17 Fevereiro 2013
Começou o tempo do discernimento para a eleição de um novo sucessor de Pedro enquanto o antecessor ainda está vivo e no exercício do seu ministério de bispo de Roma. E o Papa Bento XVI quis que essa passagem crucial acontecesse no sinal de arrependimento e do pedido de perdão.
A reflexão é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 14-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A última liturgia pública do Papa Bento XVI terá sido uma liturgia penitencial ou, melhor, a liturgia penitencial por excelência: o rito da imposição das cinzas no início da Quaresma, durante o qual ressoam as palavras de Jesus: "Convertei-vos e crede no evangelho", ou a admoestação "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás".
Com essa celebração começou, como todos os anos, o tempo da penitência quaresmal, mas, caso único na história da Igreja, desta vez também começou o tempo do discernimento para a eleição de um novo sucessor de Pedro enquanto o antecessor ainda está vivo e no exercício do seu ministério de bispo de Roma.
E o Papa Bento XVI quis que essa passagem crucial acontecesse no sinal de arrependimento e do pedido de perdão. Ainda na segunda-feira, ao dar o anúncio surpreendente da sua renúncia ao papado, ele havia acrescentado um sincero "peço perdão por todos os meus defeitos". Nessa quarta-feira, a homilia dirigida aos cardeais, aos bispos, ao clero e aos fiéis de Roma que participavam do rito penitencial em São Pedro também foi um exigente chamado a refletir sobre como "o rosto da Igreja às vezes é deturpado por golpes contra a unidade da Igreja e divisões do corpo eclesial". Uma reflexão deve levar à conversão e à renúncia de todo comportamento e ação que contrastem com a unidade desejada pelo Senhor para os seus discípulos.
Um papa que se demite deve nos interrogar, embora ele tenha declarado – e nós acreditamos nele radicalmente, porque Bento XVI se mostrou confiável – que o faz na liberdade, pelo bem da Igreja e por ter chegado, em consciência, à avaliação de insuficiência das próprias forças. Conforme passam os dias, as perguntas crescem, até porque o pontificado foi muitas vezes sacudido por eventos que perturbaram toda a Igreja e, portanto, ainda mais aqueles que nela receberam do Senhor responsabilidades e tarefas tão particulares.
No seu primeiro discurso após a eleição, Bento XVI disse que não tinha programas, mas que queria servir a comunidade e fazer de tudo para que a rede da Igreja, já rasgada, não fosse dilacerada ainda mais, mas conhecesse uma dinâmica de recomposição. Mas ao contrário... a mão estendida aos seguidores de Lefebvre não foi acolhida, a sua exortação a evitar a busca de poderes, interesses pessoas, desonestidades e improbidades econômicas foi muitas vezes evitada, a sua vontade de eliminar a sujeira encontrou obstáculos enormes.
Eu conheço suficientemente a pessoa do papa para afirmar que ele não se desencorajou, que não fugiu nem desertou, mas compreendo a sua fadiga, o seu cansaço e o seu desejo de mostrar a todos que ele nunca considerou a Igreja como algo seu, da qual poderia se servir, mas sim apenas e sempre como uma propriedade do Senhor. Eu já o disse e repito, há em Bento XVI uma capacidade de descentrar-se com relação a Cristo que muitos nem sequer sabem o que é e quanto custa em termos de rebaixamento e também de esvaziamento.
As palavras pronunciadas nessa quarta-feira pelo papa pareceram diretas às feridas feitas contra a comunhão eclesial pelas tensões e divisões vividas do próprio interior da Igreja Católica e também entre aqueles que são pastores e detêm nela um ministério de comunhão particular e essencial. Pareceram ecoar as palavras fortes já utilizadas por Bento XVI em outras circunstâncias, com relação àquele "morder-se uns aos outros", que parece ter ganhado espaço até mesmo entre cristãos.
Basílio de Cesareia, o grande Padre da Igreja tão amado também pelo papa, em um texto com o título significativo – "O juízo de Deus" – condenava severamente as divisões, as rivalidades, as lutas, a busca do poder, o carreirismo presentes na Igreja do seu tempo: "Vejo na Igreja de Deus um grandíssimo desacordo... e os chefes, que, com juízos contrapostos, dilaceram as Igrejas, perturbam o rebanho".
Devem ser palavras bem presentes na mente e no coração do Papa Bento XVI neste momento muito particular do seu pontificado: parece-nos entrever também no seu apelo dolorido à unidade o sofrimento de quem viu o próprio ministério de comunhão compreendido por alguns como causa de divisão. Devemos reconhecer com a mesma parresia usada pelo papa: a Igreja está hoje dilacerada por divisões e contraposições, muitas vezes se percebe também uma confusão que não permite que a comunidade eclesial chegue, mesmo que com dificuldades, àquela unanimidade possível, nunca plena, mas sempre a ser reencontrada, de modo a ser real comunhão animada pelo amor e ser testemunha e profecia para o mundo.
Esse dado não é só fonte de sofrimento, mas também oportunidade de retorno ao Senhor, de discernimento da vontade de Deus: todas as vezes que, na história, aparece com maior clareza o sinal da cruz de Cristo, as forças adversas à lógica escandalosa da cruz se desencadeiam. Foi assim com relação a Jesus, foi, é e será assim diante da Igreja, todas as vezes que esta tenta ser mais fiel ao seu Senhor.
E, nesses anos, também assistimos infelizmente à revelação de uma maldade que parece reinar de direito até mesmo no espaço eclesial e ser utilizada como instrumento para prevalecer sobre os outros, para deslegitimá-los. Eu mesmo, mais de uma vez, denunciei isso como o mal mais evidente no atual tecido eclesial.
Acredito que essa liturgia penitencial conclusiva do ministério petrino de Bento XVI possa ser, então, aproximada de outro grande sinal evangélico deixado pelo seu antecessor: a liturgia do perdão celebrada em São Pedro para a Quaresma do ano jubilar. À época, assim como hoje, o sucessor do humilde pescador da Galileia reconduz a Igreja inteira aos pés da cruz para implorar o perdão de Deus e para empreender mais uma vez o caminho de conversão para o único Senhor: discernir e confessar o pecado, de fato, é condição essencial para reencontrar, por pura graça, a verdadeira identidade própria.