vaticano?

Reformar o Vaticano exige mudar sua cultura, alocar pessoas que apoiam a reforma em cargos-chave e alterar estruturas, políticas e procedimentos.

Desde o primeiro dia como pontífice ele vem falando de liderança voltada ao serviço, e não para o status ou poder. Vem pregando contra o clericalismo, o carreirismo e o tribunal papal.

Não apenas tem pregado, mas também dado formas a estas coisas. Mudar a cultura do Vaticano exige uma conversão do coração, dos valores e atitudes. Alguns no Vaticano aceitam esta nova abordagem; outros ainda preferem ser príncipes.

Em segundo lugar, ele nomeou pessoas que apoiam sua visão, incluindo um novo secretário de Estado, um novo prefeito para a Congregação para o Clero, um novo secretário para a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, um novo pessoal em cargos financeiros centrais, além de novos membros para a Congregação para os Bispos. Em quase todas estas nomeações, Francisco substituiu ideólogos conservadores por moderados. Ele também introduziu novidades como na criação do Conselho dos Cardeais e na contratação de empresas de consultoria em gestão para assessorá-lo. O papa não estará prisioneiro da Cúria.

Em terceiro lugar, no cenário financeiro ele deu continuidade às reformas iniciadas pelo Papa Bento XVI. Criou a Secretaria para a Economia com autoridade para fazer auditorias em qualquer órgão do Vaticano, mesmo a Secretaria de Estado. Até agora, ele pouco mudou na Cúria Romana, conjunto de instituições não financeiros que ajudam o papa a governar a Igreja. Aqui, é preciso tomar decisões complicadas sobre quais assuntos deveriam ser tratados em Roma e o que deveria ser tratado nos níveis locais ou nacionais.

Quais os erros que Francisco cometeu?

Apontar erros papais não é coisa fácil.

Num artigo anterior, opinei que o primeiro erro que o papa cometeu foi pegar quatro membros da Cúria e torná-los cardeais. Há outras duas áreas onde Francisco não se deu muito bem.

Acho que não há dúvidas de que o pontífice não sabe como se dirigir à mulheres americanas. Mesmo quando ele tenta dizer algo bacana, ele trava. Por que isso? Acho que há três motivos.

A primeira é que Francisco é homem. Não creio haver algum homem que saiba como falar às mulheres, hoje, sobre questões que lhes dizem respeito. O mais inteligente a fazer é se calar e ouvir.

Segundo, ele é latino-americano. Vem de uma cultura machista, patriarcal e paternalista, mesmo que a Argentina tenha uma mulher presidente e Eva Perón.

Terceiro, ele não passou muito – se é que passou algum – tempo ao redor de feministas acadêmicas; passou, isso sim, tempo nas favelas de Buenos Aires, ouvindo as mulheres empobrecidas em seus lares. Estas não estavam preocupadas com “tetos de vidro” nas profissões e empresas; estavam preocupadas se alimentariam seus filhos. Além de se preocuparem com sequestros e tráfico infantil.

Como resultado, ele deu voz aos pobres e foi um líder na luta contra o tráfico humano em seu país. Em seus esforços nesse sentido, contou com assessoria de uma advogada internacional, que achou muito fácil trabalhar junto dele.

Francisco pareceu reconhecer suas limitações aqui, quando falou que a Igreja não tem uma teologia adequada às mulheres. Com certeza, o Papa João Paulo II pensava ter uma teologia feminista muito boa. A confissão do atual pontífice convida a Igreja a começar um diálogo sobre o papel da mulher na Igreja e na sociedade. Talvez isto seja mais importante do que qualquer outra coisa que ele mesmo diga.

A segunda área onde o religioso precisa melhorar é no responder à crise dos abusos sexuais. Ele crê que o Papa Bento XVI acertou ao adotar a política de tolerância zero nesse sentido. Numa entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, ele ficou na defensiva ao falar sobre o quão a Igreja estava melhor quanto à questão dos abusos sexuais em comparação à sociedade como um todo.

