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27 Novembro 2011

"A vida continua com muita intensidade por esses lados da fronteira. O movimento Guarani Kaiowá está com uma intensa agenda de mobilizações, visitas e encontros. Hoje está acontecendo uma Aty Guasu em Yvy Katu. Amanhã haverá visitas a Puelito Kue e Guaiviry, juntamente com uma delegação da Presidência da República.  Depois haverá um encontro com representantes de 11 ministérios para discutir e criar um comitê gestor de políticas para os Kaiowá Guarani e assim por diante", escreve Egon Heck, do Cimi-MS, ao enviar o artigo que publicamos a seguir.

Eis o artigo.

"Há 28 anos quiseram fazer calar a voz do líder indígena Marçal, o grito foi além fronteiras e fez ao mundo dirigir o seu olhar para o povo Guarani-Kaiowá , porque é forte o grito dos homens,  que estão juntos como um arco-íris no abraço de Mar a mar. Vamos continuar a gritar a invencível causa dos pobres, como irmãos e irmãs com o amor da Mãe Terra,  como um sinal de bondade de ternura e vida plena, acreditemos na proposta de vida dos povos indígenas." (Francy Perez).

As milhares de manifestações, de atos contra a impunidade e solidariedade ao povo Guarani, são um claro gesto de que é necessário dar um basta a esse massacre e genocídio dos povos nativos desta terra.  Essa guerra secular tem que acabar!

"É o que está acontecendo neste Estado, onde, em ondas sucessivas de repetidos assassinatos contra grupos indígenas, semeia-se ao lado de corpos crivados de balas, a sensação de que se vive num Estado cuja lei só submete os pequenos. Enquanto aguardam pela identificação e delimitação de suas áreas, um a um do povo Guarani vai tombando, semeando cruzes, misturando-se ao pó e ao capim broquearia e a cana, e seu dono, de hálito de pólvora e bovinos métodos de extermínio." (Carlos Alberto – "Acorda Mato Grosso do Sul" – novembro 2011).

Contra a impunidade e em defesa dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul

"Queremos justiça, queremos justiça!" Em coro, mais de 300 pessoas, gritam no auditório da Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul. A voz potente de Mercedes Sosa, pede  que  não sejamos indiferentes ante tantas vidas matadas, num mundo tão injusto! De Marçal Tupã’i a Nisio Kaiowá Guarani,  muitas vidas foram plantadas  no chão encharcado de sangue. Forte emoção no plenário. Uma criança Kaiowá entra trazendo uma vela acesa. A luz não pode ser sepultada. Nisio, assim como Marçal e centenas de lideranças desse povo irão iluminar os passos na reconquista de suas terras.

No documento assinado por mais de setenta entidades, é exposta a gravidade extrema da violência e as urgentes e necessárias providências "O atentado contra Nísio Gomes e sua comunidade reflete ao mundo um dos piores quadros de violações de direitos humanos contra povos originários. Os  índices de terras ocupadas efetivamente pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul maculam a medida do bom senso, com reservas superlotadas e infestadas pela falta de condições dignas de vida para seus habitantes....A agressividade em que os setores contrários aos direitos indígenas impõem seus interesses é intolerável, mas tem sido respaldada pelas omissões do Estado brasileiro. O Brasil não poderia reivindicar espaços nos órgãos internacionais, como a ONU, defendendo direitos de povos no mundo afora sem sequer ter reconhecido os direitos dos povos brasileiros. Uma contradição insustentável que deve ter atenção especial dos organismos nacionais e internacionais".

Para finalizar o ato, o deputado Pedro Kemp, batalhador da causa e  propositor do evento, convidou os presentes para cantar com ele o hino em homenagem a Marçal, para lembrar os 28 anos em que ele foi plantado nessa terra para dar certeza de que os Guarani terão de volta as terras que lhes pertencem secularmente. "Marçal, Marçal, tua morte só apressa o dia em que o alto preço dessa covardia será cobrada  pelos Guarani", O ato começou com a emoção do hino nacional cantado em Guarani, e terminou com essa linda canção em homenagem aos lutadores, heróis e mártires desse povo.

Uma comissão da Secretaria de Direitos Humanos da Presidencia da Reepública esteve no local para se inteirar dos fatos e tomar algumas providencias imediatas  "segundo Ramaís Silveira, enquanto houver um impasse sobre a posse das terras, equipes da Força Nacional serão mantidas na entrada da fazenda. A medida foi tomada pelo governo brasileiro para evitar outro CONFLITO na área." É uma vitória da terra e de seus filhos.

A Polícia Federal considera que as investigações estão bem avançadas. "Os vestígios de sangue estão sendo analisados pela perícia. Pela quantidade de sangue encontrada no local pode se afirmar com convicção que o ferimento que o cacique tenha recebido foi mortal", revela Edgar Marcon, superintendente da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul. (G1, 25-11-11).

Comitê Nacional de Defesa dos Povos Indígenas do Mato Grosso do Sul

A indignação deve se transformar em ações concretas em solidariedade transformadora. E movimentos sociais, acadêmicos e de instituições nacionais como a OAB, trataram logo de criar um instrumento em defesa permanente dos povos indígenas deste estado, para colocar um basta nesse processo de morte, de genocídio. No dia 24 deste mês foi criado um organismo integrado por mais de 40 entidades regionais e nacionais com o objetivo de "defender a população indígena contra todas as formas de violência, seja por ação, ou por omissão, seja por parte de particulares  ou do poder público."

 

Os trata como forasteiros,

Como se não fossem daqui!

Da grande Nação Guarani,

Explode o grito de dor,

Queremos justiça,

Devolvam os corpos

Roubados, a paz matada,

A terra sagrada,

Para continuar plantando

Nossos sonhos

Com o sangue semente,

Com o sorriso de Nisio,

A veemência de Marçal,

A sabedoria ancestral!

Amanhã será um novo dia,

De viver com alegria,

No chão da liberdade

E da terra reconquistada!

Mba’e japa

 


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