04 Julho 2012
Por indicação do Vaticano, as possibilidades de carreira dos párocos "desobedientes" serão limitadas. Entre os decanos, cria-se resistência.
A reportagem é de Markus Rohrhofer e Gudrun Springer, publicada no sítio do jornal Der Standard, 27-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Certamente, não foi uma "decisão de princípio" tomada solitariamente pelo cardeal Christoph Schönborn a decisão inesperada de não confirmar mais o cargo ao decano "desobediente" Peter Meidinger, pároco de Piesting, na Baixa Áustria. Conforme informações de ambientes eclesiais, nas últimas semanas, Roma aumentou claramente a pressão sobre a Igreja austríaca.
Concretamente, os bispos austríacos receberam do Vaticano uma correspondência "embaraçosa". A clara advertência da carta é de excluir no futuro os membros "desobedientes" de cargos diocesanos. De Roma, os bispos também haviam sido ordenados a pôr o tratamento aos membros "desobedientes" na ordem do dia da sua assembleia geral de verão realizada recentemente em Mariazell.
Com a decisão episcopal de rever os critérios de atribuição dos cargos dentro da Igreja, como se poderia esperar, a hierarquia certamente não fez amigos. Alguns decanos estão agora muito irritados. "Não se pode tratar as pessoas assim. Fica claro desse modo que a questão certamente não vai acabar sem conflitos. Os decanos envolvidos não são subversivos que vão se manifestar nas ruas e que deve ser contidos. Em seus âmbitos, são beneméritos e, em primeiro lugar, se preocupam em manter viva também nos outros a capacidade de pensar autonomamente", afirma Franz Wild, decano geral da diocese de Linz e membro da Pfarrer-Initiative.
O fundador da Pfarrer-Initiative, Helmut Schüller, apesar dos primeiros procedimentos contra os seus padres "desobedientes", permanece fiel à sua linha. "Eu vejo a questão de modo tranquilo. Com as sanções, o sistema da Igreja se expõe nuamente. Aqui se exerce o poder de pessoas que não estão submetidas a nenhum controle. Quem verifica o que o papa ou os bispos fazem ou não fazem? Ninguém. Fica evidente o governo do poder descontrolado", reflete Schüller. Ele persiste em considerar que é justo manter o conceito de desobediência, que levantou muita discussão: "A desobediência é a resposta especular ao atual sistema eclesiástico".
Alguns poucos telefonemas aos párocos membros ou apoiadores da iniciativa mostram que eles também – confrontados diante da escolha – renunciariam ao cargo de decano. Franz Dammerer, decano do decanato Ybbs an der Donau e pároco em Wieselburg, diz que pode entender a decisão de Meidinger, e que os bispos deveriam dar mais importância ao evangelho do que ao direito canônico. Ele acha que os bispos não ousariam substituir todos os decanos "desobedientes".
Wolfgang Unterberger pensa de forma diferente: "Agora a questão se referirá pouco a pouco a outras pessoas", considera o decano de Viena e pároco. Ele foi confirmado no cargo há pouco meses. Então, ele não tivera a sensação de possíveis mudanças de atitude. Gerald Gump poderia ter que sair no outono de 2013, quando termina o período do seu cargo no decanato de Schwechat. Se for assim, "sobreviverei mesmo assim", diz Gump.
Jan-Heiner Tück, do Conselho Diretivo do Instituto de Teologia Dogmática da Universidade de Viena, considera que pode compartilhar absolutamente as medidas dos bispos. "Por causa da manutenção da palavra 'desobediência', a estrutura comunicativa foi perturbada. Um decano é, em uma parte da Igreja local, o representante do bispo. Se, com relação ao bispo, ele permanece não só teórica, mas também praticamente em estado de desobediência, então a tensão presente, a longo prazo, se torna pesada". Nesse sentido, ele entende a decisão do cardeal: "Ele chama a atenção para uma dissidência que torna difícil a gestão".
No entanto, Tück adverte contra a interpretação da decisão relativa ao decano como uma sanção contra a Pfarrer-Initiative: "Não devemos dramatizar mais do que o necessário. Concretamente, trata-se do cargo do decano".