Embora isso possa ser verdade, para as pessoas que se sentiram traídas pelos bispos que, simplesmente, deslocavam os sacerdotes de um lugar para outro, tais comentários são como o marido que trai, dizendo para a parceira que outro homem na vizinhança trai em maior quantidade. A única resposta apropriada aqui é: “Me desculpem, me desculpem, me desculpem”. A reconquista de confiança irá levar um bom tempo.

Como o National Catholic Reporter escreveu em um de seus editoriais, ele precisa se encontrar com os sobreviventes dos abusos sexuais cometidos por padres. Ouvir suas histórias irá afetá-lo de especial. Ele também precisa agir contra os bispos que não estão respondendo, de modo apropriado, a abusos feitos por padres em suas dioceses. Se um bispo na Alemanha pode ser forçado a renunciar por causa de um escândalo financeiro, por que os bispos que escandalizam os fiéis ao não protegerem as crianças continuam trabalhando como tais? Seria o dinheiro mais importante do que as crianças?

Francisco terá sucesso nas reformas da Igreja?

Tendo vivido durante o período do Papa João XXIII e do Concílio Vaticano II, sei que papas reformadores vêm e vão. Se Francisco morrer este ano, os cardeais iriam eleger alguém que apoiaria as opiniões do pontífice, ou retornariam ao estilo dos papados anteriores?

Como dito acima, para reformar uma instituição, é preciso mudar a cultura, nomear pessoas que apoiem as reformas para cargos centrais e alterar estruturas, políticas e procedimentos.

Ele está defendendo uma conversão para o distanciamento do clericalismo em direção à liderança como serviço, mas isso está funcionando? Algumas fontes informam que os seminaristas não gostam do novo papa; eles entraram porque gostavam de João Paulo II e de Bento XVI. Muitos bispos e jovens padres parecem estar confusos com o novo pontífice. Os padres mais velhos que se lembram de João XXIII e do Vaticano II estão mais entusiasmados.

O Papa Francisco precisa de 10 anos, pelo menos, para ter um impacto significativo na Igreja. Isso permitiria a ele nomear ao Colégio dos Cardeais e às dioceses de todo o mundo membros que pensam como ele. Se ele durar apenas cinco anos, então todos os cardeais com menos de 75 anos estarão no próximo conclave; todos os bispos com menos de 70 anos estarão no cargo durante a próxima transição papal.

As reformas também pedem mudanças nas políticas. Liberais, conservadores e a mídia têm se focado sobre as questões das mulheres, do casamento homoafetivo e do controle de natalidade, mesmo que Francisco tenha lhes dito para não se deterem nestes assuntos. Ele levantou, porém, a questão da Comunhão para os divorciados e recasados. Quando lhe perguntaram sobre os argumentos entre os cardeais sobre esta questão, respondeu: "Eu ficaria mais preocupado se não tivesse tido um debate intenso no Consistório, pois ele teria sido inútil. Os cardeais sabiam que poderiam falar o que quisessem, e eles apresentaram diferentes pontos de vista, os quais são sempre enriquecedores. O debate aberto e fraterno faz o pensamento teológico e pastoral crescer. Disso eu não tenho medo. Pelo contrário, eu o busco".

Permitir e incentivar discussões de temas controversos na Igreja constitui uma tarefa enorme na política que preparará o caminho para mais mudanças. Porém, ele quer que estas mudanças ocorram de modo orgânico através do desenvolvimento do consenso, não através de decretos de cima para baixo.

Por fim, precisamos lembrar que, embora o papa desempenhe um papel importante na Igreja, ele não é a Igreja. A conversão dos corações à qual ele está chamando deve acontecer em cada um de nós. Devemos nos tornar pessoas mais compassivas e amorosas com especial atenção para com os pobres.

As reformas do Papa Francisco darão certo? Sim. Isso é inevitável. Por quê? Porque é o Evangelho.