O papa e o spoil sistem da Cúria

Mais Lidos

  • Edgar Morin e o seu centenário. Odisseia, complexidade e incerteza

    LER MAIS
  • Edgar Morin (1921-2026): “A experiência me mostrou que o improvável pode acontecer”

    LER MAIS
  • Quando o clericalismo se torna narcisismo, o altar transforma-se num palco. Artigo de Phyllis Zagano

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

23 Agosto 2013

"Nós também queremos alguém com boas habilidades administrativas e habilidades de liderança, e até agora isso não ficou tão evidente...". Essas são as palavras sobre o Papa Francisco ditas há algumas semanas, durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, pelo cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, e "papável" norte-americano. A crítica, nem tão velada, estava contida em uma entrevista concedida por Dolan a John Allen, para o National Catholic Reporter.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 21-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em essência, apenas quatro meses depois do conclave que designou o papa argentino que veio "do fim do mundo", um dos protagonistas mais expostos daquela eleição midiaticamente diz que, até agora, Francisco não teria sido suficientemente "manager".

Em particular, Dolan se referia à não substituição do secretário de Estado, Tarcisio Bertone, o principal colaborador de Bento XVI, com relação ao qual se adensaram inúmeras críticas durante as discussões do pré-conclave. "Eu espero que, depois das férias de verão, vejamos mais sinais de mudanças de gestão", comentou o purpurado norte-americano depois de ter dito que esperava a substituição antes do verão, como havia sido erroneamente previsto por muitos.

As palavras de Dolan não têm nada a ver com outras declarações de expoentes de destaque da Igreja norte-americana, como por exemplo as do arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, que, também entrevistado pelo National Catholic Reporter, admitira uma certa insatisfação com a eleição de Francisco por parte da "ala direita da Igreja": fenômeno bem constatável do ponto de vista midiático em muitos sites e blogs.

O cardeal de Nova York não se queixa – como fazem outros ambientes conservadores ou tradicionalistas – por algumas pequenas mudanças litúrgicas, pelo estilo mais simples ou pela falta de repetição pública por parte do pontífice das já bem conhecidas posições da Igreja sobre aborto, eutanásia e gays.

Ao contrário, Dolan não esconde a sua insatisfação pelo fato de que Francisco, em sua opinião, ainda não se revelou suficientemente como "manager". Preocupação tipicamente norte-americana.

Francisco, no fim do primeiro mês de um pontificado que começou quase às vésperas da Semana Santa e dos seus rituais obrigatórios, no dia 13 de abril, anunciou a constituição de um grupo de oito conselheiros chamados para ajudá-lo a reformar a Cúria, mas também para governar a Igreja. Ele logo colocou as mãos no IOR, por causa dos bem conhecidos e pouco evangélicos eventos, nomeando um prelado de sua confiança e instituindo uma comissão chamada a reformar o instituto.

Ele começou a reorganização de todas as estruturas econômico-financeiras da Santa Sé. Recebeu e ouviu muitas pessoas, tomou decisões. Evidentemente, Dolan, e talvez não apenas ele, esperavam que algumas cabeças importantes rolassem imediatamente, começando pela do cardeal Bertone, que completará 79 anos no início de dezembro.

Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI não mudaram o secretário de Estado "herdado" dos seus respectivos antecessores nas semanas seguintes à eleição. Eles esperaram anos (seis com Montini, mais de um com Ratzinger) ou meses (o secretário de Estado Jean Villot foi substituído menos de cinco meses depois do conclave que elegeu Wojtyla, mas ele morreu). O Papa Francisco se prepara para fazer isso "post aquas", isto é, no fim das férias de verão europeias, que, para ele, continuaram sendo um período de trabalho.

No livro de meditações Mente abierta, corazón creyente, publicado em 2012, o então cardeal Bergoglio, falando de Abraão e do "desprendimento de si", afirmava: "Eu gosto de lembrar aqueles sacerdotes que, quando obtém posto de direção, logo pensam em modernizar o escritório, mudar os secretários, colocar novos tapetes, pendurar as cortinas e dotar-se de todos os equipamentos típicos de um escritório: criam um ambiente sob sua medida. Tudo isso só pode gerar conflitos...".

Talvez essas palavras digam algo sobre o método usado pelo novo papa, pronto para mudar o rosto da Cúria Romana nas suas estruturas e nos seus homens, começando pelo cargo de secretário de Estado – que também poderia ser redimensionado pelas reformas em andamento –, mas sem tomar decisões precipitadas, levando as pessoas sempre em considerações.

No voo de retorno do Rio de Janeiro, Francisco havia dito aos jornalistas que aprecia os colaboradores que lhe dizem: "Eu não concordo, eu não vejo isso, eu não concordo: eu lhe digo, o senhor que faça", porque quem diz isso "é um verdadeiro colaborador". Ao contrário daqueles que sempre dizem: "Ah, que bom, que bom, que bom", mas depois dizem "o contrário, do outro lado".

O pontificado de Bento XVI foi objetivamente condicionado – como mostram os últimos oito anos – por colaboradores nem sempre à altura da tarefa. Pode-se compreender porque, na escolha dos mais importantes homens-chave, o seu sucessor procede com a devida atenção.